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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O CAPITALISMO NÃO É UM SISTEMA SOCIAL


Aleksander Rodchenko, Maquette for War of the Future, 1930

é precisamente a falta de um.

Imagine um pulha que não liga pra nada. E ele tem armas.

Ele toma pra si terras e máquinas. Ele abre pros outros trabalharem nelas - quer dizer, trabalhar pra ele. Nos termos dele.

Ele tem dinheiro. Mas esse dinheiro só significa alguma coisa pois garante acesso à comida, moradia e diversões, que por sua vez dependem de terras, máquinas, e gente trabalhando nelas. Gente botando fé que trabalhando nelas, vai poder ter acesso a casa, comida e diversão.

E só há terras e máquinas pra as pessoas trabalharem se há armas pra conquistá-las e depois defendê-las de outros pulhas.

Então, dinheiro é uma forma organizar os saldos do poder armado.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Contra o ideal ascético

(arte: Hans Burgkmair)

Rezam algumas tradições que o curso de ação mais virtuoso é a renúncia ao mundo e à sociedade: o ideal ascético. Subir a montanha ou vagar no deserto, sacrificando a vida a um outro mundo no Céu ou na extinção do Ser no Nirvana: tudo menos esta bagunça aqui de fogo, lama, sangue e poeira.

É verdade, a mais nobre verdade, que a vida na Terra é desprovida de sentido intrínseco. Que as idéias de duração, permanência, fixidez, são fundamentalmente ilusórias, assim como o "eu" que faz o sujeito da Cultura. Com isso estou repetindo os ensinamentos chave de Buda:  Eu e Duração são efeitos de superfície, que não tem nada a ver com os fundamentos da vida ou da realidade. E a maioria absoluta das pessoas passa a sua vida inteira rastejando no superficial.

Similarmente, o que passa como "cultura" hoje - e talvez na maior parte da história civilizada - é de uma pequenez de sentido que chega a doer. Quero dizer, as discussões porcaria da tevê ("Malhação discute o problema das drogas"). Mais uma geração de celulares, dessa vez com megapixels extra. Miniaturas de capacete. Vibradores em forma de super-heróis. Outro retrô nostálgico de outra década perdida. Roupas na moda este verão. Caetano estaciona no Leblon. "Porque ele não se mata de uma vez / pula logo deste prédio?" (essa frase eu ouvi várias vezes ontem). Até coisas verdadeiramente pungentes e baseadas em experiência vivida, como por exemplo o dilacerante legado da escravidão e do patriarcado, acaba diluído em briguinhas virtuais que gastam muito tempo de todo mundo e adiantam muito pouco. Tudo isso em eletrônicos cuja fome de energia justifica chutar os Munduruku pra fora de sua terra sagrada. Em petróleo cavado à custa de vazamentos de óleo como o da BP. Cuja mineração acarreta desastres como o assassinato do Rio Doce pela Samarco/Vale/BHP. Cuja produção é feita em fábricas com trabalho semelhante à escravidão. Cujos componentes tóxicos serão empilhados na Africa sob a alcunha de "reciclagem".

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Feitiçaria da Poeira II - Cai a Ficha


Este texto é uma tradução minha (não-oficial) de um artigo do Dr. Alexander Cummins chamado "Dirt Sorcery II - Penny Drops". Foi publicado originalmente no Gods and Radicals e aqui disponibilizado sob a gentil autorização do Dr. Cummins, que mantém também um tumblr contendo um enorme arquivo gratuito de scans de antigos grimórios. 



Rituais de “pagar” pela poeira [1] a princípio parecem terrivelmente incongruentes com a política da magia anti-capitalista. Devemos estampar a tudo com uma etiqueta de preço? Cada interação mediada pela promessa chata e repetitiva de dinheiro duro e frio, ou débito tenebroso de plástico? Mas há muitas formas bruxas de pensar sobre moedas e sujeira que precedem o capitalismo industrial, antes da usura atingir tamanhas proporções. As ferramentas do mestre certamente não derrubarão a casa do mestre enquanto seguirmos as instruções. Mas as moedas enquanto matéria podem se prestar à várias reapropriações deste poder opressor.

