sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

QUADROS - Quadro 02

The Darkness - Kalmakoff

QUADRO #2
FRENTE DE COMBATE SURREAL REICHIANA


A pele do rosto dilacerada - 20 centimetros quadrados de rosto esticados por sete pares de dedos-agulha. Olhos esbugalhados apreciam a cena pela câmera de segurança. Gritos! Na sala de segurança - o vigia derrubou café quente nas calças. A madame na cafeteria tem olhos multifacetados de inseto, e leva à boca delicadamente uma xícara de chá perfumada & repleta de dedos decepados.

Uma sirene brada a cada meia hora seu alerta:

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

QUADROS - Quadro 01

Robert Stevens Conett, "Spy"

QUADRO #1 
FRENTE DE COMBATE SURREAL-REICHIANA

Um gato se achega e se aninha em seu canto no gabinete do venerável e ilustríssimo general Lucas Leandro Áquila, erguido em ferro e vidro no topo da assim chamada Pirâmide do Mundo,  os cintilantes vagalumes-neon da Nova York pós-contemporânea pontilhando a paisagem a fluir como lava quente pelas avenidas, radiância loira e rubi que serpenteia pelos túneis, viadutos minaicos, & segurando o gato está o ilustríssimo e venerabilíssimo general Lucas Leandro Áquila que segura um gato e um controle em sua mão, ele gira a cadeira com o quadril tenso, alerta como uma estatueta de lince dourada, um telefone toca, duas palavras som em silêncio e duas respondidas: Sim, senhor. E levanta então o controle em sua mão, olha pro gato, com seu dedo indicador aperta o botão vermelho / aperta o botão vermelho. O ilustríssimo reverendíssimo general Lucas Leandro Áquila não consegue conter um sorriso.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Canto da Potência

Recentemente um leitor anônimo me contatou em resposta ao Ensaio sobre a insanidade cotidiana, e o comentário e minha resposta viraram o post Notas para uma Guerrilha Psíquica. Agora, ele postou outro comentário, e eu como de costume me alonguei de novo e decidi tornar a conversa novamente em um post.

Remedios Varo, "Alegoria do Inverno"

(...) Como mencionei, é uma realidade diferente da minha. Sou das ciências exatas, da ordem e da lei (inclusive projetando nanomáquinas de guerra), mas há um centelha que busca um caminho diferente. Isso evoca uma (singela) lembrança de um documentário com aquela experiência do labirinto e dos ratinhos. Observavam que após um tempo, o ratinho já tendo assimilado o caminho correto e o executando com perfeição, começava com um comportamento anormal, procurando um caminho diferente. Era associado a inteligência. Poderia encontrar uma ilha maior de queijo. Sinto-me desta forma. Objetivamente e de forma calculada (gostaria de colocar numa prancheta). Acho que esse comportamento é instintivo. A respeito de objetivo, é interessante(íssimo, na verdade) o sucesso consistindo na falha... pois a liberdade plena não me parece sinônimo de felicidade. Paradoxalmente só encontro um pouco de serenidade quando restrinjo voluntariamente minha liberdade... nós somos "feitos de tristeza devido ao vazio que nos constitui e à liberdade sem limites que nos assusta"? Por hora persigo o poder (e o esforço/estudo/conhecimento que mencionou para mim são facetas dele), principalmente sobre mim - não encontrei (ainda) a finalidade disto... mas parece... sei lá... um caminho.... Quanto a essas drogas, sempre me preocupam o poder de adicção e... flashbacks.....? (...) (Ass: Anônimo)

Oi anônimo, valeu por voltar pra continuar a conversa! Seu comentário me abre muitas coisas pra problematizar. A primeira é que sugiro uma distinção entre poder e potência. Você não é obrigado a aceitar minhas definições, mas ofereço-as porque podem quiçá lhe ser úteis pra pensar! - pra mim foram...
Sei que no uso comum a gente fala como se poder e potência fosse a mesma coisa, mas na hora de pensar politicamente há dois fenômenos diferentes em jogo. Poder é segundo Deleuze "o grau mínimo da potência", e tende ao controle, à restrição, à contenção. Poder é "hetero-regulado", centrado no outro; se realiza apenas através do outro, ao mesmo tempo que reprime, suprime ou diminui o outro: "sou poderosos porque mando e desmando e os outros me obedecem", "olha como sou poderoso, todos admiram minha esposa / carro / roupas / etc". A sede de poder tem sua origem biológica na restrição da potência - quanto mais potente a pessoa é, menos ela precisa dos outros pra sentir-se segura de si.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Notas para uma Guerrilha Psíquica

Hoje fui escrever uma resposta a um comentário no Ensaio sobre a Insanidade Cotidiana e me alonguei... De forma que a resposta se expandiu num novo post. Segue aí o comentário em questão e a resposta (editada e expandida) depois da imagem.

Robert Steven Connett - Night Trawl

Hey, gostei do texto. Mais da forma, na verdade - reflexo de sua formação? Em exercício de observação posso arriscar em dizer que é um acadêmico de filosofia. Esse formato é agradável pois parece um protótipo de cultura.... diversa da minha e do cotidiano. Mas não é por este elogio que escrevo. Quero saber um pouco mais. Aqui há uma constatação - um tanto quanto óbvia, vale ressaltar. O que devo fazer, portanto? Desistir dos bens e ir viver numa terra erma? Pois é fácil alienar-se dessa insanidade..... Procuro um objetivo, o que sugere? (considerando atos, excluindo "colocar uma bala na cabeça") - Ass: Anônimo

Sou das ciências sociais, antropologia, "filosofia com povo dentro" como dizem alguns. Mas a forma deve mais (ao meu ver) à poesia beat, Ginsberg, Burroughs, ao surrealista Piva, um pouco de André Breton, tributos ao velho Henry Miller e outros que não lembro agora. Obrigado pelos elogios anyway!

