<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235</id><updated>2011-10-01T14:43:05.465-03:00</updated><category term='wikileaks'/><category term='capitalismo'/><category term='proibicionismo'/><category term='antropologia'/><category term='esquizoanálise'/><category term='poesia'/><category term='freeganismo'/><category term='espanta-público'/><category term='micropolítica'/><category term='ética'/><category term='cyberpunk'/><category term='bando'/><category term='reciclagem'/><category term='epistemologia'/><category term='faça você mesmo'/><category term='arte'/><category term='surrealismo'/><category term='anonymous'/><category term='contracultura'/><category term='ecologia'/><category term='magick'/><category term='internet'/><category term='feminismo'/><category term='filosofia'/><category term='psicoativos'/><title type='text'>Rota 32</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lênon Kramer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00083660154252604791</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3MgqrYLstJg/Sd0k7r8hKUI/AAAAAAAAAB4/wNQZXp6lJtA/S220/n1226192761_5300.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>9</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-2996231858160459915</id><published>2011-08-12T21:14:00.011-03:00</published><updated>2011-08-13T11:18:04.073-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cyberpunk'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='capitalismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='internet'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='surrealismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='contracultura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='arte'/><title type='text'>De um só fôlego:</title><content type='html'>&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-TZkqQy4m5U4/TkXCJP_rc_I/AAAAAAAAAGY/memTz-2F_8U/s1600/The-Aim-of-Life-Henry-Miller-Posters+wwwmyspacecom+AshtonBarker.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="315" src="http://1.bp.blogspot.com/-TZkqQy4m5U4/TkXCJP_rc_I/AAAAAAAAAGY/memTz-2F_8U/s320/The-Aim-of-Life-Henry-Miller-Posters+wwwmyspacecom+AshtonBarker.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;"o sentido da vida é viver, e viver significa estar consciente,&lt;br /&gt;jubilantemente, embriagadamente, serenamente&lt;br /&gt;consciente" (Henry Miller)&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;1 - as costas em chamas; piratas!&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que uma boa razão para se piratear informação é tornar a arte institucional - e seus derivados da indústria cultural - um mau negócio. "Os artistas vão ficar sem dinheiro", gritam os pop stars e os oportunistas. Balela. Começo dizendo que os melhores artistas fazem o que fazem porque lhes é um imperativo, uma necessidade biológica, uma chama que vem de dentro ou um vento que sopra do futuro em seus ouvidos - eles farão o que fazem ganhando dinheiro ou não. Eles são fetichistas, são tarados, pela criação e seus requintes - pela invenção, pelo detalhismo, pelo aprofundamento. E portanto os músicos contraculturais coexistem nas galerias subterrâneas com os nerds que fazem da programação uma arte - e com isso, formentam a cultura open source.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;A tara da criação pode movimentar dinheiro, o fará se necessário - mangueará na rua como um hippie, de bike no sinal como um Celton, vendendo poesia no trem e no botequim como tantos poetas ao meu redor - e o fará bem feito, se o fizer com paixão. Talvez seja necessário esforço, mas que se foda! Estamos vivos e nos esforcemos então. O que importa é que o melhor da arte é feito com espírito de doação - como ato de excesso, de abundância, de transbordamento - porque a arte é a invenção de uma comunitariedade, de uma contracultura, e porque a contracultura e a comunitariedade são a arte de inventar uma cultura - o resto é mesquinharia, burocracia, o resto é escassez com uma embalagem reluzente, o resto é espetáculo. Viveremos melhor com menos Britney Spears e portanto mais dinheiro pros menores, e que Hollywood se expĺoda. E que os artistas aprendam a se fazerem necessários, pra pessoas de fato, e não para um "público" genérico. (É imprescindível impedir o público de entrar, dizia Breton), que eles se façam necessários cultivando a vida, as florescências semióticas, as sinestesias, as reminescências, as vertigens, as inversões de perspectiva, os mise-en-abysme, as transgressões de protocolo, etc. Que eles não tenham dinheiro e então tenham que rachar casas com outros artistas para, quem sabe, aprenderem a conviver com seres humanos. Que eles reassumam seu lugar como inventores de um mundo e façam proliferar a invenção, que eles espalhem o Maravilhoso e inspirem as lutas e o desejo de liberdade ou não e etc. Que sejamos todos artistas, nesse sentido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;2 - Mãe Monstro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O surrealismo é interpretado com muita má vontade, babação de ovo pro Dali, o tedioso minotaurismo de Bataille, e toda aquela paranóia sobre a irracionalidade. Mas o surreal não é o imaginário, a besta não merece ocupar o lugar de deus, esse lugar não merece existir, e por isso mesmo o surrealismo é o inimigo declarado do pai, do estado, da religião, de forma que ele não pode ser fascista, PONTO. O que o surrealismo adiciona ao dadaísmo é a perspectiva da revolução - uma espécie de além-da-crítica - a percepção clara de que a revolução proletária TEM DE SER a revolução da capacidade vital, criativa, inspirada do homem, ou isso ou se converte em mera reorganização burocrática da repressão. E nesse ponto Reich e suas vegetações encontra Breton e seus automatismos e a trama se tece, Crowley e sua era de Hórus, "Faça o que tu queres", Fernando Pessoa escreve o Hino a Pã, os beats se lançam à estrada e os hippies se lançam ao viver comunitário e na Espanha o anarquismo se instala em Barecelona, Henry Miller larga seu emprego e vive de pedir empréstimos e irradiar sua energia, Estamira manda o capital se fuder e vai viver no lixão, pregando seu verso livre profético, Artaud morre agarrado a um sapato num hospício enquanto sua gargalhada ecoa nas ondas AM, Piva encontra os Anjos de Sodoma e Ginsberg vê Moloch, os Tropicalistas e os canibais e os "índios" e muitos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lady Gaga? Entedia-me com sua fantasia brega cobrindo o corpo católico. Estará passé muito rápido. Sua ficção científica é decadente, suas roupas saíram de moda nos 80, e no entanto você é realmente importante, um marco, uma espécie de versão cooptada do Dali ou uma Kate Bush empalidecida e sintética. Você é o veneno de Dada finalmente atingindo a música pop, o estertor de morte da indústria cultural. Você é uma ironia ambulante, tão cônscia de si e de sua artificialidade - você é um ciborgue e cria como um ciborgue. De certa forma é um monstro - mas não porque é visceral, e sim porque é construída, porque denuncia toda a construção e torna evidente a agonia que é o interpretar. Você é a primeira estrela cyber-punk, uma projeção perversa em neon. Você cheira a decadénce e por isso me entedia, você cheira à derroacada e desmoronamento do império americano, você cheira a invasões bárbaras &amp;amp; o dinheiro finalmente dá uma volta ao mundo sentido leste e retorna à China, à China que há milhares de anos foi o centro do mundo com a rota da seda. E é o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-NQ88jr-iOEI/TkXCgfhd5kI/AAAAAAAAAGc/pTM8O7T_NXQ/s1600/kate-bush-ivy1-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://1.bp.blogspot.com/-NQ88jr-iOEI/TkXCgfhd5kI/AAAAAAAAAGc/pTM8O7T_NXQ/s320/kate-bush-ivy1-2.jpg" width="225" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Já a Kate Bush tem meu respeito&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-2996231858160459915?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/2996231858160459915/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/08/de-um-so-folego.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/2996231858160459915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/2996231858160459915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/08/de-um-so-folego.html' title='De um só fôlego:'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-TZkqQy4m5U4/TkXCJP_rc_I/AAAAAAAAAGY/memTz-2F_8U/s72-c/The-Aim-of-Life-Henry-Miller-Posters+wwwmyspacecom+AshtonBarker.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-423710913325321633</id><published>2011-06-02T17:45:00.007-03:00</published><updated>2011-06-03T13:22:39.670-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='feminismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='micropolítica'/><title type='text'>Post onde respondo a "15 perguntas que as feministas não sabem responder", parte 2</title><content type='html'>&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-id8mG4rEw8c/TefptfUGJfI/AAAAAAAAAF4/1INBbiPOQ98/s1600/tumblr_lm0kh3LBX91qzw5u3o1_500.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="266" src="http://3.bp.blogspot.com/-id8mG4rEw8c/TefptfUGJfI/AAAAAAAAAF4/1INBbiPOQ98/s400/tumblr_lm0kh3LBX91qzw5u3o1_500.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;"Um orgasmo é melhor que uma bomba."&lt;/span&gt; &lt;a href="http://jardineria.tumblr.com/post/6114549912"&gt;(fonte)&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Na &lt;a href="http://rota32.blogspot.com/2011/05/post-onde-respondo-as-15-perguntas-que.html"&gt;primeira parte&lt;/a&gt; desse texto eu defini feminismo como "teoria e prática do combate ao patriarcado", sendo que o patriarcado não é o machismo, nem são os homens - e sim a estrutura que organiza, sobrepõe, corpos e palavras, desde o início uma estrutura de violência contra a mulher. Começamos então a caçar pela economia, pela 'cultura' e por nossa história o que é exatamente essa estrutura. Aos interessados em ler a parte dois que não tenham lido a &lt;a href="http://rota32.blogspot.com/2011/05/post-onde-respondo-as-15-perguntas-que.html"&gt;parte um&lt;/a&gt;, recomendo muito que voltem lá e leiam!&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O patriarcado constrói tanto um mercado quanto uma hierarquia na qual nos situamos conforme investimos nosso desejo em sua estrutura. É uma questão de valores, de ganhar ou perder pontos simbólicos como se ganharia ou perderia dinheiro em um mercado. Como no mercado, é uma situação de escassez, que depende da escassez, FABRICA a escassez para se manter. Sabe aquele mote de que "você nunca pode ter o suficiente"? De que "quanto mais se tem, mais se quer"? Isso parece um senso comum de nosso mundo, algo tão natural quanto o ar que respiramos, mas essas colocações só soam verdadeiras por causa de um contexto histórico muito específico - por causa das contingências, dos acidentes, dos encontros históricos que deram origem ao mundo em que vivemos hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;A primeira vez que cruzei com essa idéia foi muitos anos atrás, nas aulas sobre o sociólogo Max Weber - o professor explicou o que Weber chama de "racionalidade tradicional", distinta da racionalidade capitalista: nessa lógica, se você trabalha - digamos, como jardineiro - ganhando 50R$ por dia, e um dia por qualquer razão ganha 100R$, a racionalidade tradicional conclui que o lógico é deixar de trabalhar o dia seguinte, ao invés de continuar ralando pra juntar ainda mais. Depois fui ter contato com o (aliás, renomado) antropólogo Marshal Sallins, que argumenta que as sociedades caçadoras-coletoras operam, na maioria dos casos, numa 'economia da abundância', onde o importante é evitar acúmulo. Claro, se você é um nômade, não tem utilidade armazenar mais coisas do que pode carregar! Elas só vão pesar nas suas costas. Mas mesmo sociedades que praticam agricultura ou pecuária mais ou menos sedentárias ainda se evadem à lógica do mercado: troca comercial é algo que, na melhor das hipóteses, você faz com seus inimigos. Porque você tentaria tirar o máximo de lucro às expensas de alguém que é "dos seus"? Porque construir uma situação onde um só ganha quando o outro perde? Essas sociedades não deixaram de inventar o mercado porque eram burras demais, simples demais, elas ativamente o recusaram: os antropólogos apontam a recorrência de festas estilo &lt;i&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Potlatch" title="praticado entre várias culturas da costa noroeste do pacífico, segundo a wikipedia"&gt;potlach&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, festas onde a graça está em destruir os acúmulos, as vezes até competindo entre si pra ver quem doa mais uns pros outros, quem destrói ou desperdiça mais acúmulo, para que enfim não haja acúmulo. Acumular é a prática característica de mercados de escassez, acúmular por segurança, acúmular sem saber porque. Ontem vi uma manchete na capa de uma dessas revistas de negócios, "existe vida após a aposentadoria?" - executivos e CEOs de várias empresas contam sua experiência em continuar trabalhando até vinte anos após a aposentadoria. Juntando, juntando, pra que os filhos tenham uma vida segura e possam juntar mais e mais e mais. Tá certo que competir pra ver quem doa mais talvez não seja uma solidariedade lindamente descompromissada, mas ilustra a relação entre a abundância e a dádiva, e a oposição dessa lógica à economia de escassez e ao seu característico acúmulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-UN5LxyOjGkM/Tefw4YUXvEI/AAAAAAAAAGA/i37P692Ukyg/s1600/a095524-v6.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="255" src="http://1.bp.blogspot.com/-UN5LxyOjGkM/Tefw4YUXvEI/AAAAAAAAAGA/i37P692Ukyg/s400/a095524-v6.