domingo, 29 de setembro de 2013

A Resistência será Micropolítica

um manifesto da FRENTE DE COMBATE SURREAL-REICHIANA
com memórias do EVENTO TERRA PRETA
que se passou na comunidade EMANUEL GUARANI-KAIOWÁ
assim como das JORNADAS DE JUNHO



Recentemente realizou-se em Contagem/MG um evento libertário chamado "Terra Preta", que passou-se numa ocupação sem-teto (Emanuel Guarani Kaiowá) organizada pelas Brigadas Populares. (1) Durante o Terra Preta muit@s anarquistas oriund@s de tudo quanto é parte aportaram na Guarani-Kaiowá. Entre el@s - uma dose enorme de anarc@-punks, situacionistas, anarc@-tropicalistas ou outras vertentes do libertarismo.

É sem dúvida chocante para o moralismo mineiro receber esta procissão exótica de centenas de pessoas perfuradas, tingidas, tatuadas, potencialmente drogadas e sexualmente transgressivas. Durante o próprio encontro houveram ondas de preocupação, especialmente enquanto corriam boatos discrepantes sobre crianças apanhando do pai por tal ou qual influência d@s punks. (2) Mas a guerra não eclodiu. Parte disso se atribui, certamente, ao cuidadoso processo de aproximação com a comunidade por parte d@s organizador@s (e isso tem de ser louvado). (3) Mas o fato foi também que, a despeito de todo o choque, donas de casas nos receberam com o maior carinho - pessoas em situação de pobreza por vezes extrema ofertando pão, café e fofura generosamente. As crianças se esbaldaram no contato com os punks e doidões, jogando malabares, capoeira, aprendendo massagem e subindo na árvore. Os maconheiros da comunidade (quadrados, tremei! eles estão por toda parte!) se aproximavam sem pudores das rodas de conversa, de violão, de atividades. Quando da (memorável) apresentação d@ Anarc@funk (RJ/SP), puxada pelas bixas, trans e sapatas queer-punk sanguenozói, foi precisamente o morador que já sofreu ostensivamente agressões homofóbicas que tomou o microfone em mãos e mandou ver um beat-box feroz.

Houve fechamentos? Certamente. Eu o vi em alguns rostos enquanto passava. Mas por via de regra, o que observei foi o seguinte: a maior condutividade pra troca na diferença é pelas margens. O centro do poder, onde quer que se instale, só permite a ideologia da identidade, o fechamento e redução ao mesmo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Fora do Eixo sob o microscópio: uma visita à Casa FdE Minas

Capilé e Torturra no Roda Viva

Em uma das recentes polêmicas que se espalharam pelo Facebook, me convidaram pra visitar uma das casas FdE e conhecer com meus próprios olhos. O FdE já é objeto de discussão e crítica na esquerda há uns bons anos, embora tenha sido só agora - após um artigo do Reinaldo Azevedo na Veja e a gloriosa entrevista pelos dinossauros da mídia no Roda Viva - que o assunto realmente atingiu o escrutínio público.

Eu topei de bom grado o convite pra ir visitá-los. Sinto que o FdE me tange bastante pessoalmente, por uma miríade de razões. Em 2011, quando emergiram as primeiras polêmicas sobre o FdE quando do artigo crítico do Passa Palavra, foi à filosofia Deleuze e Guattari (filtrada através de seus discípulos Hardt e Negri) que defensores do FdE recorreram para tentar defender a pertinência política de sua prática. Porém, como leitor de longa data desses autores, me é clara a contradição entre as frequentes exortações à prudência oriundas da dupla de filósofos, e o entusiasmo dos pró-FdE com o "novo", "digital", 2.0, como se novo significasse automaticamente "bom" ou "melhor". Se os inimigos da humanidade puderem, inventarão novas formas de dominação a cada dia... Algo já não cheirava bem aí.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Que o Diabo seja meu Deus

Parte de "Scuola di Atene", de Rafael

Traduzi e estou divulgando este ensaio pois me causou arrepios na espinha. Seu nome original é "Devil be my god", seu autor é o mago americano Lon Milo Duquette e é parte ser encontrado de seu excelente livro "Angels, Demons & Gods of the New Millenium", disponível aqui. A história que DuQuette conta não é mesma que está na Wikipedia, mas provavelmente tem também seu quinhão de verdade. Espero que a leitura inspire a vocês assim como me inspirou - dada a necessidade de combater o crescente obscurantismo na mídia, política e opinião pública (das quais a bancada evangélica e a ruralista tem sido símbolo).

No ano 415 D.C. Cyril, o Bispo de Alexandria, se encontrava numa posição muito desconfortável. Não apenas estava atulhado com a tarefa de compor doutrinas viáveis (1) a partir das conflituosas e confusas tradições do jovem culto cristão, mas também esperavam dele que o fizesse em meio à cidade pagã mais sofisticada e iluminada da Terra.
Muito antes do alegado nascimento virgem do salvador crucificado, Alexandria, com suas escolas celebradas e bibliotecas, amamentou as grandes mentes do mundo Mediterrâneo e Asia. Aqui a religião e filosofia foram amantes, e de sua união nasceu um ambiente dinâmico de diálogo e debate. Em mais de uma ocasião Cyril tentou arrebanhar convertidos do corpo de estudantes da Academia Neo-Platônica, apenas para ser chocado pela percepção desconfortável de que os  filósofos calouros sabiam bem mais que ele mesmo a respeito das sutilezas e limitações de sua própria fé. Incômodos como fossem esses momentos, Sua Graça os suportou obedientemente. Eles o proporcionavam a oportunidade de sofrer por sua fé. Sua paciência se esgotou, contudo, quando sua fé e reputação foram desafiadas por uma brilhante e carismática luminária da Escola Alexandrina de Neo-Platonismo, Hypatia - a maior Iniciada mulher do mundo antigo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Meus problemas com o Vipassana como ensinado por S. N. Goenka



Nos últimos anos eu participei de dois cursos de 10 dias de meditação vipassana no centro Dhamma Santi, em Miguel Pereira. Sou extremamente grato a esses cursos por terem me possibilitado aprofundar na técnica (que eu já praticava) e firmá-la realmente como uma prática diária, deslanchando um processo acelerado de auto-transformação e superação. Os cursos são sustentados por doações e trabalho voluntário, o que reforça a autenticidade do ensinamento. Desde que fiz meu primeiro curso, recomendei enfaticamente a vári@s amig@s que lá fossem também (e alguns foram mesmo). Por tê-los acolhido sou também grato; e aos meus amigos que ainda não aprenderam a técnica, continuo a indicar os cursos do S. N. Goenka. Embora, agora, com alguma relutância, e meio por falta de opção...

Ao longo dos últimos meses vim refletindo sobre aspectos da doutrina apresentada por eles que, de início, pareceram secundários tamanhos os benefícios da técnica. A um certo ponto caiu a ficha que essas reflexões tem implicações sérias, e mereciam um posicionamento claro de minha parte. Tenho também sentido uma urgência de não me calar, de não me intimidar perante o debate - é uma das formas que tenho de ajudar no aprimoramento cognitivo meu e da humanidade (que se tornou hoje a minha prioriedade em termos de intervenção social). Não sei quanta abertura as pessoas envolvidas com a organização de S. N. Goenka tem para críticas, mas não é na abertura alheia que vou me mirar em minha sinceridade - e nesse ponto busco seguir os passos do próprio Buddha, que foi extremamente subversivo para sua época. (1)

quarta-feira, 13 de março de 2013

Fracasso, Experimentações e Foucault ao contrário

Uma hora aprendi a lição: ao invés de repetir os mesmos argumentos em TODA discussão que eu arrumo (geralmente com reaças) no facebook, melhor criar um post-repositório com os argumentos que sempre se fazem necessários, e linká-lo segundo a necessidade. Voilá! Pra quem não é reaça, pode servir pra afiar as idéias em temas polêmicos.


"Eu poderia comer uma cuia de sopa de letrinhas
e CAGAR um argumento melhor que isso"

FRACASSO

Quando se trata de falar 'dos anos sessenta', sempre topamos com o bordão do fracasso: "o movimento hippie fracassou". Tipicamente, conclui-se disso que não adianta nada experimentar soluções alternativas aos problemas de nossa sociedade. De fato, as previsões mais otimistas de que o movimento ia se espalhar até engolir a sociedade inteira não se cumpriram, mas isso não significa nada de nada.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 2)

Vajrayogini

Na parte 1 desse texto, expliquei a diferença entre diversos tipos de prática religiosa, enfatizando as práticas marginais dos ascetas, xamãs e magos. Nesta parte, eu me proponho a elaborar melhor qual é o fazer marginal da religião - amarrando tudo na categoria de "êxtase", e como a partir do êxtase podemos lançar uma visão crítica por sobre o materialismo.

As ciências do êxtase:

A mente máquina maquina, à trabalho da inteligência do corpo. Aproxima-se do que causa prazer, afasta-se do que causa dor. Automatização para poupar energia. Tudo a inteligência do corpo. Por sobre essa base, inventamos o simbólico, e com isso o fazer humano virar 'cultura'. A mente se ocupa: conseguir parceiros sexuais - conseguir comida, água, abrigo - manter-se observante dos riscos. E eis que surge o fogo. Ao seu redor, certa segurança, a escuridão circundante impõe imobilidade. Sob a insinuação da Chama, o simbólico prolifera. A mente deriva - surgem histórias. E também na imobilidade que a caça demanda, também na arte borrocada nas paredes, no relaxamento do gozo e consumo de psiquedélicos... A mente voa. Em meio à esses voos, a humanidade inventou/descobriu o ÊXTASE.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

À RESPEITO DE RELIGIÃO (parte 1)


Naga Sadhu no templo Pashupatinath, Nepal (link)

Há uns tempos circulou entre meus amigos um texto cuja opinião geral poderia ser sumarizada em 'religião não merece meu respeito'. Concordo que muitas coisas imbecis são feitas em nome da religião, como por exemplo a opressão de mulheres, gays, etc, e repudio essas coisas tanto quanto o autor do texto. Também não acho que faz sentido depositar a autoridade sobre a verdade por sobre sacerdotes ou textos quaisquer. Porém, não é sábio 'jogar o bebê fora com a água do banho'. Infelizmente não pude responder uma replica quando li o texto pela primeira vez, tampouco encontrei-o novamente no limbo que é o facebook; porém ainda vale a pena apresentar algumas idéias que tenho sobre RELIGIÃO, com objetivo de mudar os termos da discussão, e abrir linhas de experimentação; meu objetivo é fazer uma "crítica marginal da religião" enquanto simultaneamente faço uma "crítica marginal-religiosa do materialismo".

O QUE DIABOS É RELIGIÃO?

Uma das hipóteses sobre a etimologia da palavra RELIGIÃO supõe que deriva de RE - LIGARE, significando "atar, amarrar, unir o que esteve separado". Nesse caso, RELIGIÃO e YOGA são duas coisas próximas, pois YOGA signifia UNIÃO. Religar este mundo a um "mundo invisível"; religar a alma humana a algo que a transcende e inclui; religar o mundano ao Sagrado - dá pra pegar a idéia.

Quando as pessoas tipicamente debatem "religião", usualmente estão falando de "religiões organizadas e hierárquicas", que são organizações destinadas a MEDIAR o contato entre os fiéis e o sagrado. Por via de regra, o contato direto com o sagrado só aconteceu há milhares de anos e seu único registro são livros antigos. Hoje em dia, alguns sacerdotes poderiam entrar em contato com deus pro exercício de certas funções (ex. conferir perdão); de resto, qualquer um que clamasse conhecimento direto da divindade (ao modo dos antigos textos) seria considerado louco. A Verdade está dada num livro e é imutável; não pode ser experimentada ou corroborada de forma alguma. Pede-se, portanto, dos fiéis que tenham "FÉ" - traduzindo: que sustentem a opinião de que A Verdade está dada através da Organização e seu Livro, e apenas ali, independente de qualquer objeção prática, racional ou advinda da experiência. (1)