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domingo, 1 de dezembro de 2019

Bacurau é o Get Out! Brasileiro


[não contém grandes spoilers]



Ontem finalmente assisti Bacurau e posso dizer que Iago está agraciado. Um filme que em 15 minutos consegue envolver velório de avozinha querida no interior do nordeste, disco voador e psicotrópicos certamente está na pista certa. Há um ar Jodorowskiano em tudo, desde a abertura com o planeta visto de cima, desde a segunda cena - quando o caminhão de água atropela vários caixões caídos na estrada.

O filme dá uma guinada quando somos apresentados aos antagonistas, e em certa medida a cidade Bacurau sai de cena, o que me incomodou pois nesse ponto eu tinha criado a expectativa de que ia descobrir tudo sobre a cidadezinha e seu povo. Ao fim do filme a cidade segue misteriosa, o que é uma solução fácil: permite que (dentro de certos contornos) cada um projete o que quer ver.

Em contrapartida o filme se torna uma estranha sobreposição, de um lado um filme americano de armas e tiros e carro que explode, do outro a vida como a gente conhece no Brasil interiorano. Numa cena brilhante um personagem recebe o típico vilão americano com suco de caju e caldo de galinha numa mesa. Isso tudo sem degenerar em mera caricatura, pelo contrário há um carinho palpável da produção pela cidade de Bacurau e seus habitantes. A cidade realmente convence, e isso sustenta o contraste que é pilar do filme. A interpolação de gêneros coloca esse filme firmemente em uma dimensão pós-moderna, e o filme funciona como um comentário em dois planos: um no conteúdo da história, e outro na forma como é contada.

Um filme verdadeiramente tropicalista, mixando passado e futuro, urbano e interiorano, nacional e internacional. Bacurau se passa no futuro mas é sobre o passado, verdadeiramente; sobre lembrar o nosso passado e quanta força temos enterrada. Ali num simples museuzinho de cidade histórica estão sepultados rebeldes, bandidos, cangaceiros. Desprovidos dessa força, ou talvez, com essa força desprovida de foco - o mundo não se torna menos violento, mas pelo contrário: a violência continua a nos rondar de todos os lados - nos programas de polícia na TV, no fascínio do crime organizado, no culto fascista-miliciano à morte. Desprovidos de dentes e garras apenas nos tornamos presa, submissos aos caprichos de quem desaprendeu a amar.

Estamos sitiados. Estamos sendo invadidos. Eles tem o mundo nas mãos, estão aqui e não estão pois o poder é global. Nossas redes de comunicação - que de certa forma nos empoderaram - pertencem também a eles. E pode chegar o momento onde vão nos riscar do mapa. Bacurau decidiu virar o jogo - gostaria de saber se posso contar também com o resto do Brasil...

domingo, 7 de janeiro de 2018

PATTI SMITH - uma visão astrológica

Eis que Mercúrio transita pelo decano final de Sagitário - exatamente sobre grau do ascendente de Patti Smith, a alta-sacerdotisa do punk americano setentista. (1)


Coincidiu de me emprestarem o Linha M, segundo livro auto-biográfico da cantora. Movido por essa sincronia resolvi dar uma olhada em seu mapa natal, destacando aqui alguns aspectos de seu gênio criativo e vida profissional.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Contra o ideal ascético

(arte: Hans Burgkmair)

Rezam algumas tradições que o curso de ação mais virtuoso é a renúncia ao mundo e à sociedade: o ideal ascético. Subir a montanha ou vagar no deserto, sacrificando a vida a um outro mundo no Céu ou na extinção do Ser no Nirvana: tudo menos esta bagunça aqui de fogo, lama, sangue e poeira.

É verdade, a mais nobre verdade, que a vida na Terra é desprovida de sentido intrínseco. Que as idéias de duração, permanência, fixidez, são fundamentalmente ilusórias, assim como o "eu" que faz o sujeito da Cultura. Com isso estou repetindo os ensinamentos chave de Buda:  Eu e Duração são efeitos de superfície, que não tem nada a ver com os fundamentos da vida ou da realidade. E a maioria absoluta das pessoas passa a sua vida inteira rastejando no superficial.

Similarmente, o que passa como "cultura" hoje - e talvez na maior parte da história civilizada - é de uma pequenez de sentido que chega a doer. Quero dizer, as discussões porcaria da tevê ("Malhação discute o problema das drogas"). Mais uma geração de celulares, dessa vez com megapixels extra. Miniaturas de capacete. Vibradores em forma de super-heróis. Outro retrô nostálgico de outra década perdida. Roupas na moda este verão. Caetano estaciona no Leblon. "Porque ele não se mata de uma vez / pula logo deste prédio?" (essa frase eu ouvi várias vezes ontem). Até coisas verdadeiramente pungentes e baseadas em experiência vivida, como por exemplo o dilacerante legado da escravidão e do patriarcado, acaba diluído em briguinhas virtuais que gastam muito tempo de todo mundo e adiantam muito pouco. Tudo isso em eletrônicos cuja fome de energia justifica chutar os Munduruku pra fora de sua terra sagrada. Em petróleo cavado à custa de vazamentos de óleo como o da BP. Cuja mineração acarreta desastres como o assassinato do Rio Doce pela Samarco/Vale/BHP. Cuja produção é feita em fábricas com trabalho semelhante à escravidão. Cujos componentes tóxicos serão empilhados na Africa sob a alcunha de "reciclagem".

quarta-feira, 2 de março de 2016

A Vida além da Vanguarda



No vídeo acima, um mauricinho INTJ ralha contra a "arte conceitual" e o tanto que ela é incompreensível e desconectada das pessoas e no fim só um disfarce pra artistas objetivamente ruins fingirem de bons enquanto degradam a cultura.

Esse é um sentimento muito disseminado, baseando-se num fenômeno real: o apodrecimento das instituições de nossa civilização desde que perderam suas raízes no mundo da Tradição. Porém a verdade é bem mais complexa que uma simples richa de bons artistas virtuosos x maus experimentalistas - e nesse mundo de excesso de informação, de que vale meia verdade desconectada do contexto?


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

E agora que a revolta é pop?



É possível até ter saudades de 2012. Antes da dita "Primavera Brasileira", vivíamos um cenário aparentemente simples. A maioria omissa mantinha o silêncio; uma minoria de fascistas clamava a volta da ditadura, e uma minoria de esquerdistas radicais clamava (como sempre) por revolução. A maioria omissa, claro, favorecia a manutenção do status quo, que desde a primeira posse governamental do PT significava barganha política com os coronéis em troca de avanços sociais-democráticos - o empresariado estava feliz, os ruralistas estavam felizes, os evangélicos em franca ascensão junto ao poder de consumo da classe C. Só um bando pequeno de empresários ligados aos tucanos talvez reclamasse, mas sua voz não importava enquanto o Brasil crescia a 5% ao ano.
Quem ia à rua, então, eram apenas os movimentos identitários e miscelânea radical de esquerda. Incitar a revolta parecia a melhor opção; era preciso acordar as pessoas do transe induzido pelos produtos baratos chineses, e alertá-los de que o mundo estava sendo destroçado, de que ainda se matava pretos na favela e índios na roça, de que as mulheres ainda não podiam decidir por seus próprios corpos, de que a renda era distribuída de forma insustentavelmente desigual.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Impressões da Praia da Estação de Ontem

Foto: Diogo Dias Soares (link)

Como tem gente estilosa em BH. Década entra, década sai e de repente a moda me alcançou! - & eu me vejo em uma Belo Horizonte cyberpunk, tipo as visões afrofuturistas do Parliament/Funkadelic, ainda aquele clima estranho de mistura de classes e movimentos que caracterizou o caldeirão (contra/multi)cultural do viaduto, e veio a semear as revoltas de 2013 pelas bandas daqui.
Numa beirada da Aarão Reis um par de DJs (brancos) fazia música eletrônica, coisa boa, feita-na-hora sabe-se lá por que engenho, e sai um resultado tão a cara do ChocoChurros​ (minha banda 8-bits que desde o início só quase existiu) que eu me sinto redimido por ter falhado em marcar presença pública com meu som. Dancei um desbalde. Uma coroa bêbada e de classe baixa se apaixonou por mim, tentou beijar minha boca um par de vezes (contra minha vontade), e banharam minha roupa de catuaba. Teve cumbia, teve "Tropicália" e "No Rain" do Blind Melon remixados. Enfim. Eu estava em meu lugar.