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Chefes Tlingit em roupa completa de potlach, 1904 &lt;a href="http://blog.linedandunlined.com/post/404917364/form-giving"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://blog.linedandunlined.com/post/404917364/form-giving"&gt;(fonte)&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;A economia libidinal do patriarcado é um mercado de escassez onde todo mundo perde, &lt;i&gt;mesmo quem ganha&lt;/i&gt;. Porque no topo da pirâmide temos um ideal, temos uma idéia - o "macho alfa" - que pode ser vivida como um papel, pode servir como lugar/posição de enunciação, mas jamais se confunde com as pessoas que ocupam esse lugar. &lt;i&gt;Nenhum homem é o macho alfa&lt;/i&gt;, ponto. Na medida em que ele às vezes simplesmente não quer trepar, na medida em que ele sofre ridículo, na medida em que ele brocha, sente tesão por outros homens, na medida em que ele se sente fraco, na medida em que ele empobrece, na medida em que ele se apaixona ele se afasta desse ideal. E se essas coisas não aconteceram ainda com esse homem, elas no mínimo pairam sobre ele como potencial, como risco constante. Ele está em dívida constante e inescapável com o ideal que incorporou. Ele perde na medida em que devêm macho alfa quando vai pra cama com uma mulher não porque ele sente afeto, tesão, ou o que for, mas pra marcar pontos. Parafraseando o mestre Gaiarsa, &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=YAcYftmlnyc&amp;amp;feature=related"&gt;tem gente demais no quarto dele&lt;/a&gt; - todos a alcatéia masculina o acompanha em espírito quando ele transa, a vontade dele é terminar a foda e sair correndo pra contar pros amigos o que rolou, foda-se se foi bom pra ele. Ejacular, gozo mecânico, vá lá, mas prazer mesmo - enquanto algo mais do que alívio - eu duvido que ele tem, porque duvido de sua intimidade com seu próprio corpo e com a pessoa que ele tá, duvido que ele se sente à vontade quando o cu dele pisca no prazer, sim, o cu apertando e piscando durante o sexo pra gerar prazer, a gente faz isso na maior parte das vezes inconscientemente, mas faz, podem observar em si mesmos. O corpo do macho alfa foi recortado hierarquicamente também, e ele precisou renegar a maioria de seu potencial orgástico, a maioria de seu fluir sensorial-emocional, o cu, a pele, pra poder se aproximar do rígido transcendente que é o topo da pirâmide. &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Warren_Farrell"&gt;O homem no patriarcado é feito também objeto&lt;/a&gt;, &lt;i&gt;objeto de sucesso&lt;/i&gt;, sua auto-imagem está atada a seu sucesso econômico - lê-se sua sujeição ao trabalho, sua objetificação como objeto de trabalho - e seu sucesso entre a alcatéia masculina, e por isso ele não faz as coisas por si, por seu corpo, por seu desejo, ou melhor, ele fez de seu corpo objeto e fez de seu desejo desejo de sucesso entre os homens. E aí está a sua miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele está com uma mulher. Parte do gozo simbólico dele provavelmente é um gosto misógino - porque pra ele, a mulher com quem ele trepa está perdendo alguma coisa, está perdendo status. Ao menos na medida em que ele conseguir evadir o casamento e o compromisso. Talvez, na cabeça dele, ela esteja apenas atrás do sexo pra "apanhá-lo" num compromisso. Talvez não e por isso será uma puta, uma vadia, uma coisa inumana digna de violência. A mulher que se enquadra no padrão de beleza e conquista pra si um macho alfa está na posição logo abaixo da pirâmide sócio-libidinal, é a "mulher objeto" bem sucedida. Ela não se iguala ao macho alfa porque enquanto ele é capaz de, numa faixa estreita, ganhar ganhando (ou seja, de viver sua sexualidade e ganhar socialmente com isso), ela nunca ganha a não ser perdendo, e nunca perde a não ser ganhando: se ela goza, se ela transa, ela perde pontos, ela desce pela pirâmide e o limite é o chão, a pior de todas as situações: ela é educada desde cedo, REPRIMIDA desde cedo, com um rigor muito maior que qualquer homem, para "protegê-la", porque família nenhuma quer esse destino miserável a suas filhas. A mulher bem sucedida no patriarcado ainda é objeto de chacota da alcatéia masculina, ela ainda está restrita à posição de enunciação meio-gente-meio-bicho à qual relegamos as mulheres, mas enquanto se mantiver um "objeto" bem sucedido, rica, arrumada, siliconada, gostosa, suscitará um tipo específico de apreciação e desejo por parte dos homens, o que a confere certo poder. Como quem já sofreu bullying por parte de mulheres-objeto bem sucedidas, pontuo com propriedade: elas estão logo acima dos "homens losers" na hierarquia (embora, comparadas a eles, esteja sob o risco de cair ainda mais abaixo). Os homens losers são aqueles que não pegam mulheres suficientes (às vistas da alcatéia), &amp;nbsp;não tem grana suficiente, são todos os homens que desviaram demais do macho alfa por qualquer razão, mas ainda são homens, pretendentes aptos a quem sabe incorporar o macho alfa. E logo abaixo deles está o chão, aonde vão parar todos os outros. Gays, lésbicas, trans, mulheres feias, mulheres pobres, e assim vai: essa é a base da pirâmide. Esses são aqueles que sofrem as piores objetificações, aos quais é negada a humanidade: são violentáveis, dispensáveis, dignos de pena, raiva ou, quando muito, de serem ignorados. São aqueles que não ajuntam pontos na hierarquia do patriarcado seja porque desviam de sua matriz binária heteronormativa, seja por serem mulheres que não se prestam a uma objetificação bem sucedida ('feias, pobres').&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-YgGbLd1J-08/TefzTYj2EtI/AAAAAAAAAGE/CP1Ut7-WqYA/s1600/p%25C3%25A7asete.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="239" src="http://4.bp.blogspot.com/-YgGbLd1J-08/TefzTYj2EtI/AAAAAAAAAGE/CP1Ut7-WqYA/s320/p%25C3%25A7asete.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Praça Sete/Belo Horizonte: Ele, sempre ele... &lt;a href="http://br.olhares.com/praca_sete_foto2547882.html"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://br.olhares.com/praca_sete_foto2547882.html"&gt;(fonte)&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;Simbólicamente, todos esses ocupam o lugar da mulher: a eles falta o FALO, falta o ideal transcendente no topo da pirâmide. E a pirâmide mesma é uma distribuição da falta em relação ao falo transcendente, uma economia de escassez propriamente dita, segundo uma regra ideal que ninguém pode alcançar e que faz com que todos percam. A posição esquizofrênica, dividida, na qual as mulheres são colocadas tem tudo a ver com isso: enquanto os homens vão se distribuir pela pirâmide em distâncias relativas ao falo, e ganham conforme se aproximam de incorporá-lo, e perdem conforme se afastam dele, as mulheres são desde o início um &lt;i&gt;outro&lt;/i&gt;, elas nunca podem ter o falo para elas - podem, na melhor das hipóteses, serem objeto de alguém que o possui - e elas estão sempre meio lá em cima, meio lá embaixo, só podem ser bem sucedidas deixando de ser elas mesmas, e se são elas mesmas, são relegadas ao pior dos mundos. E por isso mesmo o feminino é uma abertura pra invenção: no seio dessa divisão, dessa fissura, está a demanda e o devir criativo de algo novo. Não há "a mulher" exceto como &lt;i&gt;outra&lt;/i&gt; do homem, em relação com o falo: e por isso "a mulher" é um processo de invenção em aberto, "a mulher" contém em si todos os 5000 gêneros que podemos inventar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa dívida para com o falo pode ser chamada de "castração", mas não caiamos em psicanalismos. Somos todos castrados, mas essa castração é só o índice, a marca de nossa vinculação ao patriarcado - 'você deve faltar pra poder funcionar socialmente'. &lt;i&gt;Somos colocados em dívida para que nos mantenhamos fiéis à essa estrutura, à essa máquina social&lt;/i&gt;. Somos colocados em dívida apenas pra que tenhamos medo, muito medo, de se afastar desse mercado libidinal e cairmos na base da pirâmide. O mercado libidinal da falta, a pirâmide do falo, é o patriarcado em sua face mais nua, uma estrutura de distribuição da escassez. O falo começa por recortar homens e não-homens, sendo os homens aqueles que concorrem ao falo e os outros, não-homens, aqueles que podem no máximo se fazer objeto de homens pra se beneficiarem de sua posição relativa da na pirâmide. A mulher e os outros são desde o início objetos a se ganhar ou destruir pela lei do falo, e relegados ao plano do corpo, a uma situação de nem-gente-nem-bicho, o patriarcado tenta fazer com que sequer possam FALAR disso (e daí a velha velhíssima crítica - as feministas, essas FEIAS - oooh!! - não mercem ser ouvidas). Só o homem fala, sob a lei do falo, mas ao mesmo tempo TODO MUNDO PERDE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-PXvo1DfgPFU/TefrwBRk9xI/AAAAAAAAAF8/8g9vRXQ9rYI/s1600/pisenoshomens.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/-PXvo1DfgPFU/TefrwBRk9xI/AAAAAAAAAF8/8g9vRXQ9rYI/s1600/pisenoshomens.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Porque, com certeza, a solução é inverter&lt;br /&gt;tudo&amp;nbsp;e manter&amp;nbsp;tudo intocado.&lt;/span&gt; &lt;a href="http://meninasmapontocom.blogspot.com/"&gt;(fonte)&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;TODO MUNDO PERDE o contato direto, imediato, uns com os outros, que se passa no sentido contrário ao mercado abstrato de pontos e sua pirâmide imaginária. TODO MUNDO PERDE portanto o &lt;i&gt;amor&lt;/i&gt;, que ignora pontos e abstrações, que é avesso aos papéis e só entende o idioma da abundância, da doação, do ganho mútuo. TODO MUNDO PERDE na medida em que são sexualmente reprimidos pra poderem ocupar papéis de sucesso, perdem seus cus, suas peles, seu potencial orgástico, enquanto a família e a alcatéia masculina invadem o leito de núpcias puxando o homem e a mulher pra longe de seus corpos. TODO MUNDO PERDE na medida em que há também menos sexo acontecendo, uma vez que as mulheres - metade do fucking mundo - não podem trepar senão perdendo pontos. TODO MUNDO PERDE porque somos encurralados até dois sexos, dois gêneros e uma só orientação sexual, e nossa potência de inventar corpos, gêneros e orientações fica desperdiçada. TODO MUNDO PERDE mas a mulher perde especialmente, colocada numa posição inerentemente desconfortável dentro da pirâmide, uma posição duplo-vinculada - onde só ganha perdendo e só perde ganhando. E por isso, pela especificidade do feminino como "outro", como posição propícia à recusa do falo, como posição de invenção, é que eu penso o FEMINISMO como teoria e prática do combate ao patriarcado, essa e não outra palavra. Isso frisando que o feminismo não tá CONTRA os homens, ele tá À FAVOR deles e contra especificamente o falo transcendente / castração-escassez-falta. &lt;i&gt;Cada vez que se liberta uma mulher, se liberta um homem&lt;/i&gt;, como diria a sábia Margareth Mead.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por isso também eu afirmo que só há feminismo radical, não existe feminismo reformista ou moderado. Radical tem sido usado pra dizer "extremo", mas pra mim é aquilo que vai até a raiz (radícula), incide sobre a raiz. E a raiz é o patriarcado e as árvores somos nozes. Qualquer tentativa de "igualdade" dentro do patriarcado pode no máximo redistribuir a falta, trocar as pessoas de posições, até quem sabe fazer com que todos faltem em relação ao falo igualmente, grande vantagem! Patriarcado para todos. Eu vejo sentido em reformismos que busquem atenuar o sofrimento de algumas mulheres, certos desbalanços, mas sinceramente, inserir a mulher no mercado de trabalho, dar a elas o direito de serem objetos de sucesso como os homens - ou mesmo de serem bem tratadas como objetos sexuais - não é a proposta do feminismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-NeG5KqhpZwU/Tef0ugVacTI/AAAAAAAAAGI/fV4U5RZvT9U/s1600/tumblr_lkrekiGcnQ1qauil3o1_500.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="258" src="http://4.bp.blogspot.com/-NeG5KqhpZwU/Tef0ugVacTI/AAAAAAAAAGI/fV4U5RZvT9U/s400/tumblr_lkrekiGcnQ1qauil3o1_500.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Como isso tá ficando longo de novo, teremos de terminar numa terceira parte. Tem só mais uns pontinhos a abordar, da relação dos homens com o feminismo, aonde o &lt;i&gt;queer&lt;/i&gt; entra na história e, enfim, responder&amp;nbsp;explicitamente&amp;nbsp;as "&lt;a href="http://silviokoerich.blogspot.com/2011/01/15-perguntas-que-as-feministas-nao.html"&gt;15 perguntas que as feministas não podem responder&lt;/a&gt;", a maioria das quais - se fiz direitim meu trabalho - a essa altura já devem ter ou perdido seu sentido, ou ter sido respondidas. Até breve!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-423710913325321633?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/423710913325321633/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/06/post-onde-respondo-15-perguntas-que-as.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/423710913325321633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/423710913325321633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/06/post-onde-respondo-15-perguntas-que-as.html' title='Post onde respondo a &quot;15 perguntas que as feministas não sabem responder&quot;, parte 2'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-id8mG4rEw8c/TefptfUGJfI/AAAAAAAAAF4/1INBbiPOQ98/s72-c/tumblr_lm0kh3LBX91qzw5u3o1_500.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-6696926052777340327</id><published>2011-05-18T17:27:00.011-03:00</published><updated>2011-06-04T14:46:35.916-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='feminismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='micropolítica'/><title type='text'>Post onde respondo a "15 perguntas que as feministas não sabem responder", parte 1</title><content type='html'>&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-s_vOVKfnuPQ/TdQqFeugROI/AAAAAAAAAF0/yHpQIg5J8-o/s1600/Captura_de_tela.png" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="230" src="http://2.bp.blogspot.com/-s_vOVKfnuPQ/TdQqFeugROI/AAAAAAAAAF0/yHpQIg5J8-o/s320/Captura_de_tela.png" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #aa0000;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Tá bom, eu explico.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;Ontém eu topei no facebook &lt;a href="http://silviokoerich.blogspot.com/2011/01/15-perguntas-que-as-feministas-nao.html"&gt;com um texto&lt;/a&gt; - convenhamos, bastante cômico - que propõe 15 questões "que as feministas não vão saber responder". &lt;a href="http://silviokoerich.blogspot.com/2011/01/15-perguntas-que-as-feministas-nao.html" title="é, linkei o texto de novo"&gt;Dá uma olhada rápida,&lt;/a&gt; não precisa nem de ler se não tiver com tempo de sobra. De início pensei em me revoltar, do tipo, "qual é, esse cara tá me tirando (como feminista), é isso que não vou saber responder? não é possível...?!", mas rapidinho eu cheguei a conclusão de que valia mais um alt+f4 com uma risada do que meter a mão naquele poço de ignorância humana. Era difícil até acreditar que ele tava falando sério. Ah, eu tenho uma vida pra viver além de ficar duelando com a razão com qualquer idiota pelas minhas causas. Mas depois voltei ao facebook e, vendo os comentários, descobri que as pessoas tavam naquele clima de "falou tudo!". O único comentário destoante na discussão toda era um (meio tímido) "ow, que blog idiota.", talvez pela mesma preguiça que tive de comprar uma briga dessas. Hoje decidi escrever. Na real, eu já tava querendo sintetizar o que penso em termos de feminismo há um tempo, e achei aí um motivo pra desembolar o texto. Não tenho a menor esperança de convencer &lt;a href="http://silviokoerich.blogspot.com/2009/09/saiba-porque-eu-sou-um-bufalo.html" title="ahã cláudia, senta lá"&gt;o autor do texto&lt;/a&gt;, nem os caras que comentam no blog dele. Com sorte, eu afeto umas almas que já sintam um desconforto com discursos machistas como esse, mas não tenham aprofundado na teoria da coisa. Ou pelo menos jogo &lt;a href="http://machismonaoexiste.tumblr.com/" title=" que nível? poço sem fundo de ignorância!"