Basta de papo. Remova o suposto valor monetário da moeda da Águia Dourada, esse sentido estreito que alegam, e considere-a sob um ângulo novo. Peças de metal. Engaje o objeto e seu espírito em seus próprios termos, por sua própria história. De uma certa perspectiva - especificamente, uma que não isola a empreitada humana das ações do mundo natural - uma moeda cunhada e formada pode não ser tão diferente do belo ofício natural da geologia metamórfica. Por outro lado, talvez o Jardim esteja mesmo perdido pra sempre. Talvez essa feitiçaria monetária da sujeira seja um desejo em vão, mas também são os níqueis, especialmente nas mãos dos desesperados.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Futuro da Magia


Quando adentrei na Magia, inicialmente sob o viés da Magia do Caos, ergui a bandeira da  técnica enquanto possível "língua franca" não-sectária entre as diferentes escolas espirituais. Acreditava que uma simples dose de  pragmatismo poderia resolver o barulho e incompreensão da dispersão de vozes, correntes e caminhos que é o Sagrado. Bastaria jogar mais duro com a razão, mudando o foco da conversa rumo à aquilo que pode ser observado: técnicas e resultados. Foi esse ponto de vista que me levou ao movimento online do Pragmatic Dharma, um grupo de blogs, websites e foruns de meditadores interessados em abordar o caminho espiritual sem os excessos dogmáticos da participação religiosa. O budismo Theravada (e sua cria o movimento vipassana) serviu de ponto de partida, sendo Theravada a mais "seca" e técnica das correntes do budismo - que é arguívelmente uma das mais secas religiões - e com "seca" quero dizer avessa a prestar concessões ao imaginário e intuição mítica populares (buscando livrar-se dos entretenimentos e consolações da neurose coletiva). Com o trabalho da dupla britânica do Baptist's Head, confluíram o Pragmatic Dharma e a Magia do Caos - e a noção de iluminação, que por milênios compôs o caroço das tradições espirituais, foi reinserida pela dupla britânica  no horizonte memético da Magia do Caos.

sábado, 12 de março de 2016

O GRANDE APRISIONADOR (parte I)

"Satan", por Kalmakoff
O psicanalista suíço Carl Gustav Jung, famoso por sua influência na espiritualidade do Sec. XX, afirma (em seu Tipos Psicológicos) que O Diabo a tentar os monges em suas provações ascéticas é nada mais nada menos que o próprio inconsciente dos anacoretas. E com isso ele não quer dizer que Satã é "parte" do inconsciente, e sim que o Inconsciente é ele próprio Satã.

Agora, Satã, o Diabo é uma figura complexa, da qual vale destrinchar um par de fios os quais são de uso para fazer sentido dessa afirmação. Os Cristãos fazem hoje o sincretismo da Serpente (do Jardim) com o anjo acusador do judaísmo, Satã, que por algum nó surreal veio a absorver o título antes reservado a Cristo: Estrela da Manhã. A imagem, certamente tributária de Milton, é a de uma estrela caída ao subterrâneo por sua Luz autocêntrica, e com ela seguiram também vários anjos, preferindo habitar o Caos da matéria desprovida de inteligência à viver sob a condução da Vontade celeste.

E assim o Diabo ganha associação com elemento Terra, uma vez que é o único elemento capaz de "resistir" à divina inteligência - aliás, o papel da Terra é durar! Vemos na carta O Mundo, do Tarot, que o Touro (que simboliza a Terra) é o único dos 4 Animais Viventes desprovido de auréola. Já chifres, e patas de bode O Diabo adquire apenas durante a idade média, durante a lenta e constante perseguição às outras religiões (ditas "pagãs"), no que absorve em seu campo semântico as deidades ferais masculinas, associadas aos cultos de fertilidade da terra.

quarta-feira, 2 de março de 2016

A Vida além da Vanguarda



No vídeo acima, um mauricinho INTJ ralha contra a "arte conceitual" e o tanto que ela é incompreensível e desconectada das pessoas e no fim só um disfarce pra artistas objetivamente ruins fingirem de bons enquanto degradam a cultura.

