quarta-feira, 13 de março de 2013

Fracasso, Experimentações e Foucault ao contrário

Uma hora aprendi a lição: ao invés de repetir os mesmos argumentos em TODA discussão que eu arrumo (geralmente com reaças) no facebook, melhor criar um post-repositório com os argumentos que sempre se fazem necessários, e linká-lo segundo a necessidade. Voilá! Pra quem não é reaça, pode servir pra afiar as idéias em temas polêmicos.


"Eu poderia comer uma cuia de sopa de letrinhas
e CAGAR um argumento melhor que isso"

FRACASSO

Quando se trata de falar 'dos anos sessenta', sempre topamos com o bordão do fracasso: "o movimento hippie fracassou". Tipicamente, conclui-se disso que não adianta nada experimentar soluções alternativas aos problemas de nossa sociedade. De fato, as previsões mais otimistas de que o movimento ia se espalhar até engolir a sociedade inteira não se cumpriram, mas isso não significa nada de nada.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 2)

Vajrayogini

Na parte 1 desse texto, expliquei a diferença entre diversos tipos de prática religiosa, enfatizando as práticas marginais dos ascetas, xamãs e magos. Nesta parte, eu me proponho a elaborar melhor qual é o fazer marginal da religião - amarrando tudo na categoria de "êxtase", e como a partir do êxtase podemos lançar uma visão crítica por sobre o materialismo.

As ciências do êxtase:

A mente máquina maquina, à trabalho da inteligência do corpo. Aproxima-se do que causa prazer, afasta-se do que causa dor. Automatização para poupar energia. Tudo a inteligência do corpo. Por sobre essa base, inventamos o simbólico, e com isso o fazer humano virar 'cultura'. A mente se ocupa: conseguir parceiros sexuais - conseguir comida, água, abrigo - manter-se observante dos riscos. E eis que surge o fogo. Ao seu redor, certa segurança, a escuridão circundante impõe imobilidade. Sob a insinuação da Chama, o simbólico prolifera. A mente deriva - surgem histórias. E também na imobilidade que a caça demanda, também na arte borrocada nas paredes, no relaxamento do gozo e consumo de psiquedélicos... A mente voa. Em meio à esses voos, a humanidade inventou/descobriu o ÊXTASE.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 1)


Naga Sadhu no templo Pashupatinath, Nepal (link)

Há uns tempos circulou entre meus amigos um texto cuja opinião geral poderia ser sumarizada em 'religião não merece meu respeito'. Concordo que muitas coisas imbecis são feitas em nome da religião, como por exemplo a opressão de mulheres, gays, etc, e repudio essas coisas tanto quanto o autor do texto. Também não acho que faz sentido depositar a autoridade sobre a verdade por sobre sacerdotes ou textos quaisquer. Porém, não é sábio 'jogar o bebê fora com a água do banho'. Infelizmente não pude responder uma replica quando li o texto pela primeira vez, tampouco encontrei-o novamente no limbo que é o facebook; porém ainda vale a pena apresentar algumas idéias que tenho sobre RELIGIÃO, com objetivo de mudar os termos da discussão, e abrir linhas de experimentação; meu objetivo é fazer uma "crítica marginal da religião" enquanto simultaneamente faço uma "crítica marginal-religiosa do materialismo".

O QUE DIABOS É RELIGIÃO?

Uma das hipóteses sobre a etimologia da palavra RELIGIÃO supõe que deriva de RE - LIGARE, significando "atar, amarrar, unir o que esteve separado". Nesse caso, RELIGIÃO e YOGA são duas coisas próximas, pois YOGA signifia UNIÃO. Religar este mundo a um "mundo invisível"; religar a alma humana a algo que a transcende e inclui; religar o mundano ao Sagrado - dá pra pegar a idéia.

Quando as pessoas tipicamente debatem "religião", usualmente estão falando de "religiões organizadas e hierárquicas", que são organizações destinadas a MEDIAR o contato entre os fiéis e o sagrado. Por via de regra, o contato direto com o sagrado só aconteceu há milhares de anos e seu único registro são livros antigos. Hoje em dia, alguns sacerdotes poderiam entrar em contato com deus pro exercício de certas funções (ex. conferir perdão); de resto, qualquer um que clamasse conhecimento direto da divindade (ao modo dos antigos textos) seria considerado louco. A Verdade está dada num livro e é imutável; não pode ser experimentada ou corroborada de forma alguma. Pede-se, portanto, dos fiéis que tenham "FÉ" - traduzindo: que sustentem a opinião de que A Verdade está dada através da Organização e seu Livro, e apenas ali, independente de qualquer objeção prática, racional ou advinda da experiência. (1)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

QUADROS - Quadro 02

The Darkness - Kalmakoff

QUADRO #2
FRENTE DE COMBATE SURREAL REICHIANA


A pele do rosto dilacerada - 20 centimetros quadrados de rosto esticados por sete pares de dedos-agulha. Olhos esbugalhados apreciam a cena pela câmera de segurança. Gritos! Na sala de segurança - o vigia derrubou café quente nas calças. A madame na cafeteria tem olhos multifacetados de inseto, e leva à boca delicadamente uma xícara de chá perfumada & repleta de dedos decepados.