&gt;o nível da discussão&lt;/a&gt; um milímetro pra cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Antes de tudo, eu acho que precisamos partir de uma definição de feminismo pra esse texto - uma que talvez seja boa pra se levar pra vida, que ajude a pensar. Muita gente diferente já usou esse nome, feminismo, na história, e todos sabemos (espero) que existem rixas e rachas internos ao movimento (o que é perfeitamente aceitável ao meu ver, e não é necessariamente um problema; talvez seja até o que mantenha o diálogo aberto e fluindo). Façamos a distinção entre o feminismo movimento e o feminismo que inventamos, em palavras, para pensar! O feminismo não é uma briga diretamente, de antemão, contra os homens (em geral), para diminuí-los ou dominá-los. Feminismo também não é uma luta pela igualdade - talvez já tenha sido, mas boa parte do movimento aprendeu e maturou para além disso. &lt;i&gt;Feminismo é a teoria e prática do combate ao patriarcado&lt;/i&gt;, e o patriarcado é uma &lt;i&gt;estrutura&lt;/i&gt; que se perpetua pela história. Acho que ajuda a imaginar isso pensar nos comunistas, que combatem o capitalismo, e eles sabem que o capitalismo não são os ricos, ou mesmo os pobres, bem porque os ricos e pobres são outras pessoas a cada geração; eles sabem que podia se trocar as pessoas de lugares e desde que os LUGARES se mantenham os mesmos, se mantenham distribuídos na mesma hierarquia, o capitalismo está continuando. O comunismo não combate os ricos, ao menos não de início (talvez combatam se os ricos entrarem no caminho, como costumam entrar, por razões fáceis de imaginar); os comunistas combatem o &lt;i&gt;sistema de exploração&lt;/i&gt; que produz esses ricos e pobres que conhecemos. Você não precisa concordar com os comunistas, só entender aí o que quero dizer com &lt;i&gt;estrutura&lt;/i&gt;, ou com &lt;i&gt;sistema&lt;/i&gt;, que é essencialmente a mesma coisa. Talvez nem todas feministas usem esses termos, incluindo aí muitas das feministas que me inspiram; mas pra mim ele é útil como forma de ligar esses vários pensamentos em um combate coerente. Uma estrutura é um sistema, uma rede, que distribui - digamos assim, organiza - corpos e palavras, de tal ou qual maneira. Da mesma forma que a manada de pássaros voando no céu é estruturada, da mesma forma que uma jam session (improvisação) de músicos é estruturada, da mesma forma que nossas rotinas individuais são estruturadas. Mas a estrutura vai além das "regras" que a gente é capaz de inventar pro que fazemos; ela desenha o espaço, os lugares de onde se pensa; designa os termos, as palavras que temos à disposição pra usar; seleciona os movimentos de corpo que podemos usar, isso tudo segundo tal ou qual gênero e opção sexual, segundo tal ou qual posição dentre as hierarquias da sociedade, tal ou qual cor de pele, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-4lS-_zsgd-o/TdQg0Mgk2jI/AAAAAAAAAFs/TDvfzFtLIAQ/s1600/tumblr_lhpj4ofBpn1qbhh33o1_500.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="213" src="http://3.bp.blogspot.com/-4lS-_zsgd-o/TdQg0Mgk2jI/AAAAAAAAAFs/TDvfzFtLIAQ/s320/tumblr_lhpj4ofBpn1qbhh33o1_500.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Espero que você cresça e tenha muito&amp;nbsp;parceiros&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;sexuais diferentes - ops, achei que era seu irmão! &lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;É por isso que eu digo que o feminismo não se propõe, acima de tudo, ao combate ao machismo e à misoginia ostensivos, à 'manifestação pública' de machismo. O machismo ou misoginia ostensivos, a "identidade machista", surgem e funcionam dentro do patriarcado, são talvez a postura mais em sintonia com o patriarcado - e por isso esses discursos precisem TAMBÉM ser combatido, mas se erradicássemos o "machismo" como discurso da superioridade masculina, invertessemos os corpos e críassemos uma supremacia feminina com um discurso "femista" a lógica patriarcal inteira - a estrutura - estaria intacta, e haveria uma tarefa histórica pro feminismo empreender. O machismo ostensivo é um monte de palavras e atos que acontecem dentro de uma estrutura, a partir de certos lugares estruturalmente determinados, mas a estrutura em si já é ofensiva, já é inerentemente machista e/ou misógina. Os termos através dos quais ela possibilita ou constrói essas posturas são um canhão apontado por sobre um lado, desde o início uma sistematização da violência de gênero. É nesse momento que fazemos a distinção entre uma vertente de pseudo-feminismo que busca desvalorizar - muitas vezes por meio de comédia - os homens, descrevendo-os por seus estereótipos sem sair da lógica patriarcal. Eles são sujos, canalhas, grossos, animais, mas a gente ama eles mesmo assim, que bom que há mulheres, inteligentes, sensíveis, observadoras para limpar as casas e conduzir esses animais. E quando os/as pseudo-feministas fazendo isso, reforçam uma estrutura de valores que PERMITE aos homens serem assim, "animais", e por isso podem estuprar legitimamente, caso a mulher "aja como uma vagabunda".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feminismo é teoria e prática do combate ao patriarcado, mas o que é o patriarcado? Precisamos começar por seus efeitos, por suas distribuições, pra então poder entender sua lógica mais profunda. Primeiro, ele manobra só com dois gêneros, é o que a feminista Judit Butler chama de sua "matriz heteronormativa": dois gêneros, homem e mulher. Sabem a diferença entre gênero e sexo? Sexo é o corpo com o qual você vive, o formato de seus orgãos sexuais digamos assim, e gênero são as palavras, do que se FALA ou DISCURSA a esse respeito, e as consequências dessas falas e discursos, as formas de se movimentar, falar, pensar que se produzem aí. E nunca se esgota o número de palavras que você pode inventar pra falar de seu corpo, nem formas diferentes de movê-lo. É possível ter um gênero, dois ou cinco mil. "Ah, mas não dá pra inventar qualquer coisa, tem um corpo ali que tá sendo descrito", podem reclamar a essa altura. Não, ele não tá sendo descrito, ele tá sendo INSCRITO. O corpo tá lá e podemos inscrever o que pensamos nele, com a tinta invisível da cultura, e dessa forma moldando-o. Talvez a tinta escorra pra fora, fique borrada, dê margem a muitas interpretações, talvez ela inscreva VAGINA onde você queria inscrever PENIS, mas de um lado ou de outro são sons e significados, berros de macaco que soltamos por aí, baseados no que imaginamos sobre as coisas, segundo tal ou qual método de imaginar. A estrutura é o que organiza e distribui essas inscrições sobre os corpos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-F_oITkKcOUw/TdQgU_Zah8I/AAAAAAAAAFo/OKcQgoSi4Ic/s1600/200651_150957864968087_100001616231439_330466_825753_n.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/-F_oITkKcOUw/TdQgU_Zah8I/AAAAAAAAAFo/OKcQgoSi4Ic/s320/200651_150957864968087_100001616231439_330466_825753_n.jpg" width="250" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O patriarcado então determina que só há dois gêneros, e distribui as características sobre um e outro, produzindo os papéis de gênero. Mulher é sensível e romântica, ou é uma vagabunda perigosa e ardilosa. Homem é forte, viril, incapaz de se controlar, violento, firme, rígido, objetivo. E fazendo isso a gente cria essas corporalidades, a gente é moldado e adaptado desde novos a produzir esses papéis. As mulheres são colocadas pra brincar de boneca, vestidas de rosa, impedidas de se exercitar plenamente, impelidas a controlarem seus corpos de tal forma, não abrir as pernas em público, não se mostrar porque podem atrair estupradores, a não treparem a não ser que seja pra namorar ou casar, etc. Os homens são colocados pra brincar de carrinho, luta, vestidos de azul, incentivados a se exercitarem, a fazerem pipizinho na graminha, a pegarem geral, a não chorarem nem desmunhecarem, a imporem sua superioridade sobre outras pessoas a todo tempo, etc. E assim condicionando os corpos a gente CONSTRÓI na prática os gêneros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vai mais fundo do que isso: poderíamos embaralhar várias dessas características e ainda terminar com uma sociedade patriarcal, com a mesma estrutura. O patriarcado é também uma forma de controle econômico e de trabalho, uma forma de expropriação material. As mulheres trabalham dentro do lar mas não possuem o lar; ele está, às vistas do estado e do mercado, nas mãos do homem. ‎"As mulheres fazem dois terços do trabalho mundial, produzem metade da comida mundial, mas ganham apenas 10% da renda e possuem 1% da propriedade", &lt;a href="http://www.google.com/events/iwd2011/#tab1" title="Segura essa, Marx"&gt;segundo o google&lt;/a&gt;. O trabalho doméstico não é enxergado por muitos como trabalho, mas porque não? É ralar do mesmo jeito, é fazer a sociedade funcionar, desconsiderar isso é coisa de quem nunca faxinou uma casa na vida, eu nem vou discutir isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mercado e o estado surgiram entre os homens, e para os homens, e não é de se surpreender que legisle acima de tudo pra eles ("se o papa ficasse grávido, não seria contra o aborto"). Lá atrás em nossa ancestralidade nós temos o deus patriarcal, nós temos a organização da família em um sistema de transmissão de propriedade, nós temos a troca de mulheres &lt;b&gt;entre os homens&lt;/b&gt;, nos casamentos arranjados. E desde nossa pré-história, com as sociedades caçadoras-coletoras sem estado, o homem vai ser estabelecido como Sujeito, ele vai assumir para si a Cultura, ele vai viver entre si a Política, e a mulher vai ser construída como o nem-lá nem-cá, meio bicho meio gente. E quem governava, uma vez que surgia o estado? Um homem. E quem tinha as armas? Os homens. E quem mandava, segundo as prescrições das religiões sacerdotais? Os homens. E esculturas de falos serão erguidas (enquanto a menstruação é simbolizada como sujeira, perigo ou doença), os cultos às deusas destruídos, um Homem Vitruviano vai ser inventado, e os homens ganharão sufrágio, direito à voto, muuito antes das mulheres (que, aliás, brigaram muito por isso). A própria História e a Filosofia surgem em meio aos bates-papos acadêmicos masculinos, levando em conta a experiência masculina da época - as gueras, os reis - enquanto o que viviam as mulheres florescia longe do texto. Ainda hoje, nossos grandes nomes das ciências são em sua maioria homens. Por isso, qualquer coisa que você anexe o adjetivo "tradicional" terá pra mim uma conotação machista, pois essa é nossa tradição, uma tradição que coloca o poder nas mãos dos homens, ou mais, ela produz o homem enquanto extensão do poder, pra escrever e violentar sobre os outros corpos e se safar com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-jBWigrkIj-8/TdQhS6NlvZI/AAAAAAAAAFw/YvgVnr5-498/s1600/tumblr_lh93h9RhQn1qdr80qo1_500.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://3.bp.blogspot.com/-jBWigrkIj-8/TdQhS6NlvZI/AAAAAAAAAFw/YvgVnr5-498/s320/tumblr_lh93h9RhQn1qdr80qo1_500.jpg" width="239" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Abstinência &amp;amp; ignorância não são uma&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;"alternativa segura" na cultura de estupro.&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;"Safar com isso?", você se espanta. Não é à toa que as feministas chamam o patriarcado de "cultura de estupro" que culpa a vítima. Não é à toa que muitas pessoas acham que "mulher feia", ou gays e lésbicas, ou trans e travestis podem ser livremente espancados e estuprados. E que a culpa vai ser deles por "darem na cara", por trazerem quem são a público, por se portarem assim ou assado em público - o mesmo espaço público que os homens hetero construiram entre eles pra eles, o mesmo espaço público onde as mulheres só podem aparecer como anexo, como objeto de um homem. A tradição vem desde as sociedades caçadoras-coletoras, em alguns casos; os homens se agrupavam para violentar as mulheres que transgredissem as regras tradicionais do feminino. Desde o início, o patriarcado é uma &lt;i&gt;institucionalização da violência&lt;/i&gt;, sob a justificativa da moral tradicional. Mas essa violência não é só física, é social e simbólica. Ela vai incidir sobre os corpos desde a formação do "eu", ela vai construir esse lugar na estrutura que é o "eu" dos homens - um "eu" que, conquanto reprimido, ainda pode pretender a uma certa unidade e universalidade discursiva, um "eu" que se monta sobre o topo da pirâmide hierárquica, se propondo transcendente - enquanto a mulher é montada num "quase-eu" que só pode existir oscilando entre os limites da SANTA e da PUTA, quebrada entre essas duas pinças ou vínculos, forçada dentro desse não-espaço entre uma coisa e outra, incapaz de ser ela mesma em ambos os lados; a ela será negada a universalidade porque ela é sempre um caso meio específico, um corpo específico (está de TPM? é bonita ou feia? falta sexo? é branca ou preta? etc). Ninguém nunca desconsiderou o que Platão escreveu julgando sua beleza, mas isso é uma coisa corriqueira que fazemos com mulheres (especialmente as feministas, acusadas de serem - OH!! - feias, e por isso indignas de serem ouvidas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas mais do que propor que as mulheres conquistem esse espaço, do topo da pirâmide, onde você é sujeito uno e universal e transcendente e descorporificado (patriarcado para todos!), eu penso em desmontar esse lugar, esse espaço, e aceitar que nenhum de nós é nem uno e nem universal. Mas essa parte 1 já tá ficando muito grande, então, fica pro próximo capítulo examinar a construção das subjetividades patriarcais, as relações com a repressão sexual, o mercado e com o estado, e também esmiuçar porque todos perdemos com o patriarcado e quais as alternativas à ele que consigo imaginar e propor na prática. Até breve!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Observação: A &lt;a href="http://rota32.blogspot.com/2011/06/post-onde-respondo-15-perguntas-que-as.html"&gt;parte 2&lt;/a&gt;&amp;nbsp;já está no ar!&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-6696926052777340327?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/6696926052777340327/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/05/post-onde-respondo-as-15-perguntas-que.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/6696926052777340327'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/6696926052777340327'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/05/post-onde-respondo-as-15-perguntas-que.html' title='Post onde respondo a &quot;15 perguntas que as feministas não sabem responder&quot;, parte 1'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-s_vOVKfnuPQ/TdQqFeugROI/AAAAAAAAAF0/yHpQIg5J8-o/s72-c/Captura_de_tela.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-8842358721834847227</id><published>2011-05-10T21:20:00.012-03:00</published><updated>2011-05-11T00:37:58.898-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='surrealismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='magick'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='faça você mesmo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='esquizoanálise'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicoativos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='espanta-público'/><title type='text'>Como fiz para mim um Corpo sem Orgãos</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-zOakehgojIA/TcnHj0wOBDI/AAAAAAAAAFg/sFkEuvj4QB8/s1600/alquimia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://1.bp.blogspot.com/-zOakehgojIA/TcnHj0wOBDI/AAAAAAAAAFg/sFkEuvj4QB8/s400/alquimia.jpg" style="cursor: move;" width="367" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;"Conectar, conjugar, continuar: todo um 'diagrama' contra os progamas ainda significantes e subjetivos. &amp;nbsp;Estamos numa formação social; ver primeiramente como ela é estratificada para nós, em nós, no lugar onde estamos; ir dos estratos ao agenciamento mais profundos em que estamos envolvidos; fazer com que o agenciamento oscile delicadamente, fazê-lo passar do lado do plano de consistência. É somente aí que o CsO [Corpo sem Orgãos] se revela pelo que ele é, conexão de desejos, conjunção de fluxos, continuum de intensidades. Você terá construído sua pequena máquina privada, pronta, segundo as circunstâncias, para ramificar-se em outras máquinas coletivas."&amp;nbsp;&lt;/i&gt;¹&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Doido de &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ayahuasca" title="também conhecida como Daime, vegetal ou huasca; a palavra significa 'vinho das almas'"&gt;ayahuasca&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, em um sítio nas imediações de BH, deitado em um colchão abraçado a uma série de pessoas aquecendo-se com os corpos, enrolados em casacos e cobertores. Parafraseando Deleuze e Guattari: "Um lugar, uma potência e um coletivo". Conforme o chá começa a fazer efeito o Sonhar irrompe na consciência e se torna palpável; com ele vem uma confusão de sensações, intensidades, ondas de excitação, imagens vistas com olhos fechados e luminosidades coloridas geométricas com olhos abertos.&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;O sonhar:&lt;/b&gt;&amp;nbsp;partimos da Sombra, nos estratos mais baixos, próximos à inconsciência - os delírios gato-rato, as paranóias, medos, vergonhas e raivas, com o frescor e ingênua crueldade da consciência recêm-desperta da longa noite inorgânica, o devir-animal no fundo do humano. Um visitante despreparado - como tantas vezes fui! - pode se assustar com os jogos de sombra que colorem os estratos baixos. Mas o imaginário só quer te enredar em suas histórias, e numa observação atenta é possível, momento a momento, reconhecer sua verdadeira natureza: corpo, sensações no corpo, sensações corporificadas. Os estratos mais baixos são plenos de perigos, mas apena enquanto você não reconhece neles a marca da corporeidade, apenas quando não descobre: "então sou eu afinal!". A Sombra possui a marca do corpo pois está apenas a exercer sua função - para a sobrevivência, para a manutenção do organismo - é preciso saber construir um inimigo, seja para se lutar para afastá-lo, seja para se curá-lo e torná-lo aliado. É imprescindível ter dentro de si o inimigo para que possamos projetá-lo para fora e então reconhecê-lo lá.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É exatamente a estranha autoridade do corpo sobre o Sonhar, a subserviência da Sombra ao corpo, que abre as portas para que então desfilem os estratos mais altos, as fadas do meio-dia, onde encontramos os sonhos luminosos e poderosos, as imaginações aliadas do ego, os anjos encumbidos de organizar o ser em uma imagem de totalidade, cada um em um cargo, uma lugar, uma função, produzindo no corpo o organismo. É preciso ver neles também a marca do corpo, e reconhecemos nosso próprio lugar nessa hierarquia, o lugar que ocupa o sujeito, o seu nome, a sua história, esse fantasma - da mesma natureza e substância que todo o resto do sonhar! - esse fantasma a quem chamo de Eu ou ego e que cuida ele mesmo de seus pequenos espíritos, das pequenas inúmeras vidas em sua jurisdição, o Eu que cuida de sua carne e permite a ela contornar as corporificações fragmentárias, vazias, cancerosas - mas isso explico melhor depois.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É importante não travar em nenhum lugar, não se deixar territorizar nem mesmo quando atravessando o território do eu - se quiser montar o seu Corpo sem Orgãos. É preciso incluir tudo, fazer todos os vasos se comunicarem e por os fluxos para circular; a ayahuasca vai cumprir sua parte no programa, rizomando por seu corpo e forçando a energia a escorrer, subvertendo as ligações hierarquizadas que sustentam os diques e bloqueios, fazendo tudo se ligar transversalmente; ela vai fazer o Sonhar atravessar seu corpo em ondas, e tão pior se você decidir resistir. É preciso incluir tudo, desde as imaginações mais vis até as imaginações mais belas, porque tudo isso é a potência do corpo, você pode dar vida a todas essas fadas, fantasmas e imaginações, para viver com elas ou dominá-las ou ser dominado, afetar e ser afetado, segundo seu programa e seu processo. É preciso abarcar todo sonho para que você possa fazer dele corpo, e afirmá-lo. Como o Aleph de Jorge Luiz Borges, o Sonhar é (também) esta pedra mágica que poderia ser examinada ao infinito, plena de um poder - você sabe como usá-lo? Não há receita pronta, há apenas um artefato e a possibilidade de experimentação, de invenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Condensar este contínuo que é o Sonhar até uma gema intensa, uma pedra&amp;nbsp;mágica, um ovo cósmico, um universo em miniatura que é seu, somente seu, ao menos enquanto conseguir se manter em relação de aproximação com ele. E depois de feita a gema mágica dos bruxos - sem deixar nada escapar - é hora de usá-la, de fazer algo acontecer com ela; não bem "usá-la" num sentido de sujeito-manipulando-objeto, bem porque ela te inclui, ela é maior que você, você é apenas um dos espíritos variantes da potência da pedra mágica. Você a usa e é usado por ela, você coloca a pedra mágica no centro ali onde antes estava o ego, e o sujeito agora pode oscilar ao redor da pedra, circulá-la como um corpo astronômico, consumir as intensidades que ela comporta, transitar pelos platôs aos quais ela pode te ligar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-g1j4rxnuN-Y/TcoDrOl3pMI/AAAAAAAAAFk/_kqmjgOghnw/s1600/etudes_table_emeraude_Solve-Coagula.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/-g1j4rxnuN-Y/TcoDrOl3pMI/AAAAAAAAAFk/_kqmjgOghnw/s320/etudes_table_emeraude_Solve-Coagula.jpg" style="cursor: move;" width="312" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A pedra mágica é um circuito que você fecha consigo mesmo, um circuito que se fecha em um corpo, apenas para abrir este corpo às conexões transversais - a pedra vai de você ao inconsciente e de volta a você, de uma vez só - delimitando não um castelinho sitiado mas um campo de experimentações. Brinquei com minha pedra circulando ao redor dela, de um lado ao outro - e a pedra permite que você explore idéias tão disparatadas, tão extremas, tão opostas, como marcos geográficos abrindo um norte-sul e um leste-oeste - e a pedra te permite percorrer as nuances, os gradientes, o continuum entre os opostos como quem percorre um platô - e a pedra povoa esse platô com suas próprias criaturas, suas intensidades, seus fluxos, suas fadas, fazendo meu pensamento girar como um moinho empurrado pela água, indo de um lado ao outro em uma circularidade que por si só não era restritiva, era uma máquina que funcionava, algo se produzia. E o que se produzia era exatamente isso, a sabedoria ou o conhecimento do que estava se passando, mas uma sabedoria sem pretensão de totalizar a pedra em seu sistema e sim contente de fazer parte dela, de nela ser máquina e por ela ser maquinada, uma sabedoria que não significava nada além de si mesma - mas se compunha em maquinismo com sua exterioridade. E a pedra é o corpo, o corpo pleno "sem orgãos" do qual falam Deleuze &amp;amp; Guattari. Eu surfava ao redor da pedra, deslizava por suas intensidades como ondas, às vezes suaves e às vezes violentas, um átimo de vantagem momento-a-momento sobre a possibilidade de capotar, intervindo apenas pra me certificar de que a minha gema mágica ainda estava ali por perto, firme em sua posição.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;De repente o processo é cortado&lt;/b&gt;, interrompido por um grito vindo de fora; talvez interrompido seja um entendimento por demais parcial, pois o processo continuou mas se reterritorializou sobre o que me rodeava. Uma amiga ralhava enfurecida com a outra, ambas doidas se ayahuasca também. Cogito intervir, oscilo entre o certo e o errado a se fazer nessa situação. Não entendo o que acontece e fico a imaginar, até que percebo que não faz sentido ficar ali sentado associando paranoicamente; melhor entrar na cena e esclarecê-ĺa para mim. Uma das amigas se trancou no banheiro e a outra chora sentada em um degrau da escada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao entrar no cômodo, ela se exalta - eu pisei em seu vômito (que é um subproduto comum na ayahuasca), eu pisei em seu vômito e ela não está preocupada com eu me sujar, e sim com o pobre vômito - "o meu feto, é o meu corpo, é ele que está aí, e ela mexeu nele, eu confiei nela e ela roubou minhas coisas" - o discurso vaza por fora da lógica convencional quando estamos nas esquizes como minha amiga está. Eu não entendo se é um não um feto literal, passo pela mente a improbabilidade dessa história, mas de qualquer forma aquele vômito esparramado importa a ela nesse momento como importa um filho, e quem sou eu pra discordar! Depois, ela me explicou que em nenhum momento a distinção entre o objeto-vômito e o símbolo-feto tinha lhe escapado de todo, e que falara assim sem explicar porque confiava que eu entenderia; tinha apenas decidido se entregar inteira ao processo. "É o meu corpo, eu estava fazendo ele, eu estava compondo meu corpo, e ela atravessou o meu rolê!". Lembro da advertência de Deleuze &amp;amp; Guattari: "Não vão te deixar experimentar em seu canto". "Eu estava me completando, me fechando assim como um feto, e ela interrompeu, eu disse a ela para não mexer, eu disse que eu mesma ia limpar mas ela não quis nem saber; ela me afrontou". &amp;nbsp;Minha amiga estava compondo seu próprio Corpo sem Orgãos, seu próprio feitiço; ali onde os símbolos habitam o corpo, ali onde não significam nada nem podem ser interpretados, apenas vividos; ali onde não se distinguem sujeito de objeto, na "participação mística" de que nos fala Jung (citando Lévy-Bruhl)· Se tornara um feto pleno de potência e capaz de reinventar a si mesmo, aprenderia de novo a andar e a falar, quem não quer para si essa possibilidade?³ Era essencial, às vistas da experimentadora, que ela mesma limpasse o vômito, pois ele veio de seu corpo e portanto era seu corpo, ela não podia deixar nada de fora que viesse a solapar sua autonomia, extrair fluxos do circuito que estava a fechar para si. E a intrusão da outra foi para ela acima de tudo maternal; funcionou como uma intrusão do édipo, da hierarquia familiar, sobre sua experimentação - o mesmo édipo que rouba de nós o corpo inserindo a falta ou castração no âmago da produção desejante. Ela havia projetado sua energia no corpo e o corpo-feto lhe tinha sido tirado, o bebê tinha sido roubado; o importante, pra mim, era impedir então que ela tentasse continuar o processo no vazio, girando ao redor da falta de um corpo, desterritorializando ao infinito, culminando na esquizofrenia ou na catatonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei-a carinhosamente pelos braços, chamei seu nome, lembrei-a de que não existe nada nesse mundo, nada, que possa nos afetar daquela forma, produzir tal ressentimento e mágoa e raiva, &lt;i&gt;a não ser que entreguemos o direito às coisas de fazê-lo&lt;/i&gt;. Era preciso fazê-la reunir a energia em si de volta, recuperá-la para seu eu; "você ainda está viva e pode produzir o seu corpo, em outras condições, o feitiço falhou mas a potência ainda está em você". E então ela voltou a si, ou seja, voltou a se centrar no sujeito, no ego, voltou a representar e a interpretar e a distinguir sujeito e objeto - "eu sei que é só meu vômito e não é mesmo um feto, mas isso não anula nada" - e eu concordei com ela, não anula, mas o crucial para mim estava resolvido. Porque o ego, o sujeito, a representação e a interpretação podem ser usados precisamente pra isso, pra interromper as esquizes que se fragmentam ou prolongam no vazio, e talvez esse seja seu melhor uso.