domingo, 28 de junho de 2015

O próximo passo



É preciso andar pra frente. Jesus na cruz já não mais basta, aliás, ninguém mais suporta. É preciso voltar a enxergar com os olhos do Cristo vivo, aquele que vivia em Si o Reino do Céu assim como vivem as Crianças e os Animais (a natureza viva, energia móvel e descondicionada), o mesmo Cristo cuja morte foi selada pelo povo, abandonado por seus próprios seguidores (salvo, claro, as mana mais firmeza), o mesmo Cristo que chutou os mercadores do templo e que trouxe não a paz mas a espada! E fizeram uma religião da Morte da Energia Viva, uma pedra pra selar o túmulo daquele que no entanto volta em cada Criança, em cada Animal, e precisa ser de novo, e de novo, assassinado, pela pedra que lhe puseram em cima. A Criança e os Animais são, ademais, todos nós. E também, em nosso centro, somos Cristo. Resta a tarefa de realizar isso cada um a partir de seu próprio centro. Isso é andar pra frente.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Os arco-e-flecha que caíram do céu

"Darkstar Journey", Larry Carlson

Recentemente discuti com uns marxistas no website Feice, uma dupla particularmente grossa, rendendo 250 posts e além. Enquanto meus amigos me perguntavam "porque diabos você tá perdendo seu tempo?", eu assentia sem resposta. Mas meu coração disse "siga" e eu fui (1). Tudo girava ao redor da noção de "trabalho", que supunham de pertinência universal, e do valor (ou desvalor) dos pós-estruturalismos antropológicos à-la Eduardo Viveiros de Castro.

Da parte destes marxistas, "trabalho" é o esforço socialmente organizado pra atender as necessidades materiais. Seria portanto algo universal, já que todos comem, e arcos-e-flecha não caem de árvores. As conotações negativas que a palavra "trabalho" me evocam seriam referentes apenas ao trabalho alienado, nas condições do capital (e, presumo, também da servidão pré-capitalista).

Eu questionava até onde era possível dizer deste "universal" sem com isso atropelar a alteridade. O que eu dizia é que os recortes que eles traziam, ao construir esse "universal", não eram nada universais, partiam aliás de concepções bem particulares à vivência do proletariado europeu do século XIX, pressupondo um "sujeito humano" essencialmente distinto da "natureza", que usa a "cultura" para "moldar" a segunda. Ao invés de discutir nesses termos, preferi dedicar-me a esburacar essas concepções, denunciando sua particularidade, para quiçá recomeçar a conversa em outros termos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Daqui a Cinco Mil Anos

Fonte: desconhecida

Se tem algo que a auto-observação atenta me revelou, é que: O corpo é memória. O corpo, que digo, é um corpo monista. inclui também a mente e o cérebro.

Ainda à flor da pele moram as memórias recentes; já nos recessos mais profundos dos músculos estão travadas as memórias dolorosas da infância, de cada choro que tivemos de engolir, de cada humilhação que suportamos em vias de conservar o amor e cuidado de nossos pais. O corpo expressa a todo momento a sua história, com suas cicatrizes, movimentos e criações. O corpo já nasce sendo gravado de memória por todos os lados - pelas instituições sociais que o recebem no mundo; pelos corpos dos pais e familiares; e também pela linguagem. Nosso parto é só mais um argumento em linhas de fissura ancestrais, indivíduo x sociedade, natural x social, razão x emoção, homem x mulher, céu x terra. Cada parto humano uma síntese desse debate, e cada síntese uma solução apenas parcial pros velhos dilemas, recriando o debate a partir daquilo que se manteve ainda insolúvel.

