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sábado, 2 de fevereiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 2)

Vajrayogini

Na parte 1 desse texto, expliquei a diferença entre diversos tipos de prática religiosa, enfatizando as práticas marginais dos ascetas, xamãs e magos. Nesta parte, eu me proponho a elaborar melhor qual é o fazer marginal da religião - amarrando tudo na categoria de "êxtase", e como a partir do êxtase podemos lançar uma visão crítica por sobre o materialismo.

As ciências do êxtase:

A mente máquina maquina, à trabalho da inteligência do corpo. Aproxima-se do que causa prazer, afasta-se do que causa dor. Automatização para poupar energia. Tudo a inteligência do corpo. Por sobre essa base, inventamos o simbólico, e com isso o fazer humano virar 'cultura'. A mente se ocupa: conseguir parceiros sexuais - conseguir comida, água, abrigo - manter-se observante dos riscos. E eis que surge o fogo. Ao seu redor, certa segurança, a escuridão circundante impõe imobilidade. Sob a insinuação da Chama, o simbólico prolifera. A mente deriva - surgem histórias. E também na imobilidade que a caça demanda, também na arte borrocada nas paredes, no relaxamento do gozo e consumo de psiquedélicos... A mente voa. Em meio à esses voos, a humanidade inventou/descobriu o ÊXTASE.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Canto da Potência

Recentemente um leitor anônimo me contatou em resposta ao Ensaio sobre a insanidade cotidiana, e o comentário e minha resposta viraram o post Notas para uma Guerrilha Psíquica. Agora, ele postou outro comentário, e eu como de costume me alonguei de novo e decidi tornar a conversa novamente em um post.

Remedios Varo, "Alegoria do Inverno"

(...) Como mencionei, é uma realidade diferente da minha. Sou das ciências exatas, da ordem e da lei (inclusive projetando nanomáquinas de guerra), mas há um centelha que busca um caminho diferente. Isso evoca uma (singela) lembrança de um documentário com aquela experiência do labirinto e dos ratinhos. Observavam que após um tempo, o ratinho já tendo assimilado o caminho correto e o executando com perfeição, começava com um comportamento anormal, procurando um caminho diferente. Era associado a inteligência. Poderia encontrar uma ilha maior de queijo. Sinto-me desta forma. Objetivamente e de forma calculada (gostaria de colocar numa prancheta). Acho que esse comportamento é instintivo. A respeito de objetivo, é interessante(íssimo, na verdade) o sucesso consistindo na falha... pois a liberdade plena não me parece sinônimo de felicidade. Paradoxalmente só encontro um pouco de serenidade quando restrinjo voluntariamente minha liberdade... nós somos "feitos de tristeza devido ao vazio que nos constitui e à liberdade sem limites que nos assusta"? Por hora persigo o poder (e o esforço/estudo/conhecimento que mencionou para mim são facetas dele), principalmente sobre mim - não encontrei (ainda) a finalidade disto... mas parece... sei lá... um caminho.... Quanto a essas drogas, sempre me preocupam o poder de adicção e... flashbacks.....? (...) (Ass: Anônimo)

Oi anônimo, valeu por voltar pra continuar a conversa! Seu comentário me abre muitas coisas pra problematizar. A primeira é que sugiro uma distinção entre poder e potência. Você não é obrigado a aceitar minhas definições, mas ofereço-as porque podem quiçá lhe ser úteis pra pensar! - pra mim foram...
Sei que no uso comum a gente fala como se poder e potência fosse a mesma coisa, mas na hora de pensar politicamente há dois fenômenos diferentes em jogo. Poder é segundo Deleuze "o grau mínimo da potência", e tende ao controle, à restrição, à contenção. Poder é "hetero-regulado", centrado no outro; se realiza apenas através do outro, ao mesmo tempo que reprime, suprime ou diminui o outro: "sou poderosos porque mando e desmando e os outros me obedecem", "olha como sou poderoso, todos admiram minha esposa / carro / roupas / etc". A sede de poder tem sua origem biológica na restrição da potência - quanto mais potente a pessoa é, menos ela precisa dos outros pra sentir-se segura de si.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Notas para uma Guerrilha Psíquica

Hoje fui escrever uma resposta a um comentário no Ensaio sobre a Insanidade Cotidiana e me alonguei... De forma que a resposta se expandiu num novo post. Segue aí o comentário em questão e a resposta (editada e expandida) depois da imagem.

