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| Tá bom, eu explico. |
Ontém eu topei no facebook com um texto - convenhamos, bastante cômico - que propõe 15 questões "que as feministas não vão saber responder". Dá uma olhada rápida, não precisa nem de ler se não tiver com tempo de sobra. De início pensei em me revoltar, do tipo, "qual é, esse cara tá me tirando (como feminista), é isso que não vou saber responder? não é possível...?!", mas rapidinho eu cheguei a conclusão de que valia mais um alt+f4 com uma risada do que meter a mão naquele poço de ignorância humana. Era difícil até acreditar que ele tava falando sério. Ah, eu tenho uma vida pra viver além de ficar duelando com a razão com qualquer idiota pelas minhas causas. Mas depois voltei ao facebook e, vendo os comentários, descobri que as pessoas tavam naquele clima de "falou tudo!". O único comentário destoante na discussão toda era um (meio tímido) "ow, que blog idiota.", talvez pela mesma preguiça que tive de comprar uma briga dessas. Hoje decidi escrever. Na real, eu já tava querendo sintetizar o que penso em termos de feminismo há um tempo, e achei aí um motivo pra desembolar o texto. Não tenho a menor esperança de convencer o autor do texto, nem os caras que comentam no blog dele. Com sorte, eu afeto umas almas que já sintam um desconforto com discursos machistas como esse, mas não tenham aprofundado na teoria da coisa. Ou pelo menos jogo o nível da discussão um milímetro pra cima.
Antes de tudo, eu acho que precisamos partir de uma definição de feminismo pra esse texto - uma que talvez seja boa pra se levar pra vida, que ajude a pensar. Muita gente diferente já usou esse nome, feminismo, na história, e todos sabemos (espero) que existem rixas e rachas internos ao movimento (o que é perfeitamente aceitável ao meu ver, e não é necessariamente um problema; talvez seja até o que mantenha o diálogo aberto e fluindo). Façamos a distinção entre o feminismo movimento e o feminismo que inventamos, em palavras, para pensar! O feminismo não é uma briga diretamente, de antemão, contra os homens (em geral), para diminuí-los ou dominá-los. Feminismo também não é uma luta pela igualdade - talvez já tenha sido, mas boa parte do movimento aprendeu e maturou para além disso. Feminismo é a teoria e prática do combate ao patriarcado, e o patriarcado é uma estrutura que se perpetua pela história. Acho que ajuda a imaginar isso pensar nos comunistas, que combatem o capitalismo, e eles sabem que o capitalismo não são os ricos, ou mesmo os pobres, bem porque os ricos e pobres são outras pessoas a cada geração; eles sabem que podia se trocar as pessoas de lugares e desde que os LUGARES se mantenham os mesmos, se mantenham distribuídos na mesma hierarquia, o capitalismo está continuando. O comunismo não combate os ricos, ao menos não de início (talvez combatam se os ricos entrarem no caminho, como costumam entrar, por razões fáceis de imaginar); os comunistas combatem o sistema de exploração que produz esses ricos e pobres que conhecemos. Você não precisa concordar com os comunistas, só entender aí o que quero dizer com estrutura, ou com sistema, que é essencialmente a mesma coisa. Talvez nem todas feministas usem esses termos, incluindo aí muitas das feministas que me inspiram; mas pra mim ele é útil como forma de ligar esses vários pensamentos em um combate coerente. Uma estrutura é um sistema, uma rede, que distribui - digamos assim, organiza - corpos e palavras, de tal ou qual maneira. Da mesma forma que a manada de pássaros voando no céu é estruturada, da mesma forma que uma jam session (improvisação) de músicos é estruturada, da mesma forma que nossas rotinas individuais são estruturadas. Mas a estrutura vai além das "regras" que a gente é capaz de inventar pro que fazemos; ela desenha o espaço, os lugares de onde se pensa; designa os termos, as palavras que temos à disposição pra usar; seleciona os movimentos de corpo que podemos usar, isso tudo segundo tal ou qual gênero e opção sexual, segundo tal ou qual posição dentre as hierarquias da sociedade, tal ou qual cor de pele, etc.