&amp;nbsp;Nas palavras de D&amp;amp;G: "É necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora; pequenas provisões de significância e de interpretação, é também necessário conservar, inclusive para opô-las a seu próprio sistema, quando as circunstâncias o exigem, quando as coisas, as pessoas, inclusive as situações nos obrigam. e pequenas rações de subjetividade, é preciso conservar suficientemente para poder responder à realidade dominante"². O resto, quando funciona bem, deixemos na mão do corpo ou pedra mágica. "Eu sei que não dá pra voltar atrás, mas estou de luto", ela me disse. Assenti. Não sabia julgar esse luto, dizê-lo "certo" ou "errado", não queria gastar minhas forças com isso - satisfazia-me em saber que era o eu dela que respondia, que ela tinha resgatado energia suficiente de seu feitiço abortado para poder se afirmar em meio à esquize. Concluí com as palavras mais carinhosas e firmes que pude e deixei-a lidar com seu luto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A outra tinha interrompido o processo da primeira, provavelmente em sua ingenuidade e paternalismo de querer limpar o vômito - a outra não deu ouvidos aos protestos da experimentadora e insistiu em inserir seu corte. Mas eu via a situação toda além do bem e do mal, não para "desculpar" ninguém, mas sim evitar que se pensasse em culpa - manter tudo no presente, nas opções, no corpo, sem a necessidade de ressentimento. Por acaso nos ressentimos do escorpião que pica quando o ameaçamos, quando ele é afetado de forma a ativar seu reflexo de picada? Tolo de quem se lança nesse martírio. As duas que fizessem suas opções, seus julgamentos, de tentar se resolver ou se afastar; pois são elas que vão escolher e estavam escolhendo de qualquer forma e tão melhor se eu reconhecer sua autonomia aí. Vi a situação além do bem e do mal pois grito e o ralhar da primeira amiga interromperam tanto o meu processo quanto a segunda amiga interrompeu o da primeira - os gritos também ignoraram sumariamente as aspirações minhas e dos outros na sessão. Mas eu optei por não julgar e sim por entender o que se passava. Talvez essa opção só faça sentido em meu contexto, e não no delas - não existe opção "certa" - eu poderia muito bem tomar outra opção caso a situação fosse outra. Vi ali a possibilidade de usar a minha pedra, usar a minha magia - via palavras e afetos - como usaria um xamã em um caso de possessão: interrompi a esquize - ou melhor, interrompemos, eu e a amiga trabalhando juntos - e reinstalamos o nome próprio, como quem insere uma peça de volta em uma máquina. E acho que provavelmente o processo, a esquize, não se estenderia no vazio, talvez sem minha intervenção ela até mesmo montasse alguma máquina que lhe refizesse o corpo que lhe permitiria contornar a falta e a castração. Como saber? Tudo que fiz é parte de minha experimentação também, não existe fórmula pronta para a vida. A pedra comporta em si todos os limares e nuances das dimensões que ela aglutina e a única forma de vivê-la é percorrê-la como um nômade, montá-la como um &lt;i&gt;bricoleur&lt;/i&gt;, e é assim que venho aprendendo a fazer pra mim um Corpo sem Orgãos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;¹&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Deleuze e Guattari, Mil Platôs vol. 3, "Como criar para si um Corpo sem Orgãos", p. 24&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;²&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Deleuze e Guattari, Mil Platôs vol. 3, "Como criar para si um Corpo sem Orgãos", p. 23&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;³&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;"O ovo é o CsO. Se ele está ligado à infância, não o está no sentido de uma regressão do adulto à criança, e da criança à Mãe, mas no sentido em que a criança, assim como o gêmeo dogon que transporta consigo um pedaço de placenta, arranca da forma orgânica da mãe uma matéria intensa e desestratificada que constitui, ao contrário, sua ruptura perpétua com o passado, sua experiência, sua experimentação atuais. O CsO é o bloco de infância, devir, o contrário da recordação de infância. Ele não é a criança 'antes' do adulto, nem mãe 'antes' da criança,: ele é a estrita contemporaneidade da criança e do adulto, seu mapa de densidades e intensidades comparadas, e todas as variações sobre este mapa." -&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Deleuze e Guattari, Mil Platôs vol. 3, "Como criar para si um Corpo sem Orgãos", p. 27&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-8842358721834847227?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/8842358721834847227/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/05/como-fiz-para-mim-um-corpo-sem-orgaos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/8842358721834847227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/8842358721834847227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/05/como-fiz-para-mim-um-corpo-sem-orgaos.html' title='Como fiz para mim um Corpo sem Orgãos'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-zOakehgojIA/TcnHj0wOBDI/AAAAAAAAAFg/sFkEuvj4QB8/s72-c/alquimia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-2117516657939296915</id><published>2011-04-15T14:10:00.004-03:00</published><updated>2011-04-16T01:04:56.747-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='bando'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cyberpunk'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='micropolítica'/><title type='text'>Ética de Bando - Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;primeira vez que posto aqui desde que o blog foi reinaugurado... e ainda por cima, nem é um texto completo, mas um pedaço de post. peço desculpas desde já aos leitores, mas a paternidade e a academia raramente deixam um tempo livre para outra coisa. assim que der, eu termino.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Introdução&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Muito me surpreendeu ler no estatuto de uma associação comunitária de um bairro da cidade indígena de Iauaretê, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), que aquela era uma instituição sem fins lucrativos cujo objetivo era a produção de pessoas e da própria comunidade. O que mais me instigou à reflexão não foi o fato de eles se proporem a isso, mas o quanto nossa própria sociedade – cujo paradigma é a falta – deixa completamente de lado esse próprio aspecto. Quando falamos em produção, em produtividade, se imagina logo maquinarias técnicas, aço, Vale do Rio Doce. Parques não são produtivos, escolas não são produtivas (no máximo reprodutivas, e olha lá), bibliotecas e cerrados não são produtivos. Quando se fala em produção de pessoas, ou se coloca a educação como fator produtivo, é sempre enquanto produção para produção, ou pré-produção, se produzem não pessoas, mas mão de obra; não-pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Saindo da axiomática capitalista e olhando para a proposta, dita revolucionária, socialista (socialista de partido, para ser mais específico), os termos não mudam tanto. “Temos que desenvolver as forças de produção”, dizem, “ainda não é hora, o bolo tem que crescer”. Se critica as universidades brasileiras por não serem produtivas porque os diplomados não vão trabalhar na iniciativa privada, não criam novas indústrias. A revolução, é o que pregam, tem que se apossar dos meios de produção (de bens), tomar os sindicados das indústrias, o proletário é o sujeito histórico. O Homem Novo? “Fica pra depois”, “depois da revolução a gente pensa nisso”. Certo dia a revolução vem (e já veio, e de novo), e as pessoas continuam ficando para depois. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Este ensaio trata de uma linha de fuga, uma ética outra de produzir o social. É um exercício de politicar outrement. Em um pequeno círculo argumentatório eu proporei umas plataformas sobre as quais repensar o esquecido. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Bando e Pessoas &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um bando é um corpo de gente, ou um aspecto do corpo. Corpo é um todo de gente. Uso a palavra-já-cansada corpo para designar um conjunto que a Magia Negra de Platão tinha separado. Não mais corpo/alma//indivíduo/social//orgânico/cultural. Tudo isso é corpo, e mais algumas coisas. Nossas roupas são nossos corpos, o computador, o celular; não apenas apêndices/ferramentas, tudo é corpo como tudo é rizoma. Um bando é um tudo de gente, ou um aspecto do tudo, reformulando. Pois nossos afins são nosso corpo também, e nossos inimigos também. Um bando é um grupo de pessoas unido pelo parentesco. O parentesco não é orgânico pois orgânico é algo que não faz sentido enquanto tal. O parentesco pode ser de idéias, de gostos, de paixões, de afinidades, de amizades e até mesmo sangüíneo. Um bando é um parentesco de tudo (de gente, claro). Gente é tudo considerado enquanto tal, bípede ou não, terrestre, aquático ou gavião, corpóreo ou de-visão. Um bando é um tudo em parentesco, um aspecto de gente. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma pessoa é um bando de gente, ou um aspecto de bando. Uma pessoa tem um corpo, mas um corpo é uma pessoa. Uma pessoa tem história, tem nome, tem sonhos; aquela história, aquele nome, aqueles sonhos são a pessoa. Eu não sou Lênon Kramer, mas Lênon Kramer sou eu. Pouco aristotélico, mas aqui a lógica é outra. Uma pessoa é um nó na trama, e é todas as linhas que transitam em afecção com ela. Tudo que me toca sou eu. Pessoa é gente de bando. Humano ou não-humano, tanto faz; pessoalidade não identifica espécie, que diferença faz? Biologia, sociologia: &lt;em&gt;Quando as fronteiras são apagadas, os [E]estados não fazem sentido&lt;/em&gt; – e esta é uma proposta de uma nova política do ser. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Pessoas e Produção&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um bando tem por objetivo produzir pessoas. Ou seja, produzir a si próprio. As pessoas são produção de gente, um tudo de produção; produção é um aspecto de gente. Produção de pessoas, de nomes, de éticas, de corpo. Gente é uma produção contínua de corpo. Corpo é um tudo de produção, uma produção de tudo. Um bando é produção de parentesco, é produção de si próprio. Parentesco é um Modo de Produção. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um bando é auto-suficiente em sua abertura para o mundo, é autônomo em sua interdependência. Um canibalismo simbólico, ritual, comer o corpo da sociedade da falta, instaurar na falta uma nova abundância. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;o que está por vir no próximo capítulo:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Produção e Ética &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ética e Bando &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Considerações Finais&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-2117516657939296915?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/2117516657939296915/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/04/etica-de-bando-parte-i.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/2117516657939296915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/2117516657939296915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/04/etica-de-bando-parte-i.html' title='Ética de Bando - Parte I'/><author><name>Lênon Kramer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00083660154252604791</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_3MgqrYLstJg/Sd0k7r8hKUI/AAAAAAAAAB4/wNQZXp6lJtA/S220/n1226192761_5300.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-1742355454760584592</id><published>2011-04-09T13:58:00.012-03:00</published><updated>2011-04-10T00:24:10.907-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='proibicionismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='psicoativos'/><title type='text'>A Droga da Proibição</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://3.gvt0.com/vi/K6kRpsoqeC8/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/K6kRpsoqeC8&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266" src="http://www.youtube.com/v/K6kRpsoqeC8&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Esse vídeo me marcou não só pela coerência, lucidez e incisividade com a qual a profª. Gilberta Acselrad manobra a questão, mas pelo mero fato de que ela se recusa a responder as perguntas nos termos em que são pautadas. Geralmente, os discursos proibicionistas tanto na mídia quanto na ciência manobram um jargão meio importado das ciências médicas, com um lustre de "objetividade", enquanto valores estão sendo sutilmente veiculados. Por exemplo, logo na introdução à entrevista, a jornalista já solta que a situação do universitário deixa "os estudantes mais suscetíveis à essa vontade de experimentar drogas" - que diabos, onde mais se fala assim? Soa como "mais suscetíveis a contrair gripe". O usuário já é pensado desde o início na posição passiva, negando-lhe discursivamente a capacidade de reflexão, julgamento e de opção. Mas isso é só a ponta do iceberg, pois ao veicular as informações distorcidas e simplesmente inacuradas que as campanhas do tipo "diga não às drogas" veiculam, enquanto ao mesmo tempo se coíbe a pesquisa científica nesse campo, o estado está também cerceando de antemão a mera possibilidade de uma reflexão informada. O próprio termo droga adquiriu o significado tácito de "droga ilegal" na boca do povo, criando o efeito - na atmosfera de desinformação - de que todas as drogas (ilegais) são igualmente perigosas, viciantes e fatais; e, numa inversão que só posso considerar francamente delirante, elas são igualmente perigosas e fatais porque todas são "drogas ilegais", porque recebem a mesma palavra, a mesma designação jurídica, a mesma situação legal. O complemento silencioso é de que "se não fossem iguais, se não fossem perigosas, o estado não as teria proibido e as tratado da mesma forma, né? NÉ?" - &lt;b&gt;pois não é&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A desinformação e os termos enviesados que pautam o "debate" na mídia e no estado não são de forma alguma secundários. O consumo de drogas com potencial destrutivo singular, como o crack, &lt;a href="http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/883195-relatorio-aponta-aumento-no-consumo-de-crack-no-brasil.shtml"&gt;aparentemente está aumentando&lt;/a&gt;. Amigos meus que moram ou moraram em cidades pequenas me contam da recente chegada do crack às bocas, de várias pessoas que fumavam apenas maconha começando a consumir crack e muitas se tornando dependentes, etc. Agora, imagine, se você é uma pessoa que já usa "drogas", descobriu nesse processo que o discurso do governo sobre elas não tem nada a ver com o que de fato acontece, e então chega uma droga nova aí - dizem que é perigosa, mas não diziam a mesma coisa do baseado? - droga é droga né, você já é um "drogado", então, porque não dar uns pegas no crack? &lt;i&gt;Miséria humana ensues&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que a profª. fala a respeito das misturas decorrentes da falta de controle de qualidade também não é brincadeira. O ecstasy, por exemplo, que em tese é o nome popular da substância MDMA, &lt;a href="http://www.ecstasydata.org/stats.php"&gt;possui altíssima taxa de falsificação&lt;/a&gt;. Quase metade dos comprimidos não contém MDMA, e 50% contém estimulantes como a anfetamina (36%) ou dissociativos como o &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fenilciclidina" title="gerador de dependência, neurotóxico e capaz de causar overdose"&gt;PCP&lt;/a&gt; (11%). Essas substâncias são, ao meu ver mas não apenas o meu¹, muito mais perigosas que o MDMA, e o perigo só tende a aumentar com as misturas; não sabendo o que você está tomando, o risco de uma mistura fatal acontecer é muito maior - pois, como eu mesmo levanto na &lt;a href="http://www.fafich.ufmg.br/atendimento/ciencias-sociais/monografia/Monografia%202%202009/Alquimistas%20do%20Extase.pdf/view" title="que é uma etnografia online no orkut em uma comunidade de usuários de enteógenos"&gt; minha monografia&lt;/a&gt;, os usuários tendem a exercer toda sorte de controle de dosagens, misturas e contextos de consumo, segundo as informações às que tem acesso. A alta taxa de impureza das pílulas de ecstasy dificulta mesmo que se precise os danos causados pelo MDMA quando consumido a médio e longo prazo &lt;a href="http://baladaboa.blogspot.com/2007/06/ressaca-do-ecstasy.html" title="baladaboa é um projeto muito bacana de prevenção de danos no uso de ecstasy"&gt;como nessa