domingo, 29 de setembro de 2013

A Resistência será Micropolítica

um manifesto da FRENTE DE COMBATE SURREAL-REICHIANA
com memórias do EVENTO TERRA PRETA
que se passou na comunidade EMANUEL GUARANI-KAIOWÁ
assim como das JORNADAS DE JUNHO



Recentemente realizou-se em Contagem/MG um evento libertário chamado "Terra Preta", que passou-se numa ocupação sem-teto (Emanuel Guarani Kaiowá) organizada pelas Brigadas Populares. (1) Durante o Terra Preta muit@s anarquistas oriund@s de tudo quanto é parte aportaram na Guarani-Kaiowá. Entre el@s - uma dose enorme de anarc@-punks, situacionistas, anarc@-tropicalistas ou outras vertentes do libertarismo.

É sem dúvida chocante para o moralismo mineiro receber esta procissão exótica de centenas de pessoas perfuradas, tingidas, tatuadas, potencialmente drogadas e sexualmente transgressivas. Durante o próprio encontro houveram ondas de preocupação, especialmente enquanto corriam boatos discrepantes sobre crianças apanhando do pai por tal ou qual influência d@s punks. (2) Mas a guerra não eclodiu. Parte disso se atribui, certamente, ao cuidadoso processo de aproximação com a comunidade por parte d@s organizador@s (e isso tem de ser louvado). (3) Mas o fato foi também que, a despeito de todo o choque, donas de casas nos receberam com o maior carinho - pessoas em situação de pobreza por vezes extrema ofertando pão, café e fofura generosamente. As crianças se esbaldaram no contato com os punks e doidões, jogando malabares, capoeira, aprendendo massagem e subindo na árvore. Os maconheiros da comunidade (quadrados, tremei! eles estão por toda parte!) se aproximavam sem pudores das rodas de conversa, de violão, de atividades. Quando da (memorável) apresentação d@ Anarc@funk (RJ/SP), puxada pelas bixas, trans e sapatas queer-punk sanguenozói, foi precisamente o morador que já sofreu ostensivamente agressões homofóbicas que tomou o microfone em mãos e mandou ver um beat-box feroz.

Houve fechamentos? Certamente. Eu o vi em alguns rostos enquanto passava. Mas por via de regra, o que observei foi o seguinte: a maior condutividade pra troca na diferença é pelas margens. O centro do poder, onde quer que se instale, só permite a ideologia da identidade, o fechamento e redução ao mesmo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Fora do Eixo sob o microscópio: uma visita à Casa FdE Minas

Capilé e Torturra no Roda Viva

Em uma das recentes polêmicas que se espalharam pelo Facebook, me convidaram pra visitar uma das casas FdE e conhecer com meus próprios olhos. O FdE já é objeto de discussão e crítica na esquerda há uns bons anos, embora tenha sido só agora - após um artigo do Reinaldo Azevedo na Veja e a gloriosa entrevista pelos dinossauros da mídia no Roda Viva - que o assunto realmente atingiu o escrutínio público.

Eu topei de bom grado o convite pra ir visitá-los. Sinto que o FdE me tange bastante pessoalmente, por uma miríade de razões. Em 2011, quando emergiram as primeiras polêmicas sobre o FdE quando do artigo crítico do Passa Palavra, foi à filosofia Deleuze e Guattari (filtrada através de seus discípulos Hardt e Negri) que defensores do FdE recorreram para tentar defender a pertinência política de sua prática. Porém, como leitor de longa data desses autores, me é clara a contradição entre as frequentes exortações à prudência oriundas da dupla de filósofos, e o entusiasmo dos pró-FdE com o "novo", "digital", 2.0, como se novo significasse automaticamente "bom" ou "melhor". Se os inimigos da humanidade puderem, inventarão novas formas de dominação a cada dia... Algo já não cheirava bem aí.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Fracasso, Experimentações e Foucault ao contrário

Uma hora aprendi a lição: ao invés de repetir os mesmos argumentos em TODA discussão que eu arrumo (geralmente com reaças) no facebook, melhor criar um post-repositório com os argumentos que sempre se fazem necessários, e linká-lo segundo a necessidade. Voilá! Pra quem não é reaça, pode servir pra afiar as idéias em temas polêmicos.