Esse é um sentimento muito disseminado, baseando-se num fenômeno real: o apodrecimento das instituições de nossa civilização desde que perderam suas raízes no mundo da Tradição. Porém a verdade é bem mais complexa que uma simples richa de bons artistas virtuosos x maus experimentalistas - e nesse mundo de excesso de informação, de que vale meia verdade desconectada do contexto?


sábado, 24 de outubro de 2015

Comentário de reaça


Haja amor no coração pra ler comentário de reaça em site de notícias. Mas até esse infortúnio serve pra uma coisa: lembrar que não estamos na Terra à passeio. O poço da escuridão é fundo, fundo mesmo. Cada um tá num tempo, o mundo é e sempre foi uma diversidade de ritmos. Sempre foi um lugar de muita grosseria, muito ódio gratuito, muita cegueira. Talvez venha sempre a ser, mas ainda assim, acredito que vale mais a pena viver pela aposta de que é possível melhorar esse cantinho nosso, em especial através do cultivo cuidadoso da consciência, da transcendência do egoísmo através da consciência. (e não há ferramenta pra esse fim que seja mais certeira e provada pelo tempo que a meditação). Acredito que uma mudança minúscula, uma pequena diferença, é infinitamente melhor que mudança nenhuma, e talvez - alguns de nós - sejam capazes também, eventualmente, de fazer grandes diferenças.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

E agora que a revolta é pop?



É possível até ter saudades de 2012. Antes da dita "Primavera Brasileira", vivíamos um cenário aparentemente simples. A maioria omissa mantinha o silêncio; uma minoria de fascistas clamava a volta da ditadura, e uma minoria de esquerdistas radicais clamava (como sempre) por revolução. A maioria omissa, claro, favorecia a manutenção do status quo, que desde a primeira posse governamental do PT significava barganha política com os coronéis em troca de avanços sociais-democráticos - o empresariado estava feliz, os ruralistas estavam felizes, os evangélicos em franca ascensão junto ao poder de consumo da classe C. Só um bando pequeno de empresários ligados aos tucanos talvez reclamasse, mas sua voz não importava enquanto o Brasil crescia a 5% ao ano.
Quem ia à rua, então, eram apenas os movimentos identitários e miscelânea radical de esquerda. Incitar a revolta parecia a melhor opção; era preciso acordar as pessoas do transe induzido pelos produtos baratos chineses, e alertá-los de que o mundo estava sendo destroçado, de que ainda se matava pretos na favela e índios na roça, de que as mulheres ainda não podiam decidir por seus próprios corpos, de que a renda era distribuída de forma insustentavelmente desigual.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Impressões da Praia da Estação de Ontem

Foto: Diogo Dias Soares (link)

Como tem gente estilosa em BH. Década entra, década sai e de repente a moda me alcançou! - & eu me vejo em uma Belo Horizonte cyberpunk, tipo as visões afrofuturistas do Parliament/Funkadelic, ainda aquele clima estranho de mistura de classes e movimentos que caracterizou o caldeirão (contra/multi)cultural do viaduto, e veio a semear as revoltas de 2013 pelas bandas daqui.
Numa beirada da Aarão Reis um par de DJs (brancos) fazia música eletrônica, coisa boa, feita-na-hora sabe-se lá por que engenho, e sai um resultado tão a cara do ChocoChurros​ (minha banda 8-bits que desde o início só quase existiu) que eu me sinto redimido por ter falhado em marcar presença pública com meu som. Dancei um desbalde. Uma coroa bêbada e de classe baixa se apaixonou por mim, tentou beijar minha boca um par de vezes (contra minha vontade), e banharam minha roupa de catuaba. Teve cumbia, teve "Tropicália" e "No Rain" do Blind Melon remixados. Enfim. Eu estava em meu lugar.

domingo, 24 de maio de 2015

The Book of Law according to the I-Ching

Horus by Neutralie


I asked the I-Ching the following question:

What's the pertinency of the Book of the Law for humankind?

As a result I got the 6º hexagram, "Conflict" (originally termed "Sung"), with the 2º and 4º line in transition, taking us to the 20º hexagram, "Contemplation" (originally termed "Kuan"). (1)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Livro da Lei segundo o I-Ching (parte 1 de 3)


Em comemoração ao feriado thelêmico dos 3 dias da escrita do Livro da Lei, decidi compartilhar com vocês uma divinação (e sua análise) que realizei através do I-Ching. A pergunta é:

 Qual a pertinência do Livro da Lei para a humanidade?