pesquisa&lt;/a&gt;. Desnecessário dizer que essa questão, da relação direta entre o proibicionismo, impureza e os efeitos negativos do ecstasy reportados na pesquisa nem é mencionada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;As drogas e a cultura&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante muitos anos foram argumentos desse tipo, prevenção de danos, os que mais me valeram durante as discussões com meus amigos nas ciências sociais. Eu argumentava também que a legalização ou liberação das drogas seria um golpe fundo, talvez até fatal, em nosso crime organizado - cortando um dos veios principais de dinheiro que alimentam o tráfico. Esses argumentos, conquanto sejam válidos, eram ainda apenas puramente negativos - no sentido de mostrar que a opção de nossos estados pela guerra às drogas era pior do que um mundo onde elas eram legalizadas. Agora me surpreende, e me alegra ver a profª. inserindo no debate o conceito de "cultura"². Porque isso sempre foi algo que me marcou; a recorrência dos alteradores de consciência nos mais diversos povos humanos. Eu chego a dizer que não haja um povo, um povo sequer, que não tenha dado um jeito de descobrir, produzir e utilizar alteradores de consciência, recorrendo aos elementos naturais que estão ao seu redor; se não é uma planta psicodélica é um fungo, senão é um fungo é um fermentado, se não é uma mistura de plantas ou a inalação de sementes moídas ou o caralho a quatro. Parece que esse impulso pra experimentar, modificar a consciência é tão velho quanto a humanidade - porque ele virou um "problema social" só agora? Não quero dizer que não haviam usos danosos ou problemáticos antes, provavelmente haviam; mas mal ou bem as sociedades conviviam com isso, muitas vezes canalizando os usos de forma ritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O contexto social e simbólico afeta drasticamente os modos e os efeitos dos usos dos psicoativos; um exemplo disso é o contato muitas vezes catastrófico de povos indígenas com álcool, povos esses que muitas vezes utilizaram psicodélicos como o peyote e a ayahuasca por séculos sem grandes problemas - e bem o álcool vem quebrar as pernas, o álcool por nós socialmente aceito e até mesmo incentivado, enquanto ao mesmo tempo criminalizamos o porte, a venda e o incentivo ao uso dos psicodélicos. Vale lembrar, contudo, &lt;a href="http://health.howstuffworks.com/wellness/drugs-alcohol/drug-ranking.htm"&gt; o estudo britânico&lt;/a&gt; de 2007 que classificou psicoativos segundos riscos sociais, mentais e orgânicos, e que apontou para o álcool como sendo muito mais perigoso que o ecstasy, a cannabis e o LSD. Mas na real é muito difícil medir essas coisas de risco como se elas fossem propriedades DA DROGA. É óbvio que precisamos reconhecer a singularidade de cada substância, da mesma forma que consideramos as diferenças entre temperos quando vamos cozinhar ou a diferença remédios diferentes quando temos dor de cabeça³; mas são os usos, que compreendem também frequência, dosagem, ambiente, contexto simbólico, situação corporal e mental, que vão conduzir à formação de tal ou qual corpo em conjunção com o psicoativo. O consumo é uma constante histórica e antropológica, mas os corpos produzidos variam a cada caso segundo essas variáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo isso tudo em vista, faz sentido pensar na educação para a autonomia que a profª. Acselrad traz pra pauta. E não só porque os usos existem e vão continuar acontecendo independente da lei, e não só também pela lei tornar um "problema social" algo que não precisava sê-lo; mas também porque considero que alterar a minha consciência é parte de minha &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Cognitive_liberty"&gt;liberdade afetiva e cognitiva&lt;/a&gt; - brilhantemente sumarizada nos mandamentos para a era molecular de Leary: "Não alterará a consciência do próximo" e "Não impedirá o próximo de alterar a própria consciência". A liberdade afetiva e cognitiva não abrange só a proibição, mas também fatos como a medicação forçada de crianças (tipo com &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Metilfenidato"&gt;ritalina&lt;/a&gt;) e dos assim-chamados doentes mentais. Há alguns anos esse argumento - talvez o cerne de minha preocupação com a questão - era respondido com escárnio e exclamações de absurdo!, impensável!, "o povo não consegue escolher". Sinto que a cada dia que passa essa idéia tem se tornado mais aceitável, conforme o próprio discurso da legalização e da prevenção de danos se populariza. Infelizmente, acho que ainda há um grande caminho a trilhar até que essa idéia seja viável na consciência pública mais ampla - e enquanto isso ficamos com tantas quimiodependências evitáveis, mortes e doenças por falta de controle de quantidade e qualidade, guerra com o crime organizado, encarcerações desnecessárias, gastos públicos infindáveis e uma atmosfera de desinformação que, acima de tudo, impede que sejamos tratados como adultos capazes de fazer as próprias escolhas - coibindo o exercício da autonomia e reflexão, desde o início.&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;¹cf. o link pro estudo britânico dois parágrafos abaixo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;²o mais interessante é que, e bem na linha de raciocínio do antropólogo &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Roy_Wagner"&gt;Roy Wagner&lt;/a&gt;, o conceito de cultura é uma invenção de nossa sociedade, e a antropologia o processo de extender esse conceito aos outros povos - às vezes visando convencê-los quase como uma empresa missionária de que eles "tem uma cultura", mas às vezes também visando modificar a nós próprios, construindo um plano comum para se pensar as práticas e idéias de diversos povos. então eu vejo que a presença desse conceito de "cultura" no debate, e seu uso como argumento catalizando todo um saber e pesquisa antropológicos são pra mim uma consequência positiva da existência e da prática da antropologia. me sinto mais útil, como antropólogo e pesquisador da área dos psicoativos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;³a comparação com o tempero e remédio não é aleatória. "Droga" aparentemente vem de "drugue", como uma palavra catch-all pra falar de especiarias vindas do oriente, incluindo os temperos. E, hoje mesmo, temos a ambiguidade da "drogaria" vendendo "remédios" e das drogas ilegais. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-1742355454760584592?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/1742355454760584592/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/04/os-danos-do-proibicionismo.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/1742355454760584592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/1742355454760584592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/04/os-danos-do-proibicionismo.html' title='A Droga da Proibição'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-941226917700939024</id><published>2011-01-14T20:21:00.023-02:00</published><updated>2011-04-09T14:09:20.149-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='surrealismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='magick'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='espanta-público'/><title type='text'>Entre o sujeito e o objeto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TTOCA6NqgXI/AAAAAAAAAFE/VjBms5Gts2w/s1600/Portrait%252C%2BLe.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TTDTkrkY_wI/AAAAAAAAAE8/xbInR9knuGw/s1600/Condition%2Bhumaine_2%252C%2BLa.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5562178166926671618" src="http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TTDTkrkY_wI/AAAAAAAAAE8/xbInR9knuGw/s400/Condition%2Bhumaine_2%252C%2BLa.jpg" style="cursor: hand; cursor: pointer; display: block; height: 400px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 296px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A condição humana, por René Magritte&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Nesse texto quero defender dois pontos. O primeiro é de que não podemos prescindir de erigir uma metafísica, conscientemente ou não, para poder elaborar qualquer pensamento. A segunda é de que só temos a ganhar caso a gente reconheça essa situação, e assuma o controle dela. O que está em jogo são os limites de nossa percepção do universo; algo que interessa aqueles que buscam as terras virgens que se estendem pra fora do consenso - por qualquer meio que seja: nas ciências, nas artes, na filosofia, na política, etc.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;É muito comum que pessoas refiram a si mesmas como céticas, ou como científicas, e com isso pretendam o acesso exclusivo à verdade. Com grande frequência, esse ceticismo ou essa cientificidade não é caracterizado pela paciência observacional pra se chegar as conclusões: é apenas um atalho para o pensamento poder quietar-se e erigir sua casinha em algum lugar. O que quero dizer é que essas pessoas não são céticas no sentido de se colocarem a parte de suas próprias expectativas, e das dos outros, e observarem o que acontece no mundo - para aí elaborar um plano de interpretação e consequentemente de ação. Os pseudo-céticos ou pseudo-científicos defendem, de forma análoga às religiões, &lt;a href="http://www.nytimes.com/roomfordebate/2011/01/06/the-esp-study-when-science-goes-psychic/a-cutoff-for-craziness" title="babacão."&gt;uma série específica de modelos ou visões de mundo como se fossem crenças&lt;/a&gt; - resultando em comportamentos dualista do tipo nós x eles similares a qualquer torcida de futebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Quero dizer que o objetivismo e o positivismo, esposados pelas ciências "duras" e por todas as que gostariam de se eleger a tal título, escondem atrás de sua paciência observacional uma série de conclusões apressadas. E, que em muitos casos, essas conclusões que foram deixadas na inconsciência exercem um poder perigoso sobre a capacidade pensante do sujeito. A ruptura de Freud com o Jung é emblemática: Às vistas de Jung, Freud tinha uma relação tal com algumas de suas próprias idéias - como a de que a sexualidade é o fundamento da vida inconsciente - análoga à de um religioso, a ponto de se referir a essa idéia, em meio a uma discussão inflamada, como um "dogma". Sim, o próprio Freud soltou essa, do naipe: "Faça o que quiser, Jung, mas por favor, jamais abandone esse dogma!"¹. Segundo Jung essas idéias de Freud eram investidas de uma "numinosidade", uma carga emocional capaz de mesmerizar o ego do sujeito - da mesma forma que a idéia de Deus para os crentes. Dentro da psiquê elas exercem funções similares, para indivíduos de diferentes formações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problemático é que as pessoas que evocam a "objetividade" na verdade estão fazendo um tipo estranho de jogo duplo com as coisas, muitas vezes sem o perceber. Para um grande número de seres é empregada a rubrica de "objetos", ou seja, desprovidos de consciência, psiquismo ou intencionalidade; para outra série de seres empregamos o conceito de "sujeitos", entendo-os como dotados de uma alma, insondável e livre, capaz de tomar decisões e refletir e sei lá o que mais. Porém, existe todo um território que está constantemente sendo abordado (pelas pessoas, pelas instituições) alternadamente através das duas vias - contradições ou linhas de fissura. Para uma Justiça, por exemplo, uma pessoa é ou não é responsável por um ato, mas para uma neurologia somos todos apenas máquinas orgânicas similares a computadores. Somos indivíduos indivisíveis, sacrossantamente unitários, essencialmente humanos - mas até quando? Se eu posso substituir seu corpo todo por máquinas, fazer upload de seu cérebro pro computador, sou mesmo um só (um programa de computador é infinitamente copiável - é um ser humano? Senão, porque?) E se o indivíduo não sou eu, e sim uma colônia de células, eu sou uma coleção de indivíduos? (o organismo é a formiga ou o formigueiro?) E as organelas, mitocôndrias &lt;i&gt;and the like&lt;/i&gt;? Onde acaba a matéria e onde começa o sujeito? E esse tal de sujeito, por que princípio físico exerce a sua liberdade, como diabos ele é capaz de mover as partículas do cérebro para que essa maquininha se comporte segundo a liberdade que deve conter? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A própria física, que talvez seja uma das culpadas antes de tudo por misturar, nas ciências nascentes, o "real" com um modelo do real - chegou a um ponto onde é difícil traçar a linha do sujeito e do objeto. Onde, talvez, o próprio observador se vê incluído no sistema de seu experimento, impedindo que se separe claramente o observador do observado. Ou interpretações pra física quântica como a das &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Many-minds_interpretation"&gt;Muitas Mentes&lt;/a&gt;, que explica tão bem (e tão insuficientemente) os inesperados quânticos quanto a interpretação dos &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Many-worlds_interpretation"&gt;Muitos Mundos&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="-webkit-text-decorations-in-effect: underline; color: #0000ee;"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5562932916870873458" src="http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TTOCA6NqgXI/AAAAAAAAAFE/VjBms5Gts2w/s400/Portrait%252C%2BLe.jpg" style="cursor: pointer; display: block; height: 357px; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; text-align: center; width: 245px;" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="-webkit-text-decorations-in-effect: underline;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;O retrato, por René Magritte&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A gente se vira pras ciências pedindo pra que se defina o são (aquele que ainda é um sujeito) do doente mental; que defina o certo do errado na cultura, no caso da antropologia; que defina as fronteiras do feto com o humano, no caso da biologia; mas essas fronteiras são invenções doutrinárias. Sim, elas exercem seu papel no mundo, e sinceramente, um Estado pra existir vai traçar essas linhas, é o que sempre fez anyway - traçar fronteiras de todo tipo. E a decisão em última mão é uma decisão política. Acima de tudo, as ciências tem pulverizado tanto sujeito e o objeto (aqui sigo Foucault, com a morte do homem e o poder disciplinar). Porque pra biologia, existem transformações funcionais no corpo do feto, mas não existe o Homem. Com H maiúsculo. Existe aquele corpo, aquele objeto. Sujeito? Se você pensa objetivamente, só vai conseguir nesses casos descrições funcionais (e ótimo, elas são úteis). Consciência? Esqueça, você não pode observar isso, não é um objeto válido de saber. Mas, apesar disso, por trás de todo objeto válido de saber tem um observador, ou seja, um sujeito, uma consciência, que observa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se a construção dos edifícios da objetividade implicasse que certas coisas ficassem como fundamento, enterradas. Agora, qualquer que seja a perspectiva que você vá lançar você vai precisar de estabelecer uma malha, os pontos cegos, a viseira. Nenhum mapa pode ser tão completo quanto o território - senão, ele sequer serviria de mapa pois seria de tamanho e complexidade idêntica ao território. O papel da ciência é lançar mapas que reduzam a realidade até produzir abstrações manejáveis como "causas" e "efeitos". A questão é que toda vez que você escolhe sua malha de pensamento pra jogar sobre o mundo, você cria, também, uma nova forma de entender - uma nova forma de enxergar, que pode ou não ser pertinente a seus objetivos (toda perspectiva simultaneamente limita e cria). Se você quer construir foguetes, go for it, a física e a engenharia como são hoje até então tem se dado bem sem produzir esse tipo de coisa (mas talvez pra progredir seja necessário explorar os terrenos estranhos dos fundamentos). Se você quer fazer uma melhor poesia (e isso faz diferença, é real - pra quem lê, pra quem se deixa afetar), você vai precisar de outros mapas. Se você quer entender a própria consciência você vai precisar de uma inventar outra metafísica que não parta da invisibilização da mesma em um sistema parcial (objetivo). E os resultados serão diferentes. Não serão iguais às ciências objetivas, claro: o ponto é que não precisamos SÓ das ciências objetivas. Temos inúmeros saberes possíveis.