domingo, 23 de julho de 2017

O Rei Chegou - 1ª Lunação de Leão (Julho e Agosto de 2017)


"O Rei Chegou, Viva o Rei" Por Jorge Ben (1975)


Hoje de manhã, cerca de 9:45, o Sol e a Lua se encontaram em longitude, encerrando a Lunação anterior, do signo de Câncer, e dando início à um novo mês lunar (lunação), dessa vez no signo de Leão - a casa dourada do Sol. Este ano, em especial, teremos duas lunações seguidas no signo de Leão, das quais a segunda será um eclipse visível de toda a América do Norte.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O GRANDE APRISIONADOR (Parte II)


Peter Zokosky, "Attraction" (2008)

UM CLARÃO EM MEIO À ESCURIDÃO

"Como caíste do céu, ó Lucifer, filho da alva!"
Isaías 14:12

Conforme a Luz descende, o Inferno, até então escondido, se revela.

E o Inferno é a Matéria, o Caos, a receptividade original, a Deusa antes de parir o universo.

E a Luz é uma contaminação. A matéria está sendo contaminada pela Luz. Ela reage à esta estranha presença, criando o fantasma do Mal.

O Diabo em sua queda é o bode expiatório à quem foi confiada a maior e mais ingrata de todas as tarefas: levar a tocha pra dentro da caverna. É por culpa dele que enxergamos. E como odiamos enxergar!

terça-feira, 9 de maio de 2017

SATURNO




Saturno é um mundo em ruínas.

Palácios caindo aos pedaços, pilastras de mármore em meio aos sapos, prédios abandonados cheios de poças no chão.

É a hecatombe ecológica,
a terra água e ar envenenados, pilhas de entulho, resto enferrujado de ferrari e embalagens de batata-frita, polaróides apagadas e tevês espatifadas.

Saturno é o cérebro frito da máquina,
o registro inflexível do algoritmo, o controle 24 horas, estado policial,  a agência de espionagem, o triunfo do asfalto sobre o mato, da burocracia sobre a criatividade, da crítica sobre a fé.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ensaio sobre o Disco


Ace of Disks, Thoth Tarot (Crowley-Harris)


O DISCO É A TERRA

E a Terra é uma grande roda. Tudo que vai, volta; do pó viemos ao pó retornaremos; a gente come, a gente caga, o adubo faz a plantinha crescer pra gente comer de novo. O dia sucede à noite, a noite ao dia; a isso todos os seres vivos se adaptaram, cada qual a seu modo - entre o descanso e a atividade. O giro do disco é inexorável, e a única certeza possível é que nada permanecerá parado, parar é a própria morte, mas mesmo a morte é só mais um passo rumo uma outra vida. O Disco é Anicca, a impermanência, e por isso a Terra é o Eterno Retorno da Diferença.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Contra o ideal ascético

(arte: Hans Burgkmair)

Rezam algumas tradições que o curso de ação mais virtuoso é a renúncia ao mundo e à sociedade: o ideal ascético. Subir a montanha ou vagar no deserto, sacrificando a vida a um outro mundo no Céu ou na extinção do Ser no Nirvana: tudo menos esta bagunça aqui de fogo, lama, sangue e poeira.

É verdade, a mais nobre verdade, que a vida na Terra é desprovida de sentido intrínseco. Que as idéias de duração, permanência, fixidez, são fundamentalmente ilusórias, assim como o "eu" que faz o sujeito da Cultura. Com isso estou repetindo os ensinamentos chave de Buda:  Eu e Duração são efeitos de superfície, que não tem nada a ver com os fundamentos da vida ou da realidade. E a maioria absoluta das pessoas passa a sua vida inteira rastejando no superficial.

