Mostrando postagens com marcador frente-de combate surreal-reichiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador frente-de combate surreal-reichiana. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Máquina Delirante Gato-Rato













mente-gato:

a paisagem é plástica, colorida;

cubos de almofada

de faces coloridas

com letras e números

pequenos fios pendentes dançando ao vento

um chão carpetado,

afiadores de garra

buracos semicírculo no rodapé

o mundo é um playground

e as pequenas coisas se movem

capturando, fascinando,

o gato em um transe sádico.


mente-rato:

mente-presa

rápido fugir; 

descer entre os canais

esgueirando-se, apequenando-se

o mundo é um transe paranóico

focinho que estremece eletricamente

do nada surge, bagos crescendo até explodir

rápido se foi. e são seus filhos,

e os filhos dos filhos

continuando o estalar por aí.


é preciso levar ambos em conta

para que possamos produzir

um


MANIFESTO-AUTOMÁTICO:

domingo, 1 de dezembro de 2019

Bacurau é o Get Out! Brasileiro


[não contém grandes spoilers]



Ontem finalmente assisti Bacurau e posso dizer que Iago está agraciado. Um filme que em 15 minutos consegue envolver velório de avozinha querida no interior do nordeste, disco voador e psicotrópicos certamente está na pista certa. Há um ar Jodorowskiano em tudo, desde a abertura com o planeta visto de cima, desde a segunda cena - quando o caminhão de água atropela vários caixões caídos na estrada.

O filme dá uma guinada quando somos apresentados aos antagonistas, e em certa medida a cidade Bacurau sai de cena, o que me incomodou pois nesse ponto eu tinha criado a expectativa de que ia descobrir tudo sobre a cidadezinha e seu povo. Ao fim do filme a cidade segue misteriosa, o que é uma solução fácil: permite que (dentro de certos contornos) cada um projete o que quer ver.

Em contrapartida o filme se torna uma estranha sobreposição, de um lado um filme americano de armas e tiros e carro que explode, do outro a vida como a gente conhece no Brasil interiorano. Numa cena brilhante um personagem recebe o típico vilão americano com suco de caju e caldo de galinha numa mesa. Isso tudo sem degenerar em mera caricatura, pelo contrário há um carinho palpável da produção pela cidade de Bacurau e seus habitantes. A cidade realmente convence, e isso sustenta o contraste que é pilar do filme. A interpolação de gêneros coloca esse filme firmemente em uma dimensão pós-moderna, e o filme funciona como um comentário em dois planos: um no conteúdo da história, e outro na forma como é contada.

Um filme verdadeiramente tropicalista, mixando passado e futuro, urbano e interiorano, nacional e internacional. Bacurau se passa no futuro mas é sobre o passado, verdadeiramente; sobre lembrar o nosso passado e quanta força temos enterrada. Ali num simples museuzinho de cidade histórica estão sepultados rebeldes, bandidos, cangaceiros. Desprovidos dessa força, ou talvez, com essa força desprovida de foco - o mundo não se torna menos violento, mas pelo contrário: a violência continua a nos rondar de todos os lados - nos programas de polícia na TV, no fascínio do crime organizado, no culto fascista-miliciano à morte. Desprovidos de dentes e garras apenas nos tornamos presa, submissos aos caprichos de quem desaprendeu a amar.

Estamos sitiados. Estamos sendo invadidos. Eles tem o mundo nas mãos, estão aqui e não estão pois o poder é global. Nossas redes de comunicação - que de certa forma nos empoderaram - pertencem também a eles. E pode chegar o momento onde vão nos riscar do mapa. Bacurau decidiu virar o jogo - gostaria de saber se posso contar também com o resto do Brasil...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

As Razões Profundas da Permanência do Poder

- ou, porque somos tão apegados aos nossos grilhões?

Arte por Pawel Kuczynski

Sejam bem-vindos à pós-modernidade. As Bonecas Trouxas fazem as vezes do Gorila Chorão (de Alan Moore), quando a merda do colapso ecológico atinge o ventilador da consciência pública e o niilismo atinge proporções pop. Uma nova geração de filósofos niilistas conversa pelo Facebook em tweet-aforismos:


Caso encerrado? "Que se exploda a moral". Nada verdadeiramente tem sentido... (Ou não! Recuar amedrontados ante a ameaça de perder as referências familiares, voltando os olhos à TV ou aos Gifs como um deus de bolso a prover doce esquecimento). Fácil falar, difícil é vivê-lo na prática. Afinal se por um lado eu piso em formigas como quem não vê nada, quando eu perco um ente querido pra morte , meu coração clama por justiça! do! universo! E o Universo, esse bastardo, mantém o silêncio. Entre o profundo não-se-importar da natureza, e as demandas sentimentais e filosóficas da vida humana, há uma disjunção. A verdade é que aqui questão só começou a se colocar; e no espaço que se abre, é finalmente possível pensar a Ética.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Daqui a Cinco Mil Anos

Fonte: desconhecida

Se tem algo que a auto-observação atenta me revelou, é que: O corpo é memória. O corpo, que digo, é um corpo monista. inclui também a mente e o cérebro.

Ainda à flor da pele moram as memórias recentes; já nos recessos mais profundos dos músculos estão travadas as memórias dolorosas da infância, de cada choro que tivemos de engolir, de cada humilhação que suportamos em vias de conservar o amor e cuidado de nossos pais. O corpo expressa a todo momento a sua história, com suas cicatrizes, movimentos e criações. O corpo já nasce sendo gravado de memória por todos os lados - pelas instituições sociais que o recebem no mundo; pelos corpos dos pais e familiares; e também pela linguagem. Nosso parto é só mais um argumento em linhas de fissura ancestrais, indivíduo x sociedade, natural x social, razão x emoção, homem x mulher, céu x terra. Cada parto humano uma síntese desse debate, e cada síntese uma solução apenas parcial pros velhos dilemas, recriando o debate a partir daquilo que se manteve ainda insolúvel.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Que que pega aqui na área


Pawel Kuczynski

Aqui na minha área, mega-fazendeiros que vendem soja pra China tão devastando o interior, trocando matas e serras abundantes & intrincadas por centenas de km (literalmente) de megafazendas venenosas. Toda aquela diversidade retificada até restar só um deserto verde e monótono.
A diversidade cultural é devastada também; interior agro-boy "barretizado", sem livrarias mas muito sertanejo unversitário made-in-microondas. O povo em sua maioria conservador, elitista, e cada vez menos hospitaleiro. Na ausência da vegetação nativa, o clima vai esquentando por todo canto. Nos rios não dá mais pra nadar (e nada de praia nas cidadonas). "Progresso", no meu país, acaba tendo implicações verdadeiramente INFERNAIS.
Bom, em todo canto né? Cada espécie extinta é mais um passo próximo de um colapso ambiental completo. Cada buraco no ciclo da vida é mais um desbalanço se somando a outro, até que de repente a parada balança tanto que a casa cai.
A gente tem mãos fortes de robô, mas não consegue manusear a vida com suficiente delicadeza. (coloca isso na conta de 10000 anos ou mais de patriarcado).

domingo, 29 de setembro de 2013

A Resistência será Micropolítica

um manifesto da FRENTE DE COMBATE SURREAL-REICHIANA
com memórias do EVENTO TERRA PRETA
que se passou na comunidade EMANUEL GUARANI-KAIOWÁ
assim como das JORNADAS DE JUNHO



Recentemente realizou-se em Contagem/MG um evento libertário chamado "Terra Preta", que passou-se numa ocupação sem-teto (Emanuel Guarani Kaiowá) organizada pelas Brigadas Populares. (1) Durante o Terra Preta muit@s anarquistas oriund@s de tudo quanto é parte aportaram na Guarani-Kaiowá. Entre el@s - uma dose enorme de anarc@-punks, situacionistas, anarc@-tropicalistas ou outras vertentes do libertarismo.

É sem dúvida chocante para o moralismo mineiro receber esta procissão exótica de centenas de pessoas perfuradas, tingidas, tatuadas, potencialmente drogadas e sexualmente transgressivas. Durante o próprio encontro houveram ondas de preocupação, especialmente enquanto corriam boatos discrepantes sobre crianças apanhando do pai por tal ou qual influência d@s punks. (2) Mas a guerra não eclodiu. Parte disso se atribui, certamente, ao cuidadoso processo de aproximação com a comunidade por parte d@s organizador@s (e isso tem de ser louvado). (3) Mas o fato foi também que, a despeito de todo o choque, donas de casas nos receberam com o maior carinho - pessoas em situação de pobreza por vezes extrema ofertando pão, café e fofura generosamente. As crianças se esbaldaram no contato com os punks e doidões, jogando malabares, capoeira, aprendendo massagem e subindo na árvore. Os maconheiros da comunidade (quadrados, tremei! eles estão por toda parte!) se aproximavam sem pudores das rodas de conversa, de violão, de atividades. Quando da (memorável) apresentação d@ Anarc@funk (RJ/SP), puxada pelas bixas, trans e sapatas queer-punk sanguenozói, foi precisamente o morador que já sofreu ostensivamente agressões homofóbicas que tomou o microfone em mãos e mandou ver um beat-box feroz.

Houve fechamentos? Certamente. Eu o vi em alguns rostos enquanto passava. Mas por via de regra, o que observei foi o seguinte: a maior condutividade pra troca na diferença é pelas margens. O centro do poder, onde quer que se instale, só permite a ideologia da identidade, o fechamento e redução ao mesmo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

QUADROS - Quadro 02

The Darkness - Kalmakoff

QUADRO #2
FRENTE DE COMBATE SURREAL REICHIANA


A pele do rosto dilacerada - 20 centimetros quadrados de rosto esticados por sete pares de dedos-agulha. Olhos esbugalhados apreciam a cena pela câmera de segurança. Gritos! Na sala de segurança - o vigia derrubou café quente nas calças. A madame na cafeteria tem olhos multifacetados de inseto, e leva à boca delicadamente uma xícara de chá perfumada & repleta de dedos decepados.

Uma sirene brada a cada meia hora seu alerta:

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

QUADROS - Quadro 01

Robert Stevens Conett, "Spy"

QUADRO #1 
FRENTE DE COMBATE SURREAL-REICHIANA

Um gato se achega e se aninha em seu canto no gabinete do venerável e ilustríssimo general Lucas Leandro Áquila, erguido em ferro e vidro no topo da assim chamada Pirâmide do Mundo,  os cintilantes vagalumes-neon da Nova York pós-contemporânea pontilhando a paisagem a fluir como lava quente pelas avenidas, radiância loira e rubi que serpenteia pelos túneis, viadutos minaicos, & segurando o gato está o ilustríssimo e venerabilíssimo general Lucas Leandro Áquila que segura um gato e um controle em sua mão, ele gira a cadeira com o quadril tenso, alerta como uma estatueta de lince, um telefone toca, duas palavras saom em silêncio e duas respondidas: Sim, senhor. E levanta então o controle em sua mão, olha pro gato, com seu dedo indicador aperta o botão vermelho / aperta o botão vermelho. O ilustríssimo reverendíssimo general Lucas Leandro Áquila não consegue conter um sorriso.