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Outro dos fundametos (e ocultações) do edifício da ciência objetiva é a idéia da replicabilidade. Um experimento precisa ser repetível experimentalmente em outros laboratórios, se quiser provas qualquer coisa: logo, toda a classe de fenômenos não-repetíveis, caso exista (você vai precisar definir existir) está automaticamente declarada irreal, mesmo que aconteça. Porém, ao meu ver, a empiria tem a palavra - e qualquer cientista que eu preze concordaria. Aí você fala, "como assim coisas não repetíveis? do que você está falando?". Jung, por exemplo, aborda um desses fenômenos: a sincronicidade. Seriam fenômenos como coincidências significativas, que operam na ordem do sentido e não da objetividade; um caso famoso, onde um paciente falava de um sonho ou similar de um besouro e de repente um estranho escaravelho entrou voando na sala. Objetivamente, até onde se sabe, não há relação de causalidade entre as duas coisas, portanto podemos declarar um fenômeno acausal; não há violação de lei física nenhuma no voo do escaravelho ou na fala do paciente, portanto a objetividade está preservada em seu cantinho. Para Jung, no fim das contas, a totalidade do inconsciente - o inconsciente coletivo - opera fora do tempo e do espaço, em uma repetição mítica ou coisa assim, e as tais sincronicidades só são estranhas pra consciência diurna - são as características do tempo do sonho.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quando você trampa mexendo com o inconsciente direto, &lt;i&gt;a la Jung&lt;/i&gt;, ou começa a fazer magicka no caso dos ocultistas &amp;amp; cia, esse tipo de fenômeno estranho fica mais frequente, mas ele é irrepetível em condições experimentais, pois é da ordem da coincidência significativa - cada evento é uma situação singular e referente unicamente a seu contexto imediato físico e simbólico. É o que também é chamado de acontecimento ou evento.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="-webkit-text-decorations-in-effect: underline; color: #0000ee;"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5562933607921739106" src="http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TTOCpIlB5WI/AAAAAAAAAFM/nSlBeEIE3xs/s400/moebius_strip_II.jpg" style="cursor: pointer; display: block; height: 400px; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; text-align: center; width: 187px;" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="-webkit-text-decorations-in-effect: underline;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;Fita de Moebius, por M. C. Escher&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Outro exemplo é a divinação do tarot. Eu tiro as cartas pras pessoas. Ao mesmo tempo, me omito de provar qualquer coisa pra qualquer um. Eu desenvolvi minha forma de lidar com a coisa, e os interessados que lidem como quiserem. A única coisa que eu não gosto é quando pedem pra eu tirar o tarot com a intenção de provar se é objetivamente falso ou verdadeiro. Objetivamente, é só uma tirada de cartas aleatórias. Mas no modelo que atualmente esposo (e brinco com), tirar as cartas é um ato mágicko, e como acontece nessa sorte de atos, a própria intenção do experimentador ao tirar as cartas condiciona o resultado. Se sua intenção é testar, você vai conseguir o que desejou: um teste objetivo - seu ato mágicko se cumpriu segundo a sua vontade. Mas te evadiu completamente outros potenciais daquela experiência, outros atos de vontade que não remetem ao teste e aos objetos, mas ao intemporal. É claro que as cartas, se abertas mais de uma vez, muitas vezes darão resultados diferentes: o contexto da primeira tirada de cartas é irrepetível, é absolutamente único e singular no universo; ele fornece um substrato material (sem violação da causalidade - não há inobjetividade em se remover uma lâmina de papel de uma caixa) pra produzir um efeito que pode ser abordado na ordem do sentido. Agora, isso é um modelo também: uma metafísica diferente, que reconhece fenômenos de ordens diferentes e com resultados, obviamente, diferentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, nesse ponto, a grande objeção costuma ser: como vamos poder distinguir a boa ciência da ciência ruim, nessas condições? Bem, eu não tenho nada contra ciências, e critérios, objetivos. Eu tenho contra a mentalidade tacanha de revestir certas metafísicas provincianas com uma numinosidade religiosa, com grandiosidade universal: ou seja, sou contra a ciência vivida psiquicamente como religião. Agora, tenho a favor de muitas ciências e muitos critérios distintos, INCLUINDO os objetivos. A ausência de critérios objetivos, na maioria das esferas da vida, não impede as pessoas de chegarem a consensos, mesmo que parciais (qual não é?), mesmo que transitórios (qual não é?). A gente sabe que existem tendências: desde a moda, até convergências poéticas, estéticas, éticas. Ser impossível determinar objetivamente qual é a melhor poesia não impede sua apreciação, nem que quase-consensos se estabelecam. No resto, as coisas objetivas também vivem de quase-consensos, a própria física tá nessa situação de fragmentação de moldes e modelos, e é assim que o mundo funciona, e sempre funcionou: perspectivas em conflito, um universo muito grande e umas cabecinhas pensando pensamentos, e confundindo-os com o próprio universo, ou não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;¹Tá no capítulo sobre Freud e Jung, no autobiográfico "Sonhos, Memórias e Reflexões" do Jung.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-941226917700939024?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/941226917700939024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/01/entre-o-sujeito-e-o-objeto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/941226917700939024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/941226917700939024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/01/entre-o-sujeito-e-o-objeto.html' title='Entre o sujeito e o objeto'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TTDTkrkY_wI/AAAAAAAAAE8/xbInR9knuGw/s72-c/Condition%2Bhumaine_2%252C%2BLa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-2544385498764276957</id><published>2011-01-03T01:13:00.022-02:00</published><updated>2011-04-09T14:10:41.404-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='freeganismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='capitalismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reciclagem'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='faça você mesmo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ecologia'/><title type='text'>Reciclo, logo existo</title><content type='html'>Aqui em casa a gente arranjou um esquema com um dono de um sacolão próximo pra reaproveitar à vontade os dejetos de frutas e legumes do sacolão, duas vezes por semana, em troca de varrer a área onde eles são armazenados e colocá-los pra fora à tempo da coleta de lixo. Essa prática, que a gente costuma chamar de "recicle", foi de longe a descoberta que mais me mindfuckeou esse ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo dia quantidades colossais de alimento que poderiam perfeitamente ser consumidos são jogadas fora por questões estéticas, por estarem com uma partezinha estragada, ou, com uma frequência surpreendente, por nenhum motivo que eu consiga imaginar. A gente pega comida suficiente pra alimentar por três dias uma casa com algo entre dez e quinze pessoas, enxendo um carrinho de supermercado &lt;i&gt;até o talo&lt;/i&gt;; no processo, deixamos pra trás praticamente METADE das frutas e legumes que poderíamos reaproveitar, simplesmente porque não conseguiríamos consumí-las antes de estragarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, o que é jogado fora nesses sacolões não é nada perto do que se desperdiça antes - nas grandes distribuidoras, tipo CEASA¹. E isso porque antes de chegar lá um monte de rango foi jogado fora nas próprias fazendas e no processo de transporte. Ou seja, o recicle do sacolão &lt;a href="http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL83345-5598,00.html" title="no Brasil, desperdiçamos 40% de toda a comida que produzimos. wosh."&gt;cobre apenas a pontinha da pontinha do desperdício&lt;/a&gt;, a pontinha mais próxima do consumidor final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O peso no bolso&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana passada eu perdi o recicle - todo mundo viajando, com a família, sabe como é - e por isso hoje fui forçado a ir &lt;i&gt;comprar&lt;/i&gt; frutas. Acho que em 2010 eu fiz isso uma ou duas vezes no máximo, e em pequenas quantidades. E no processo de compra, eu tenho de novo a percepção do quanto eu economizo com essa bagaça de reciclagem! Duas bananas, três tomatinhos, duas cebolas, duas laranjas: R$ 4,10. Tá certo que comprei em um lugar particularmente caro, mas ainda assim. Duas vezes por semana a gente traz, aqui pra casa, pelo menos 20 tomates, 40 bananas, 15 laranjas, mais uma tonelada de batata, limão, abobrinha, berinjela, xuxu e jiló (tem quem goste), repolho e inhame, batata doce e abacaxi, goiaba e maçã e pera e até fucking morangos, uvas e kiwi (sem zoeira! mas ISSO não é sempre). Se eu fosse comprar esse hortifruti todo não saía &lt;i&gt;meeesmo&lt;/i&gt; menos de 40R$, isso sendo conservador. Duas vezes por semana, quatro vezes por mês, deixa eu ver: no mínimo 320R$.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Tá certo que o recicle exige uma certa experimentação e ousadia: você precisa vencer um monte de preconceitos. Afinal, você tá comendo LIXO, e muita coisa faz jus à palavra, ao menos nas aparências. Leva um tempo até sacar o que você pode só cortar fora, e o que inviabiliza a fruta/legume inteiro. Nesse sacolão, como é um esquema combinado, as frutas e legumes vem relativamente limpos e tal, mas em muitos casos o recicle é no saco de lixo mesmo, sem combinado nenhum. E aí o rango tá misturado com outras coisas desagradáveis, exigindo cuidado e esforço pra selecionar, limpar e armazenar. De minha parte, posso dizer que não passei mal por causa de rango nenhuma vez esse ano, comendo recicle todo santo dia. E como comi bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez que cá em casa o recicle é pra alimentar um pelotão de gente, acaba consumindo uma manhã inteira; levantar cedo, sair com carrinho, passar umas horas selecionando e arrumando, voltar com carrinho carregado, subir o bequinho CILADA do fim da rua, ufa! Academia pra que. Depois, limpar e conservar: dando um tratamento bem asseado, lá se vão duas, três horas. Banhando tudo na água com limão e umas gotinhas de vinagre, cortando as partes podres, etc. Ainda assim, como é muita gente, quando todo mundo faz sua parte nesse trampo é algo que eu preciso preocupar duas vezes por mês.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Indo mais fundo: freeganismo, política e ecologia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão não é só de economia. Por um lado, tem a consciência limpa de saber que estou comendo algo que teria sido jogado fora, ou seja, de que pelo menos nesse sentido ao menos eu não peso no ecosistema, nem dou grana pro agronegócio predatório. Por outro lado eu conquisto mais um pouquinho de minha autonomia em relação ao capital: por mais que o reciclar dê trabalho, eu não tenho patrão, nem circulo moeda nenhuma. Acho que esse ponto é muito caro às pessoas que me ensinaram a reciclar - os freegans. Já ouviram essa palavra? É um combinado de vegan com free (grátis). O &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Freeganismo" title="convenhamos, freeganismo soa bem melhor que GRATIGANISMO"&gt;freeganismo&lt;/a&gt; consiste basicamente na prática de viver sem grana (ou com o mínimo de grana possível), boicotando a sociedade de consumo². Pra citar a frase duma música de um amigo meu: "Eu posso até comer seu lixo / mas não compro suas merdas". Eu não sei se *sou* freegan, acho que não tenho cacife pra me atribuir essa honraria - mas é uma coisa que definitivamente me inspira. A relativa gratuidade de minha alimentação só é possível, claro, porque a dieta cá em casa é basicamente vegana. Reciclar queijo, ovos, carne e derivados é mais difícil, pelo menos aqui em minhas redondezas. E não recomendo a ninguém comer carne apodrecendo! Os grãos normalmente a gente tem de comprar. Mas, se você vai ter uma dieta vegana, vai precisar sair do arroz-com-feijão, e a abundância e variedade de frutas e legumes facilita pra caramba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa do freeganismo &lt;a href="http://www.nytimes.com/2007/06/21/garden/21freegan.html?pagewanted=1&amp;amp;_r=1"&gt;começou nos meados dos anos 90&lt;/a&gt;, com o movimento precariamente nomeado "anti-globalização", embora muito disso tenha seu eco nas atividades do grupo hippie dos &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Diggers_(theater)"&gt;Diggers&lt;/a&gt; da década de 60 (e, é claro, nos sobreviventes urbanos de todos os tempos). Hoje em dia não é mais uma coisa restrita a punks e ativistas; lá na gringa os &lt;i&gt;hipsters&lt;/i&gt;, que são os equivalentes de nossos &lt;i&gt;moderninhos&lt;/i&gt;, andam &lt;a href="http://www.theawl.com/2010/10/how-to-pick-up-a-hipster-girl" title="além