Quanto às saídas: não acredito em fórmula única nem em planejamento de cima pra baixo; opto por apostar no desejo, na subjetividade como única bússola contra a objetividade do poder (e aí sigo os situacionistas, em especial Raoul Vaneigem em sua Arte de Viver para as Novas Gerações).

Há um tempo cunhei pra mim a fórmula Caos, Esquizoanálise, Mídia tática:

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Para libertar as Forças Maravilhosas da Noite



O erro é pensar que há um segredo, quando na verdade são dois segredos. São necessários dois para constituir um encontro, e o encontro é a única realidade, o resto todo é fantasma.


*

O paradoxo do surrealismo: Por um lado, empenhado em destruir a arte burguesa, em destruir acima de tudo o artista, o autor, na disjunção da consciência que abra as alas do automático, abre o fluxo pro murmúrio da inspiração, pro manancial infinito de Maravilha escondido no avesso da realidade diurna, conjurando a arte minoritária por excelência, tornando a arte acessível para toda a humanidade. Todos somos capazes de sonhar; imaginar um Mito é um direito irremovível de toda comunitariedade. E toda comunitariedade é, por definição, contracultural. "Os escritores surrealistas (...) especificavam que, para eles, não tem lugar em um regime capitalista a defesa e a manutenção da cultura. Esta cultura, diziam eles, não nos interessa senão no seu devir, e ese mesmo devir necessita antes de mais nada da transformação da sociedade pela Revolução proletária"(1). A "cultura" burguesa é civilizatória, estatal, pois busca antes de tudo congelar um certo estado das coisas, preservar um "patrimônio", enquanto simultaneamente esvazia a sociedade de toda vitalidade. A "cultura" burguesa está sempre contra o corpo, está sempre em busca de erigir um ideal transcendente (portanto incorpóreo) de belo, de educado, de - enfim - civilizado, em contraposição às forças caósmicas da barbárie, em contraposição ao poder transformador do encontro. Por isso toda comunitariedade é contracultural - pois a comunitariedade é a mãe da invenção. O paradoxo está em, por outro lado, Breton clamar pela "OCULTAÇÃO PROFUNDA E VERDADEIRA DO SURREALISMO"(2), assim em caixa alta, bradando "Abaixo os que queriam distribuir o pão maldito aos passarinhos."(2) "A aprovação do público deve ser evitada acima de tudo. É absolutamente necessário impedir o público de entrar, se quisermos evitar a confusão. Acredito que é preciso mantê-lo exasperado à porta, através de um sistema de desafios e provocações."(2) Para manter seu caráter radical, o surrealismo precisa acima de tudo evitar a banalidade das categorias, e ao fazê-lo, demonstra sua ascendência Nitzscheana, sua anarquia coroada. Para ser verdadeiramente de todos, é inevitável passar pelas minorias, pois ninguém é a maioria. Não há um homem sequer na terra que seja um homem vitruviano, não há nenhum caso que seja verdadeiramente universal, cada caso é um encontro singular e irrepetível. O não-espaço do encontro: esse “entre as coisas [que] não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”(3)


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ensaio sobre a insanidade cotidiana

Decidi retomar o blog e escrever. Mesmo que seja só em pequenos fragmentos. Mesmo que sejam só asserções sem fundamento. Mesmo que seja esteticamente desmezinhado. Mesmo que eu me repita.
Eu acho que minha visão pode ser de utilidade pro mundo ao meu redor.

Por isso preciso começar por um curto ENSAIO SOBRE A INSANIDADE COTIDIANA.

Porque a maior de todas as loucuras é a normalidade civilizada.



É só eu que me sinto assim? A TV e a publicidade me ofendem a cada segundo com sua rasidão pseudo-importante. As pessoas se juntam pra festejar e nem bem dançam. As cidades construídas pras máquinas transitarem e os corpos macios e quentes e peludos dos humanos que restaram se esgueiram por passarelas invisíveis em viadutos escuros, cruzando os dedos pra que sua filhinha de colo não seja triturada por metal cromado acelerado. Neuromancer (do Gibson) e Crash (do Ballard) são proféticos. Os médicos proibem as pessoas de parir em casa. O núcleo biológico ameaçado; por todo lado, pinças mecânicas o penetram, manuseiam, punem, esquadrinham. No alto corre a corrente da alta-grana internacional, onde os lagartões moldam o mundo a sua imagem e semelhança (em cada lar, em cada família há um TOSHIBA, com sua respiração fria e metálica, um campo elétrico, uma criança crescendo no plástico e na pelúcia) - há um lugar onde a política encontra o dinheiro - você se liga a isso e sua casa é invadida por bolsas de plástico com líquidos doces e estimulantes, pra que você suporte - antes qualquer um podia caminhar (ou mesmo estacionar) ao lado de um rio e se jogar - cuidado com as arraias, isso é tudo - mas agora está tudo poluído, poluído, irreversivelmente - e falar em nome da vida começa a ser vergonhoso pois há gente demais!! - e que glória há em ter um mundo envelhecido? quantos de nós envelhecem ainda vivos? - toda criança é claramente uma estrela, mas isso vai se apagando...