Robert Steven Connett - Night Trawl

Hey, gostei do texto. Mais da forma, na verdade - reflexo de sua formação? Em exercício de observação posso arriscar em dizer que é um acadêmico de filosofia. Esse formato é agradável pois parece um protótipo de cultura.... diversa da minha e do cotidiano. Mas não é por este elogio que escrevo. Quero saber um pouco mais. Aqui há uma constatação - um tanto quanto óbvia, vale ressaltar. O que devo fazer, portanto? Desistir dos bens e ir viver numa terra erma? Pois é fácil alienar-se dessa insanidade..... Procuro um objetivo, o que sugere? (considerando atos, excluindo "colocar uma bala na cabeça") - Ass: Anônimo

Sou das ciências sociais, antropologia, "filosofia com povo dentro" como dizem alguns. Mas a forma deve mais (ao meu ver) à poesia beat, Ginsberg, Burroughs, ao surrealista Piva, um pouco de André Breton, tributos ao velho Henry Miller e outros que não lembro agora. Obrigado pelos elogios anyway!

Quanto às saídas: não acredito em fórmula única nem em planejamento de cima pra baixo; opto por apostar no desejo, na subjetividade como única bússola contra a objetividade do poder (e aí sigo os situacionistas, em especial Raoul Vaneigem em sua Arte de Viver para as Novas Gerações).

Há um tempo cunhei pra mim a fórmula Caos, Esquizoanálise, Mídia tática:

terça-feira, 10 de maio de 2011

Como fiz para mim um Corpo sem Orgãos


"Conectar, conjugar, continuar: todo um 'diagrama' contra os progamas ainda significantes e subjetivos.  Estamos numa formação social; ver primeiramente como ela é estratificada para nós, em nós, no lugar onde estamos; ir dos estratos ao agenciamento mais profundos em que estamos envolvidos; fazer com que o agenciamento oscile delicadamente, fazê-lo passar do lado do plano de consistência. É somente aí que o CsO [Corpo sem Orgãos] se revela pelo que ele é, conexão de desejos, conjunção de fluxos, continuum de intensidades. Você terá construído sua pequena máquina privada, pronta, segundo as circunstâncias, para ramificar-se em outras máquinas coletivas." ¹

Doido de ayahuasca, em um sítio nas imediações de BH, deitado em um colchão abraçado a uma série de pessoas aquecendo-se com os corpos, enrolados em casacos e cobertores. Parafraseando Deleuze e Guattari: "Um lugar, uma potência e um coletivo". Conforme o chá começa a fazer efeito o Sonhar irrompe na consciência e se torna palpável; com ele vem uma confusão de sensações, intensidades, ondas de excitação, imagens vistas com olhos fechados e luminosidades coloridas geométricas com olhos abertos.


sábado, 9 de abril de 2011

A Droga da Proibição


Esse vídeo me marcou não só pela coerência, lucidez e incisividade com a qual a profª. Gilberta Acselrad manobra a questão, mas pelo mero fato de que ela se recusa a responder as perguntas nos termos em que são pautadas. Geralmente, os discursos proibicionistas tanto na mídia quanto na ciência manobram um jargão meio importado das ciências médicas, com um lustre de "objetividade", enquanto valores estão sendo sutilmente veiculados. Por exemplo, logo na introdução à entrevista, a jornalista já solta que a situação do universitário deixa "os estudantes mais suscetíveis à essa vontade de experimentar drogas" - que diabos, onde mais se fala assim? Soa como "mais suscetíveis a contrair gripe". O usuário já é pensado desde o início na posição passiva, negando-lhe discursivamente a capacidade de reflexão, julgamento e de opção. Mas isso é só a ponta do iceberg, pois ao veicular as informações distorcidas e simplesmente inacuradas que as campanhas do tipo "diga não às drogas" veiculam, enquanto ao mesmo tempo se coíbe a pesquisa científica nesse campo, o estado está também cerceando de antemão a mera possibilidade de uma reflexão informada. O próprio termo droga adquiriu o significado tácito de "droga ilegal" na boca do povo, criando o efeito - na atmosfera de desinformação - de que todas as drogas (ilegais) são igualmente perigosas, viciantes e fatais; e, numa inversão que só posso considerar francamente delirante, elas são igualmente perigosas e fatais porque todas são "drogas ilegais", porque recebem a mesma palavra, a mesma designação jurídica, a mesma situação legal. O complemento silencioso é de que "se não fossem iguais, se não fossem perigosas, o estado não as teria proibido e as tratado da mesma forma, né? NÉ?" - pois não é.