de aparentemente serem veganos"&gt;praticando o &lt;i&gt;dumpster diving&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, que traduzo grosso modo pra "se jogar na lixeira". É, aquelas lixeiras gigantes quadradonas dos filmes americanos. Se aqui é bem fácil conseguir rango, lá você consegue de tudo, desde TV de plasma (o causo que ouvi a esse respeito foi no japão) a carros (em NY se me lembro bem). Quero só ver quando a moda pegar aqui (se pegar), a galera empertigada e colorida e limpinha dos boates moderníssimas toda abrindo saco de lixo! Vai ser bonito de ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O recicle - não só em sacolões, recicla-se de tudo se você tiver a disposição de aprender a fazer reparos básicos - me demonstrou visivelmente a dependência de nossa sociedade de mercado das situações de ESCASSEZ. Afinal, se há excesso, pra que vender e comprar? Você dá, tem de sobra. Então, o capital funciona através da produção de escassez artificial: seja te convencendo de que tudo que você comprou não é suficiente (afinal, você ainda não tem esse NOVÍSSIMO PRODUTO IMPERDÍVEL) seja &lt;i&gt;descaradamente jogando fora&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reciclar não resolve o problema estrutural do desperdício; provavelmente, se todo mundo subitamente decidisse reciclar (só) nos sacolões ao mesmo tempo, não daria pra todos. Desnecessário dizer que estamos &lt;i&gt;muito&lt;/i&gt; longe de chegar nisso. Enquanto isso, é um jeito de economizar, de conquistar relativa autonomia em relação ao capital, de questionar o que é 'produto' e o que é 'lixo', de desconstruir os próprios preconceitos. O recicle, infelizmente, não impede que você engula quantidades pouco saudáveis de agrotóxicos (da mesma forma que engoliria comprando a comida, claro), além do fato de que alimentos frescos algumas vezes tem paladar melhor, e mais nutrientes. Por isso, enxergo como uma estratégia temporária - enquanto você não tem uma horta orgânica grande e produtiva o suficiente pra ser auto-suficiente nesse quesito, dá-se um jeito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anarco-donos-de-casa de todo o mundo: reciclemos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;¹Dá pra fazer recicle no CEASA também, de vez em quando o pessoal cá de casa vai lá de bicicleta, mas é meio longe. Se você mora perto - o que está esperando?&lt;br /&gt;²Claro que o freeganismo vai bem além da reciclagem, mas calma, uma coisa de cada vez, né? Do resto a gente fala outro dia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-2544385498764276957?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/2544385498764276957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/01/reciclo-logo-existo.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/2544385498764276957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/2544385498764276957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2011/01/reciclo-logo-existo.html' title='Reciclo, logo existo'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8790095322527343235.post-188862419797110274</id><published>2010-12-19T16:21:00.029-02:00</published><updated>2011-04-09T14:09:42.476-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anonymous'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cyberpunk'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='internet'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='wikileaks'/><title type='text'>Wikileaks: Estamos vivendo um thriller cyberpunk</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ69xCkOJOI/AAAAAAAAAEo/ntNPJtu4sgM/s1600/size_590_Criador_do_WIkileaks_em_Genebra.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552478615609216002" src="http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ5d4fJXDAI/AAAAAAAAAEI/BKjW9HHAowc/s320/assange2_1688693c.jpg" style="cursor: pointer; display: block; height: 200px; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Assange: nem precisei procurar muito pra encontrar uma foto que fizesse jus ao meu argumento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Tem muita gente que não está ligado no que tá rolando nessa história do Wikileaks, então vale dar uma idéia geral pra informar e rememorar. O meu ponto é que estamos vivendo um thriller cyberpunk - cheio de conspirações políticas e hackers e coisa assim - na vida real. Aliás, não demora nem meia década pra isso virar Hollywood, certeza (&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Social_Network"&gt;as coisas viram história muito rápido esses dias&lt;/a&gt;).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Vou colocando entre parênteses o nome dos bois pra facilit&lt;/span&gt;ar vocês me acompanharem:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O protagonista é um fugitivo político (Assange), caçado pela maior potência do planeta (EUA duh) por ser o líder uma organização especializada em propagar informações confidenciais dos estados (&lt;a href="http://213.251.145.96/"&gt;Wikileaks&lt;/a&gt;). A polícia internacional recorre a uma acusação de estupro aparentemente forjada para perseguí-lo mundo afora. O protagonista se esconde nos grandes centros urbanos, hospedando-se com conhecidos e simpatizantes de sua causa, carregando consigo apenas uma mochila com um laptop.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ69xCkOJOI/AAAAAAAAAEo/ntNPJtu4sgM/s1600/size_590_Criador_do_WIkileaks_em_Genebra.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552584040794432738" src="http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ69xCkOJOI/AAAAAAAAAEo/ntNPJtu4sgM/s320/size_590_Criador_do_WIkileaks_em_Genebra.jpg" style="cursor: pointer; display: block; height: 240px; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Assange: &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 19px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;"Espero que as pessoas julguem alguém não pelo calibre de seus amigos, mas de seus inimigos."&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;A conspiração para capturá-lo congela sua conta de banco; grandes empresas do setor de transferência de renda (Visa, Mastercard, Paypal) interrompem o fluxo de din&lt;/span&gt;heiro de doações populares para o website que veícula as tais informações confidenciais. O site (Wikileaks né) é atacado por hackers misteriosos, possivelmente a serviço do governo; seus gestores tentam movê-lo para um servidor mais resistente (Amazon), mas sob pressão do estado a empresa propietária do servidor chuta a bunda do website.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Enquanto isso, pessoas ao redor de todo mundo começam a &lt;/span&gt;colocar cópias (mirrors) do site no ar para que ele permaneça acessível. Flyers provenientes do que pode ser o mais frequentado forum da internet (&lt;a href="http://www.4chan.org/"&gt;4chan&lt;/a&gt;) conclamam as pessoas a se reunirem em uma rede de computadores trabalhando sincronizadamente uma operação (Operation Payback) pra contratacar os websites das grandes empresas do setor financeiro, tirando-os do ar¹. Os participantes da operação referem a si mesma como Anônimo (Anonymous), intensamente influenciado por V de Vingança e pela cultura nerd. O movimento anônimo de "pessoas quaisquer" (provavelmente adolescentes em sua maioria. essa juventude as vezes me dá orgulho) consegue derrubar durante várias horas a "face pública online" de algumas empresas; alguns dizem que os ataques chegaram a afetar a própria rede de transferência financeira, colocando cartões de crédito sem funcionar em vários lugares do mundo. O protagonista é aprisionado e após alguns dias de protestos é liberado por uma fiança pra poder esperar o julgamento em liberdade condicional.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ65Z6f9A9I/AAAAAAAAAEg/ckLg2watWfY/s1600/assange_e_libertado_sob_fianca_e_diz_que_justica_nao_morreu_2010-12-16175934.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552579245445546962" src="http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ65Z6f9A9I/AAAAAAAAAEg/ckLg2watWfY/s320/assange_e_libertado_sob_fianca_e_diz_que_justica_nao_morreu_2010-12-16175934.jpg" style="cursor: pointer; display: block; height: 214px; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Assange de novo: essa é aquela clássica cena de reflexão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É claro que se isso fosse um thriller, ia acabar com o Assange pilotando um caça e torpedando a Casa Branca. E, num fim glorioso, a população rejubilante daria a internets para Anonymous governar, constituindo assim o primeiro estado-nação virtual internacionalmente reconhecido da história. Mas na real, eu não sei como vai acabar. Já ouvi muita gente botando fé que o Assange vai rodar. Sei lá! Uma parte de mim até prefere que isso aconteça mesmo, porque pode forçar as pessoas a se radicalizar. Eu sou da modesta opinião de que &lt;i&gt;precisamos de uma contracultura viva e atuante&lt;/i&gt; urgentemente ou em breve vamos estar vivendo em 1984, só que com nanomáquinas e chips no cérebro. Isso se o &lt;s&gt;bug do milênio&lt;/s&gt; aquecimento global não chutar nossas bundas antes. E vamos lá, mesmo que Anonymous seja o que informa o estereótipo - um bando de adolescentes nerds gordos americanos mimados jogadores de WoW - ainda assim não consigo evitar de sentir que &lt;i&gt;tem alguma coisa aí&lt;/i&gt;, um prenúncio, o surgimento em potencial uma nova arma pra sociedade civil. Se apenas 9 mil pessoas munidas de computadores podem fazer alguma coisa - o que poderia fazer com duzentos e cinquenta milhões?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552576353677863506" src="http://2.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ62xl0z6lI/AAAAAAAAAEY/7a5AGpipaIo/s200/Operation_Payback_BW-20101130153205.jpg" style="cursor: hand; cursor: pointer; float: right; height: 200px; margin: 0 0 10px 10px; width: 188px;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Porém, percebo que Anonymous possui um ponto fraco. O coletivo não é de fato isento de líderes. Ele possui lideranças espontâneas e flutuantes, e segundo o &lt;a href="http://www.guardian.co.uk/technology/2010/dec/15/wikileaks-met-police-investigate-anonymous"&gt;The Guardian&lt;/a&gt;, uns poucos munidos de mais conhecimento informático que orquestraram os canais de comunicação e os aspectos técnicos dos ataques. Se isso é verdade, existem pessoas na operação que são "menos anônimas" que outras, tornando-se alvos fáceis para a criminalização por parte do estados-nação. Pessoas criminalizáveis são desbandáveis, basta pegar uns que os outros se cagam de medo. Afinal, o grande ponto forte dos ataques que foram executados (DDoS) é que é muito difícil descobrir quais são a massa de pessoas envolvidas nos ataques².&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Mas talvez o mais interessante e surreal nessa história toda seja a abundância de discussões paralelas que dela emergiram; por exemplo, a escritora feminista Naomi Wolf escreveu uma &lt;a href="http://www.huffingtonpost.com/naomi-wolf/interpol-the-worlds-datin_b_793033.html"&gt;carta aberta ostensivamente sarcástica&lt;/a&gt; à Interpol elogiando seu empenho na caça de caras que se comportam como "babacas narcisistas com as mulheres que estão namorando". Talvez seja a Naomi que não entendeu bem as acusações de estupro lançadas sobre Assange (&lt;a href="http://www.guardian.co.uk/media/2010/dec/17/julian-assange-sweden"&gt;eu também não, confesso.&lt;/a&gt; e super estou tentando entender), mas &lt;a href="http://www.feministe.us/blog/archives/2010/12/08/naomi-wolf-assange-captured-by-the-dating-police/"&gt;outras feministas não gostaram&lt;/a&gt; de ver acusações de violência contra a mulher sendo desconsideradas assim, de primeira - esse é um tema caro ao feminismo, advinhe porque. (não que a Naomi tenha mesmo feito isso. ela só tava sendo sarcástica com o esforço politicamente motivado da interpol e AH, não vale nem a pena explicar, é óbvio demais). Ou, pra dar outro exemplo da louca dispersão de assuntos envolvidos, vide a &lt;a href="http://www.internetretailer.com/commentary/2010/12/10/wikileaks-and-myth-net-neutrality"&gt;discussão sobre neutralidade da internet&lt;/a&gt;, uma vez que esse caso evidenciou quanto nossa inocente navegação de fato se passa sustentada por grandes corporações, dotadas de interesses bastante particulares e muitas vezes aversos à liberdade de expressão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Mas acho que a principal discussão que vai sair desse caso é também uma das que menos vi sendo explorada a fundo - sobre a relação entre os estados-nação, democráticos ou otherwise, e a transparência. Mas isso eu abordo em outro post, em breve.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;¹Os ataques realizados foram os chamados "DDoS", ou Distributed Denial of Service. Esse tipo de ataque se baseia em um mutirão de computadores contatar junto um servidor várias vezes por segundo, tornando-o incapaz de fazer qualquer coisa enquanto isso. Geralmente isso é feito usando o computador das outras pessoas sem que elas queiram, através de software malicioso - mas, no caso da "Operation Payback" você empresta seu computador voluntariamente pra Anonymous através de um programinha que te conecta a uma "colméia" que ataca junta, sem que você precise fazer quase nada. O programinha se chama "Low Earth Orbit Ion Cannon", ou "Canhão de Ions de Órbita Baixa". Gotta love these nerds.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;²Pelo que entendi, o servidor que está recebendo o DDoS fica super atulhado com todos os IPs mandando informação, e se ele ainda por cima decide anotar o endereço de todo mundo que está requerindo comunicação ele se atrapalha mais rápido ainda e cair do ar, de modo que no fim não registra grande coisa. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8790095322527343235-188862419797110274?l=rota32.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rota32.blogspot.com/feeds/188862419797110274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2010/12/wikileaks-estamos-vivendo-um-thriller.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/188862419797110274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8790095322527343235/posts/default/188862419797110274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rota32.blogspot.com/2010/12/wikileaks-estamos-vivendo-um-thriller.html' title='Wikileaks: Estamos vivendo um thriller cyberpunk'/><author><name>Harlequinade</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17967638053747565501</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/SXX2Khk9xjI/AAAAAAAAAAM/5reQHilpoGg/S220/Eu.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_wD-xAnl5HGg/TQ5d4fJXDAI/AAAAAAAAAEI/BKjW9HHAowc/s72-c/assange2_1688693c.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