Similarmente, o que passa como "cultura" hoje - e talvez na maior parte da história civilizada - é de uma pequenez de sentido que chega a doer. Quero dizer, as discussões porcaria da tevê ("Malhação discute o problema das drogas"). Mais uma geração de celulares, dessa vez com megapixels extra. Miniaturas de capacete. Vibradores em forma de super-heróis. Outro retrô nostálgico de outra década perdida. Roupas na moda este verão. Caetano estaciona no Leblon. "Porque ele não se mata de uma vez / pula logo deste prédio?" (essa frase eu ouvi várias vezes ontem). Até coisas verdadeiramente pungentes e baseadas em experiência vivida, como por exemplo o dilacerante legado da escravidão e do patriarcado, acaba diluído em briguinhas virtuais que gastam muito tempo de todo mundo e adiantam muito pouco. Tudo isso em eletrônicos cuja fome de energia justifica chutar os Munduruku pra fora de sua terra sagrada. Em petróleo cavado à custa de vazamentos de óleo como o da BP. Cuja mineração acarreta desastres como o assassinato do Rio Doce pela Samarco/Vale/BHP. Cuja produção é feita em fábricas com trabalho semelhante à escravidão. Cujos componentes tóxicos serão empilhados na Africa sob a alcunha de "reciclagem".

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Feitiçaria da Poeira II - Cai a Ficha


Este texto é uma tradução minha (não-oficial) de um artigo do Dr. Alexander Cummins chamado "Dirt Sorcery II - Penny Drops". Foi publicado originalmente no Gods and Radicals e aqui disponibilizado sob a gentil autorização do Dr. Cummins, que mantém também um tumblr contendo um enorme arquivo gratuito de scans de antigos grimórios



Rituais de “pagar” pela poeira [1] a princípio parecem terrivelmente incongruentes com a política da magia anti-capitalista. Devemos estampar a tudo com uma etiqueta de preço? Cada interação mediada pela promessa chata e repetitiva de dinheiro duro e frio, ou débito tenebroso de plástico? Mas há muitas formas bruxas de pensar sobre moedas e sujeira que precedem o capitalismo industrial, antes da usura atingir tamanhas proporções. As ferramentas do mestre certamente não derrubarão a casa do mestre enquanto seguirmos as instruções. Mas as moedas enquanto matéria podem se prestar à várias reapropriações deste poder opressor.

Basta de papo. Remova o suposto valor monetário da moeda da Águia Dourada, esse sentido estreito que alegam, e considere-a sob um ângulo novo. Peças de metal. Engaje o objeto e seu espírito em seus próprios termos, por sua própria história. De uma certa perspectiva - especificamente, uma que não isola a empreitada humana das ações do mundo natural - uma moeda cunhada e formada pode não ser tão diferente do belo ofício natural da geologia metamórfica. Por outro lado, talvez o Jardim esteja mesmo perdido pra sempre. Talvez essa feitiçaria monetária da sujeira seja um desejo em vão, mas também são os níqueis, especialmente nas mãos dos desesperados.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Futuro da Magia


Quando adentrei na Magia, inicialmente sob o viés da Magia do Caos, ergui a bandeira da  técnica enquanto possível "língua franca" não-sectária entre as diferentes escolas espirituais. Acreditava que uma simples dose de  pragmatismo poderia resolver o barulho e incompreensão da dispersão de vozes, correntes e caminhos que é o Sagrado. Bastaria jogar mais duro com a razão, mudando o foco da conversa rumo à aquilo que pode ser observado: técnicas e resultados. Foi esse ponto de vista que me levou ao movimento online do Pragmatic Dharma, um grupo de blogs, websites e foruns de meditadores interessados em abordar o caminho espiritual sem os excessos dogmáticos da participação religiosa. O budismo Theravada (e sua cria o movimento vipassana) serviu de ponto de partida, sendo Theravada a mais "seca" e técnica das correntes do budismo - que é arguívelmente uma das mais secas religiões - e com "seca" quero dizer avessa a prestar concessões ao imaginário e intuição mítica populares (buscando livrar-se dos entretenimentos e consolações da neurose coletiva). Com o trabalho da dupla britânica do Baptist's Head, confluíram o Pragmatic Dharma e a Magia do Caos - e a noção de iluminação, que por milênios compôs o caroço das tradições espirituais, foi reinserida pela dupla britânica  no horizonte memético da Magia do Caos.