Como nem todo mundo tá por dentro do que estou falando, começo explicando o que é o I-Ching, e o que é o Livro da Lei.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Daqui a Cinco Mil Anos

Fonte: desconhecida

Se tem algo que a auto-observação atenta me revelou, é que: O corpo é memória. O corpo, que digo, é um corpo monista. inclui também a mente e o cérebro.

Ainda à flor da pele moram as memórias recentes; já nos recessos mais profundos dos músculos estão travadas as memórias dolorosas da infância, de cada choro que tivemos de engolir, de cada humilhação que suportamos em vias de conservar o amor e cuidado de nossos pais. O corpo expressa a todo momento a sua história, com suas cicatrizes, movimentos e criações. O corpo já nasce sendo gravado de memória por todos os lados - pelas instituições sociais que o recebem no mundo; pelos corpos dos pais e familiares; e também pela linguagem. Nosso parto é só mais um argumento em linhas de fissura ancestrais, indivíduo x sociedade, natural x social, razão x emoção, homem x mulher, céu x terra. Cada parto humano uma síntese desse debate, e cada síntese uma solução apenas parcial pros velhos dilemas, recriando o debate a partir daquilo que se manteve ainda insolúvel.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Que que pega aqui na área


Pawel Kuczynski

Aqui na minha área, mega-fazendeiros que vendem soja pra China tão devastando o interior, trocando matas e serras abundantes & intrincadas por centenas de km (literalmente) de megafazendas venenosas. Toda aquela diversidade retificada até restar só um deserto verde e monótono.
A diversidade cultural é devastada também; interior agro-boy "barretizado", sem livrarias mas muito sertanejo unversitário made-in-microondas. O povo em sua maioria conservador, elitista, e cada vez menos hospitaleiro. Na ausência da vegetação nativa, o clima vai esquentando por todo canto. Nos rios não dá mais pra nadar (e nada de praia nas cidadonas). "Progresso", no meu país, acaba tendo implicações verdadeiramente INFERNAIS.
Bom, em todo canto né? Cada espécie extinta é mais um passo próximo de um colapso ambiental completo. Cada buraco no ciclo da vida é mais um desbalanço se somando a outro, até que de repente a parada balança tanto que a casa cai.
A gente tem mãos fortes de robô, mas não consegue manusear a vida com suficiente delicadeza. (coloca isso na conta de 10000 anos ou mais de patriarcado).

terça-feira, 28 de maio de 2013

Que o Diabo seja meu Deus

Parte de "Scuola di Atene", de Rafael

Traduzi e estou divulgando este ensaio pois me causou arrepios na espinha. Seu nome original é "Devil be my god", seu autor é o mago americano Lon Milo Duquette e é parte ser encontrado de seu excelente livro "Angels, Demons & Gods of the New Millenium", disponível aqui. A história que DuQuette conta não é mesma que está na Wikipedia, mas provavelmente tem também seu quinhão de verdade. Espero que a leitura inspire a vocês assim como me inspirou - dada a necessidade de combater o crescente obscurantismo na mídia, política e opinião pública (das quais a bancada evangélica e a ruralista tem sido símbolo).

No ano 415 D.C. Cyril, o Bispo de Alexandria, se encontrava numa posição muito desconfortável. Não apenas estava atulhado com a tarefa de compor doutrinas viáveis (1) a partir das conflituosas e confusas tradições do jovem culto cristão, mas também esperavam dele que o fizesse em meio à cidade pagã mais sofisticada e iluminada da Terra.
Muito antes do alegado nascimento virgem do salvador crucificado, Alexandria, com suas escolas celebradas e bibliotecas, amamentou as grandes mentes do mundo Mediterrâneo e Asia. Aqui a religião e filosofia foram amantes, e de sua união nasceu um ambiente dinâmico de diálogo e debate. Em mais de uma ocasião Cyril tentou arrebanhar convertidos do corpo de estudantes da Academia Neo-Platônica, apenas para ser chocado pela percepção desconfortável de que os  filósofos calouros sabiam bem mais que ele mesmo a respeito das sutilezas e limitações de sua própria fé. Incômodos como fossem esses momentos, Sua Graça os suportou obedientemente. Eles o proporcionavam a oportunidade de sofrer por sua fé. Sua paciência se esgotou, contudo, quando sua fé e reputação foram desafiadas por uma brilhante e carismática luminária da Escola Alexandrina de Neo-Platonismo, Hypatia - a maior Iniciada mulher do mundo antigo.