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| Espero que você cresça e tenha muito parceiros sexuais diferentes - ops, achei que era seu irmão! |
É por isso que eu digo que o feminismo não se propõe, acima de tudo, ao combate ao machismo e à misoginia ostensivos, à 'manifestação pública' de machismo. O machismo ou misoginia ostensivos, a "identidade machista", surgem e funcionam dentro do patriarcado, são talvez a postura mais em sintonia com o patriarcado - e por isso esses discursos precisem TAMBÉM ser combatido, mas se erradicássemos o "machismo" como discurso da superioridade masculina, invertessemos os corpos e críassemos uma supremacia feminina com um discurso "femista" a lógica patriarcal inteira - a estrutura - estaria intacta, e haveria uma tarefa histórica pro feminismo empreender. O machismo ostensivo é um monte de palavras e atos que acontecem dentro de uma estrutura, a partir de certos lugares estruturalmente determinados, mas a estrutura em si já é ofensiva, já é inerentemente machista e/ou misógina. Os termos através dos quais ela possibilita ou constrói essas posturas são um canhão apontado por sobre um lado, desde o início uma sistematização da violência de gênero. É nesse momento que fazemos a distinção entre uma vertente de pseudo-feminismo que busca desvalorizar - muitas vezes por meio de comédia - os homens, descrevendo-os por seus estereótipos sem sair da lógica patriarcal. Eles são sujos, canalhas, grossos, animais, mas a gente ama eles mesmo assim, que bom que há mulheres, inteligentes, sensíveis, observadoras para limpar as casas e conduzir esses animais. E quando os/as pseudo-feministas fazendo isso, reforçam uma estrutura de valores que PERMITE aos homens serem assim, "animais", e por isso podem estuprar legitimamente, caso a mulher "aja como uma vagabunda".
Feminismo é teoria e prática do combate ao patriarcado, mas o que é o patriarcado? Precisamos começar por seus efeitos, por suas distribuições, pra então poder entender sua lógica mais profunda. Primeiro, ele manobra só com dois gêneros, é o que a feminista Judit Butler chama de sua "matriz heteronormativa": dois gêneros, homem e mulher. Sabem a diferença entre gênero e sexo? Sexo é o corpo com o qual você vive, o formato de seus orgãos sexuais digamos assim, e gênero são as palavras, do que se FALA ou DISCURSA a esse respeito, e as consequências dessas falas e discursos, as formas de se movimentar, falar, pensar que se produzem aí. E nunca se esgota o número de palavras que você pode inventar pra falar de seu corpo, nem formas diferentes de movê-lo. É possível ter um gênero, dois ou cinco mil. "Ah, mas não dá pra inventar qualquer coisa, tem um corpo ali que tá sendo descrito", podem reclamar a essa altura. Não, ele não tá sendo descrito, ele tá sendo INSCRITO. O corpo tá lá e podemos inscrever o que pensamos nele, com a tinta invisível da cultura, e dessa forma moldando-o. Talvez a tinta escorra pra fora, fique borrada, dê margem a muitas interpretações, talvez ela inscreva VAGINA onde você queria inscrever PENIS, mas de um lado ou de outro são sons e significados, berros de macaco que soltamos por aí, baseados no que imaginamos sobre as coisas, segundo tal ou qual método de imaginar. A estrutura é o que organiza e distribui essas inscrições sobre os corpos.
O patriarcado então determina que só há dois gêneros, e distribui as características sobre um e outro, produzindo os papéis de gênero. Mulher é sensível e romântica, ou é uma vagabunda perigosa e ardilosa. Homem é forte, viril, incapaz de se controlar, violento, firme, rígido, objetivo. E fazendo isso a gente cria essas corporalidades, a gente é moldado e adaptado desde novos a produzir esses papéis. As mulheres são colocadas pra brincar de boneca, vestidas de rosa, impedidas de se exercitar plenamente, impelidas a controlarem seus corpos de tal forma, não abrir as pernas em público, não se mostrar porque podem atrair estupradores, a não treparem a não ser que seja pra namorar ou casar, etc. Os homens são colocados pra brincar de carrinho, luta, vestidos de azul, incentivados a se exercitarem, a fazerem pipizinho na graminha, a pegarem geral, a não chorarem nem desmunhecarem, a imporem sua superioridade sobre outras pessoas a todo tempo, etc. E assim condicionando os corpos a gente CONSTRÓI na prática os gêneros.
Mas vai mais fundo do que isso: poderíamos embaralhar várias dessas características e ainda terminar com uma sociedade patriarcal, com a mesma estrutura. O patriarcado é também uma forma de controle econômico e de trabalho, uma forma de expropriação material. As mulheres trabalham dentro do lar mas não possuem o lar; ele está, às vistas do estado e do mercado, nas mãos do homem. "As mulheres fazem dois terços do trabalho mundial, produzem metade da comida mundial, mas ganham apenas 10% da renda e possuem 1% da propriedade", segundo o google. O trabalho doméstico não é enxergado por muitos como trabalho, mas porque não? É ralar do mesmo jeito, é fazer a sociedade funcionar, desconsiderar isso é coisa de quem nunca faxinou uma casa na vida, eu nem vou discutir isso.
O mercado e o estado surgiram entre os homens, e para os homens, e não é de se surpreender que legisle acima de tudo pra eles ("se o papa ficasse grávido, não seria contra o aborto"). Lá atrás em nossa ancestralidade nós temos o deus patriarcal, nós temos a organização da família em um sistema de transmissão de propriedade, nós temos a troca de mulheres entre os homens, nos casamentos arranjados. E desde nossa pré-história, com as sociedades caçadoras-coletoras sem estado, o homem vai ser estabelecido como Sujeito, ele vai assumir para si a Cultura, ele vai viver entre si a Política, e a mulher vai ser construída como o nem-lá nem-cá, meio bicho meio gente. E quem governava, uma vez que surgia o estado? Um homem. E quem tinha as armas? Os homens. E quem mandava, segundo as prescrições das religiões sacerdotais? Os homens. E esculturas de falos serão erguidas (enquanto a menstruação é simbolizada como sujeira, perigo ou doença), os cultos às deusas destruídos, um Homem Vitruviano vai ser inventado, e os homens ganharão sufrágio, direito à voto, muuito antes das mulheres (que, aliás, brigaram muito por isso). A própria História e a Filosofia surgem em meio aos bates-papos acadêmicos masculinos, levando em conta a experiência masculina da época - as gueras, os reis - enquanto o que viviam as mulheres florescia longe do texto. Ainda hoje, nossos grandes nomes das ciências são em sua maioria homens. Por isso, qualquer coisa que você anexe o adjetivo "tradicional" terá pra mim uma conotação machista, pois essa é nossa tradição, uma tradição que coloca o poder nas mãos dos homens, ou mais, ela produz o homem enquanto extensão do poder, pra escrever e violentar sobre os outros corpos e se safar com isso.
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| Abstinência & ignorância não são uma "alternativa segura" na cultura de estupro. |
"Safar com isso?", você se espanta. Não é à toa que as feministas chamam o patriarcado de "cultura de estupro" que culpa a vítima. Não é à toa que muitas pessoas acham que "mulher feia", ou gays e lésbicas, ou trans e travestis podem ser livremente espancados e estuprados. E que a culpa vai ser deles por "darem na cara", por trazerem quem são a público, por se portarem assim ou assado em público - o mesmo espaço público que os homens hetero construiram entre eles pra eles, o mesmo espaço público onde as mulheres só podem aparecer como anexo, como objeto de um homem. A tradição vem desde as sociedades caçadoras-coletoras, em alguns casos; os homens se agrupavam para violentar as mulheres que transgredissem as regras tradicionais do feminino. Desde o início, o patriarcado é uma institucionalização da violência, sob a justificativa da moral tradicional. Mas essa violência não é só física, é social e simbólica. Ela vai incidir sobre os corpos desde a formação do "eu", ela vai construir esse lugar na estrutura que é o "eu" dos homens - um "eu" que, conquanto reprimido, ainda pode pretender a uma certa unidade e universalidade discursiva, um "eu" que se monta sobre o topo da pirâmide hierárquica, se propondo transcendente - enquanto a mulher é montada num "quase-eu" que só pode existir oscilando entre os limites da SANTA e da PUTA, quebrada entre essas duas pinças ou vínculos, forçada dentro desse não-espaço entre uma coisa e outra, incapaz de ser ela mesma em ambos os lados; a ela será negada a universalidade porque ela é sempre um caso meio específico, um corpo específico (está de TPM? é bonita ou feia? falta sexo? é branca ou preta? etc). Ninguém nunca desconsiderou o que Platão escreveu julgando sua beleza, mas isso é uma coisa corriqueira que fazemos com mulheres (especialmente as feministas, acusadas de serem - OH!! - feias, e por isso indignas de serem ouvidas).
Mas mais do que propor que as mulheres conquistem esse espaço, do topo da pirâmide, onde você é sujeito uno e universal e transcendente e descorporificado (patriarcado para todos!), eu penso em desmontar esse lugar, esse espaço, e aceitar que nenhum de nós é nem uno e nem universal. Mas essa parte 1 já tá ficando muito grande, então, fica pro próximo capítulo examinar a construção das subjetividades patriarcais, as relações com a repressão sexual, o mercado e com o estado, e também esmiuçar porque todos perdemos com o patriarcado e quais as alternativas à ele que consigo imaginar e propor na prática. Até breve!
Observação: A parte 2 já está no ar!




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