Uma sirene brada a cada meia hora seu alerta:

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

QUADROS - Quadro 01

Robert Stevens Conett, "Spy"

QUADRO #1 
FRENTE DE COMBATE SURREAL-REICHIANA

Um gato se achega e se aninha em seu canto no gabinete do venerável e ilustríssimo general Lucas Leandro Áquila, erguido em ferro e vidro no topo da assim chamada Pirâmide do Mundo,  os cintilantes vagalumes-neon da Nova York pós-contemporânea pontilhando a paisagem a fluir como lava quente pelas avenidas, radiância loira e rubi que serpenteia pelos túneis, viadutos minaicos, & segurando o gato está o ilustríssimo e venerabilíssimo general Lucas Leandro Áquila que segura um gato e um controle em sua mão, ele gira a cadeira com o quadril tenso, alerta como uma estatueta de lince, um telefone toca, duas palavras saom em silêncio e duas respondidas: Sim, senhor. E levanta então o controle em sua mão, olha pro gato, com seu dedo indicador aperta o botão vermelho / aperta o botão vermelho. O ilustríssimo reverendíssimo general Lucas Leandro Áquila não consegue conter um sorriso.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Canto da Potência

Recentemente um leitor anônimo me contatou em resposta ao Ensaio sobre a insanidade cotidiana, e o comentário e minha resposta viraram o post Notas para uma Guerrilha Psíquica. Agora, ele postou outro comentário, e eu como de costume me alonguei de novo e decidi tornar a conversa novamente em um post.

Remedios Varo, "Alegoria do Inverno"

(...) Como mencionei, é uma realidade diferente da minha. Sou das ciências exatas, da ordem e da lei (inclusive projetando nanomáquinas de guerra), mas há um centelha que busca um caminho diferente. Isso evoca uma (singela) lembrança de um documentário com aquela experiência do labirinto e dos ratinhos. Observavam que após um tempo, o ratinho já tendo assimilado o caminho correto e o executando com perfeição, começava com um comportamento anormal, procurando um caminho diferente. Era associado a inteligência. Poderia encontrar uma ilha maior de queijo. Sinto-me desta forma. Objetivamente e de forma calculada (gostaria de colocar numa prancheta). Acho que esse comportamento é instintivo. A respeito de objetivo, é interessante(íssimo, na verdade) o sucesso consistindo na falha... pois a liberdade plena não me parece sinônimo de felicidade. Paradoxalmente só encontro um pouco de serenidade quando restrinjo voluntariamente minha liberdade... nós somos "feitos de tristeza devido ao vazio que nos constitui e à liberdade sem limites que nos assusta"? Por hora persigo o poder (e o esforço/estudo/conhecimento que mencionou para mim são facetas dele), principalmente sobre mim - não encontrei (ainda) a finalidade disto... mas parece... sei lá... um caminho.... Quanto a essas drogas, sempre me preocupam o poder de adicção e... flashbacks.....? (...) (Ass: Anônimo)

Oi anônimo, valeu por voltar pra continuar a conversa! Seu comentário me abre muitas coisas pra problematizar. A primeira é que sugiro uma distinção entre poder e potência. Você não é obrigado a aceitar minhas definições, mas ofereço-as porque podem quiçá lhe ser úteis pra pensar! - pra mim foram...
Sei que no uso comum a gente fala como se poder e potência fosse a mesma coisa, mas na hora de pensar politicamente há dois fenômenos diferentes em jogo. Poder é segundo Deleuze "o grau mínimo da potência", e tende ao controle, à restrição, à contenção. Poder é "hetero-regulado", centrado no outro; se realiza apenas através do outro, ao mesmo tempo que reprime, suprime ou diminui o outro: "sou poderosos porque mando e desmando e os outros me obedecem", "olha como sou poderoso, todos admiram minha esposa / carro / roupas / etc". A sede de poder tem sua origem biológica na restrição da potência - quanto mais potente a pessoa é, menos ela precisa dos outros pra sentir-se segura de si.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Notas para uma Guerrilha Psíquica

Hoje fui escrever uma resposta a um comentário no Ensaio sobre a Insanidade Cotidiana e me alonguei... De forma que a resposta se expandiu num novo post. Segue aí o comentário em questão e a resposta (editada e expandida) depois da imagem.

Robert Steven Connett - Night Trawl

Hey, gostei do texto. Mais da forma, na verdade - reflexo de sua formação? Em exercício de observação posso arriscar em dizer que é um acadêmico de filosofia. Esse formato é agradável pois parece um protótipo de cultura.... diversa da minha e do cotidiano. Mas não é por este elogio que escrevo. Quero saber um pouco mais. Aqui há uma constatação - um tanto quanto óbvia, vale ressaltar. O que devo fazer, portanto? Desistir dos bens e ir viver numa terra erma? Pois é fácil alienar-se dessa insanidade..... Procuro um objetivo, o que sugere? (considerando atos, excluindo "colocar uma bala na cabeça") - Ass: Anônimo

Sou das ciências sociais, antropologia, "filosofia com povo dentro" como dizem alguns. Mas a forma deve mais (ao meu ver) à poesia beat, Ginsberg, Burroughs, ao surrealista Piva, um pouco de André Breton, tributos ao velho Henry Miller e outros que não lembro agora. Obrigado pelos elogios anyway!

Quanto às saídas: não acredito em fórmula única nem em planejamento de cima pra baixo; opto por apostar no desejo, na subjetividade como única bússola contra a objetividade do poder (e aí sigo os situacionistas, em especial Raoul Vaneigem em sua Arte de Viver para as Novas Gerações).

Há um tempo cunhei pra mim a fórmula Caos, Esquizoanálise, Mídia tática: