quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lunação de Virgem: o Oco da Terra e a Queda do Céu

Designs por Sonia Delaunay , fotogrfia por Edward Steichen , 1925

Na madrugada desta quarta-feira a Lua, já totalmente sem luz, encontrou-se ao Sol, dando início à outra lunação que irá durar pelos próximos 29 dias. A lunação destaca importância de Mercúrio, que assume também o comando de 5 dos 7 planetas que vagueiam pelos céus - Venus, Marte, Sol, Lua e Mercúrio estão todos em Virgem, o signo onde Mercúrio está em casa (domicílio) e em seu melhor estado (exaltação).

Virgem é um signo cuja qualidade é a terra mutável. A terra é fria e seca, ou seja, sua natureza é contrair-se ou conservar-se em si. Em seu estado mutável, permite que a matéria seja organizada e esculpida de maneira incremental e detalhada. Virgem é um signo pouco acolhedor pros planetas ditos benéficos, Jupiter e Venus: não há espaço aqui pra fusão ambígua dos opostos, voos altos e transcendência: o que há, e há de sobra, é a perfeição da técnica, a medida exata, o cuidado e o rigor.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O CAPITALISMO NÃO É UM SISTEMA SOCIAL


Aleksander Rodchenko, Maquette for War of the Future, 1930

é precisamente a falta de um.

Imagine um pulha que não liga pra nada. E ele tem armas.

Ele toma pra si terras e máquinas. Ele abre pros outros trabalharem nelas - quer dizer, trabalhar pra ele. Nos termos dele.

Ele tem dinheiro. Mas esse dinheiro só significa alguma coisa pois garante acesso à comida, moradia e diversões, que por sua vez dependem de terras, máquinas, e gente trabalhando nelas. Gente botando fé que trabalhando nelas, vai poder ter acesso a casa, comida e diversão.

E só há terras e máquinas pra as pessoas trabalharem se há armas pra conquistá-las e depois defendê-las de outros pulhas.

Então, dinheiro é uma forma organizar os saldos do poder armado.

domingo, 23 de julho de 2017

O Rei Chegou - 1ª Lunação de Leão (Julho e Agosto de 2017)


"O Rei Chegou, Viva o Rei" Por Jorge Ben (1975)


Hoje de manhã, cerca de 9:45, o Sol e a Lua se encontaram em longitude, encerrando a Lunação anterior, do signo de Câncer, e dando início à um novo mês lunar (lunação), dessa vez no signo de Leão - a casa dourada do Sol. Este ano, em especial, teremos duas lunações seguidas no signo de Leão, das quais a segunda será um eclipse visível de toda a América do Norte.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O GRANDE APRISIONADOR (Parte II)


Peter Zokosky, "Attraction" (2008)

UM CLARÃO EM MEIO À ESCURIDÃO

"Como caíste do céu, ó Lucifer, filho da alva!"
Isaías 14:12

Conforme a Luz descende, o Inferno, até então escondido, se revela.

E o Inferno é a Matéria, o Caos, a receptividade original, a Deusa antes de parir o universo.

E a Luz é uma contaminação. A matéria está sendo contaminada pela Luz. Ela reage à esta estranha presença, criando o fantasma do Mal.

O Diabo em sua queda é o bode expiatório à quem foi confiada a maior e mais ingrata de todas as tarefas: levar a tocha pra dentro da caverna. É por culpa dele que enxergamos. E como odiamos enxergar!

terça-feira, 9 de maio de 2017

SATURNO




Saturno é um mundo em ruínas.

Palácios caindo aos pedaços, pilastras de mármore em meio aos sapos, prédios abandonados cheios de poças no chão.

É a hecatombe ecológica,
a terra água e ar envenenados, pilhas de entulho, resto enferrujado de ferrari e embalagens de batata-frita, polaróides apagadas e tevês espatifadas.

Saturno é o cérebro frito da máquina,
o registro inflexível do algoritmo, o controle 24 horas, estado policial,  a agência de espionagem, o triunfo do asfalto sobre o mato, da burocracia sobre a criatividade, da crítica sobre a fé.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ensaio sobre o Disco


Ace of Disks, Thoth Tarot (Crowley-Harris)


O DISCO É A TERRA

E a Terra é uma grande roda. Tudo que vai, volta; do pó viemos ao pó retornaremos; a gente come, a gente caga, o adubo faz a plantinha crescer pra gente comer de novo. O dia sucede à noite, a noite ao dia; a isso todos os seres vivos se adaptaram, cada qual a seu modo - entre o descanso e a atividade. O giro do disco é inexorável, e a única certeza possível é que nada permanecerá parado, parar é a própria morte, mas mesmo a morte é só mais um passo rumo uma outra vida. O Disco é Anicca, a impermanência, e por isso a Terra é o Eterno Retorno da Diferença.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Contra o ideal ascético

(arte: Hans Burgkmair)

Rezam algumas tradições que o curso de ação mais virtuoso é a renúncia ao mundo e à sociedade: o ideal ascético. Subir a montanha ou vagar no deserto, sacrificando a vida a um outro mundo no Céu ou na extinção do Ser no Nirvana: tudo menos esta bagunça aqui de fogo, lama, sangue e poeira.

É verdade, a mais nobre verdade, que a vida na Terra é desprovida de sentido intrínseco. Que as idéias de duração, permanência, fixidez, são fundamentalmente ilusórias, assim como o "eu" que faz o sujeito da Cultura. Com isso estou repetindo os ensinamentos chave de Buda:  Eu e Duração são efeitos de superfície, que não tem nada a ver com os fundamentos da vida ou da realidade. E a maioria absoluta das pessoas passa a sua vida inteira rastejando no superficial.

Similarmente, o que passa como "cultura" hoje - e talvez na maior parte da história civilizada - é de uma pequenez de sentido que chega a doer. Quero dizer, as discussões porcaria da tevê ("Malhação discute o problema das drogas"). Mais uma geração de celulares, dessa vez com megapixels extra. Miniaturas de capacete. Vibradores em forma de super-heróis. Outro retrô nostálgico de outra década perdida. Roupas na moda este verão. Caetano estaciona no Leblon. "Porque ele não se mata de uma vez / pula logo deste prédio?" (essa frase eu ouvi várias vezes ontem). Até coisas verdadeiramente pungentes e baseadas em experiência vivida, como por exemplo o dilacerante legado da escravidão e do patriarcado, acaba diluído em briguinhas virtuais que gastam muito tempo de todo mundo e adiantam muito pouco. Tudo isso em eletrônicos cuja fome de energia justifica chutar os Munduruku pra fora de sua terra sagrada. Em petróleo cavado à custa de vazamentos de óleo como o da BP. Cuja mineração acarreta desastres como o assassinato do Rio Doce pela Samarco/Vale/BHP. Cuja produção é feita em fábricas com trabalho semelhante à escravidão. Cujos componentes tóxicos serão empilhados na Africa sob a alcunha de "reciclagem".