"Eu poderia comer uma cuia de sopa de letrinhas
e CAGAR um argumento melhor que isso"

FRACASSO

Quando se trata de falar 'dos anos sessenta', sempre topamos com o bordão do fracasso: "o movimento hippie fracassou". Tipicamente, conclui-se disso que não adianta nada experimentar soluções alternativas aos problemas de nossa sociedade. De fato, as previsões mais otimistas de que o movimento ia se espalhar até engolir a sociedade inteira não se cumpriram, mas isso não significa nada de nada.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 2)

Vajrayogini

Na parte 1 desse texto, expliquei a diferença entre diversos tipos de prática religiosa, enfatizando as práticas marginais dos ascetas, xamãs e magos. Nesta parte, eu me proponho a elaborar melhor qual é o fazer marginal da religião - amarrando tudo na categoria de "êxtase", e como a partir do êxtase podemos lançar uma visão crítica por sobre o materialismo.

As ciências do êxtase:

A mente máquina maquina, à trabalho da inteligência do corpo. Aproxima-se do que causa prazer, afasta-se do que causa dor. Automatização para poupar energia. Tudo a inteligência do corpo. Por sobre essa base, inventamos o simbólico, e com isso o fazer humano virar 'cultura'. A mente se ocupa: conseguir parceiros sexuais - conseguir comida, água, abrigo - manter-se observante dos riscos. E eis que surge o fogo. Ao seu redor, certa segurança, a escuridão circundante impõe imobilidade. Sob a insinuação da Chama, o simbólico prolifera. A mente deriva - surgem histórias. E também na imobilidade que a caça demanda, também na arte borrocada nas paredes, no relaxamento do gozo e consumo de psiquedélicos... A mente voa. Em meio à esses voos, a humanidade inventou/descobriu o ÊXTASE.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 1)


Naga Sadhu no templo Pashupatinath, Nepal (link)

Há uns tempos circulou entre meus amigos um texto cuja opinião geral poderia ser sumarizada em 'religião não merece meu respeito'. Concordo que muitas coisas imbecis são feitas em nome da religião, como por exemplo a opressão de mulheres, gays, etc, e repudio essas coisas tanto quanto o autor do texto. Também não acho que faz sentido depositar a autoridade sobre a verdade por sobre sacerdotes ou textos quaisquer. Porém, não é sábio 'jogar o bebê fora com a água do banho'. Infelizmente não pude responder uma replica quando li o texto pela primeira vez, tampouco encontrei-o novamente no limbo que é o facebook; porém ainda vale a pena apresentar algumas idéias que tenho sobre RELIGIÃO, com objetivo de mudar os termos da discussão, e abrir linhas de experimentação; meu objetivo é fazer uma "crítica marginal da religião" enquanto simultaneamente faço uma "crítica marginal-religiosa do materialismo".

O QUE DIABOS É RELIGIÃO?

Uma das hipóteses sobre a etimologia da palavra RELIGIÃO supõe que deriva de RE - LIGARE, significando "atar, amarrar, unir o que esteve separado". Nesse caso, RELIGIÃO e YOGA são duas coisas próximas, pois YOGA signifia UNIÃO. Religar este mundo a um "mundo invisível"; religar a alma humana a algo que a transcende e inclui; religar o mundano ao Sagrado - dá pra pegar a idéia.

Quando as pessoas tipicamente debatem "religião", usualmente estão falando de "religiões organizadas e hierárquicas", que são organizações destinadas a MEDIAR o contato entre os fiéis e o sagrado. Por via de regra, o contato direto com o sagrado só aconteceu há milhares de anos e seu único registro são livros antigos. Hoje em dia, alguns sacerdotes poderiam entrar em contato com deus pro exercício de certas funções (ex. conferir perdão); de resto, qualquer um que clamasse conhecimento direto da divindade (ao modo dos antigos textos) seria considerado louco. A Verdade está dada num livro e é imutável; não pode ser experimentada ou corroborada de forma alguma. Pede-se, portanto, dos fiéis que tenham "FÉ" - traduzindo: que sustentem a opinião de que A Verdade está dada através da Organização e seu Livro, e apenas ali, independente de qualquer objeção prática, racional ou advinda da experiência. (1)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Notas para uma Guerrilha Psíquica

Hoje fui escrever uma resposta a um comentário no Ensaio sobre a Insanidade Cotidiana e me alonguei... De forma que a resposta se expandiu num novo post. Segue aí o comentário em questão e a resposta (editada e expandida) depois da imagem.

Robert Steven Connett - Night Trawl

Hey, gostei do texto. Mais da forma, na verdade - reflexo de sua formação? Em exercício de observação posso arriscar em dizer que é um acadêmico de filosofia. Esse formato é agradável pois parece um protótipo de cultura.... diversa da minha e do cotidiano. Mas não é por este elogio que escrevo. Quero saber um pouco mais. Aqui há uma constatação - um tanto quanto óbvia, vale ressaltar. O que devo fazer, portanto? Desistir dos bens e ir viver numa terra erma? Pois é fácil alienar-se dessa insanidade..... Procuro um objetivo, o que sugere? (considerando atos, excluindo "colocar uma bala na cabeça") - Ass: Anônimo

Sou das ciências sociais, antropologia, "filosofia com povo dentro" como dizem alguns. Mas a forma deve mais (ao meu ver) à poesia beat, Ginsberg, Burroughs, ao surrealista Piva, um pouco de André Breton, tributos ao velho Henry Miller e outros que não lembro agora. Obrigado pelos elogios anyway!

Quanto às saídas: não acredito em fórmula única nem em planejamento de cima pra baixo; opto por apostar no desejo, na subjetividade como única bússola contra a objetividade do poder (e aí sigo os situacionistas, em especial Raoul Vaneigem em sua Arte de Viver para as Novas Gerações).

Há um tempo cunhei pra mim a fórmula Caos, Esquizoanálise, Mídia tática:

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Para libertar as Forças Maravilhosas da Noite



O erro é pensar que há um segredo, quando na verdade são dois segredos. São necessários dois para constituir um encontro, e o encontro é a única realidade, o resto todo é fantasma.


*

O paradoxo do surrealismo: Por um lado, empenhado em destruir a arte burguesa, em destruir acima de tudo o artista, o autor, na disjunção da consciência que abra as alas do automático, abre o fluxo pro murmúrio da inspiração, pro manancial infinito de Maravilha escondido no avesso da realidade diurna, conjurando a arte minoritária por excelência, tornando a arte acessível para toda a humanidade. Todos somos capazes de sonhar; imaginar um Mito é um direito irremovível de toda comunitariedade. E toda comunitariedade é, por definição, contracultural. "Os escritores surrealistas (...) especificavam que, para eles, não tem lugar em um regime capitalista a defesa e a manutenção da cultura. Esta cultura, diziam eles, não nos interessa senão no seu devir, e ese mesmo devir necessita antes de mais nada da transformação da sociedade pela Revolução proletária"(1). A "cultura" burguesa é civilizatória, estatal, pois busca antes de tudo congelar um certo estado das coisas, preservar um "patrimônio", enquanto simultaneamente esvazia a sociedade de toda vitalidade. A "cultura" burguesa está sempre contra o corpo, está sempre em busca de erigir um ideal transcendente (portanto incorpóreo) de belo, de educado, de - enfim - civilizado, em contraposição às forças caósmicas da barbárie, em contraposição ao poder transformador do encontro. Por isso toda comunitariedade é contracultural - pois a comunitariedade é a mãe da invenção. O paradoxo está em, por outro lado, Breton clamar pela "OCULTAÇÃO PROFUNDA E VERDADEIRA DO SURREALISMO"(2), assim em caixa alta, bradando "Abaixo os que queriam distribuir o pão maldito aos passarinhos."(2) "A aprovação do público deve ser evitada acima de tudo. É absolutamente necessário impedir o público de entrar, se quisermos evitar a confusão. Acredito que é preciso mantê-lo exasperado à porta, através de um sistema de desafios e provocações."(2) Para manter seu caráter radical, o surrealismo precisa acima de tudo evitar a banalidade das categorias, e ao fazê-lo, demonstra sua ascendência Nitzscheana, sua anarquia coroada. Para ser verdadeiramente de todos, é inevitável passar pelas minorias, pois ninguém é a maioria. Não há um homem sequer na terra que seja um homem vitruviano, não há nenhum caso que seja verdadeiramente universal, cada caso é um encontro singular e irrepetível. O não-espaço do encontro: esse “entre as coisas [que] não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”(3)


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ensaio sobre a insanidade cotidiana

Decidi retomar o blog e escrever. Mesmo que seja só em pequenos fragmentos. Mesmo que sejam só asserções sem fundamento. Mesmo que seja esteticamente desmezinhado. Mesmo que eu me repita.
Eu acho que minha visão pode ser de utilidade pro mundo ao meu redor.

Por isso preciso começar por um curto ENSAIO SOBRE A INSANIDADE COTIDIANA.

Porque a maior de todas as loucuras é a normalidade civilizada.



É só eu que me sinto assim? A TV e a publicidade me ofendem a cada segundo com sua rasidão pseudo-importante. As pessoas se juntam pra festejar e nem bem dançam. As cidades construídas pras máquinas transitarem e os corpos macios e quentes e peludos dos humanos que restaram se esgueiram por passarelas invisíveis em viadutos escuros, cruzando os dedos pra que sua filhinha de colo não seja triturada por metal cromado acelerado. Neuromancer (do Gibson) e Crash (do Ballard) são proféticos. Os médicos proibem as pessoas de parir em casa. O núcleo biológico ameaçado; por todo lado, pinças mecânicas o penetram, manuseiam, punem, esquadrinham. No alto corre a corrente da alta-grana internacional, onde os lagartões moldam o mundo a sua imagem e semelhança (em cada lar, em cada família há um TOSHIBA, com sua respiração fria e metálica, um campo elétrico, uma criança crescendo no plástico e na pelúcia) - há um lugar onde a política encontra o dinheiro - você se liga a isso e sua casa é invadida por bolsas de plástico com líquidos doces e estimulantes, pra que você suporte - antes qualquer um podia caminhar (ou mesmo estacionar) ao lado de um rio e se jogar - cuidado com as arraias, isso é tudo - mas agora está tudo poluído, poluído, irreversivelmente - e falar em nome da vida começa a ser vergonhoso pois há gente demais!! - e que glória há em ter um mundo envelhecido? quantos de nós envelhecem ainda vivos? - toda criança é claramente uma estrela, mas isso vai se apagando...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

De um só fôlego:


"o sentido da vida é viver, e viver significa estar consciente,
jubilantemente, embriagadamente, serenamente
consciente" (Henry Miller)


1 - as costas em chamas; piratas!

Eu acho que uma boa razão para se piratear informação é tornar a arte institucional - e seus derivados da indústria cultural - um mau negócio. "Os artistas vão ficar sem dinheiro", gritam os pop stars e os oportunistas. Balela. Começo dizendo que os melhores artistas fazem o que fazem porque lhes é um imperativo, uma necessidade biológica, uma chama que vem de dentro ou um vento que sopra do futuro em seus ouvidos - eles farão o que fazem ganhando dinheiro ou não. Eles são fetichistas, são tarados, pela criação e seus requintes - pela invenção, pelo detalhismo, pelo aprofundamento. E portanto os músicos contraculturais coexistem nas galerias subterrâneas com os nerds que fazem da programação uma arte - e com isso, formentam a cultura open source.