sexta-feira, 24 de março de 2017

Ensaio sobre o Disco


Ace of Disks, Thoth Tarot (Crowley-Harris)


O DISCO É A TERRA

E a Terra é uma grande roda. Tudo que vai, volta; do pó viemos ao pó retornaremos; a gente come, a gente caga, o adubo faz a plantinha crescer pra gente comer de novo. O dia sucede à noite, a noite ao dia; a isso todos os seres vivos se adaptaram, cada qual a seu modo - entre o descanso e a atividade. O giro do disco é inexorável, e a única certeza possível é que nada permanecerá parado, parar é a própria morte, mas mesmo a morte é só mais um passo rumo uma outra vida. O Disco é Anicca, a impermanência, e por isso a Terra é o Eterno Retorno da Diferença.



O DISCO É O CAMINHAR DOS ASTROS

Os planetas giram visivelmente no céu. E também fazem órbita elíptica em torno do Sol. A astrologia, em suas raízes platônicas, pensa os 7 planetas como ponteiros através do qual se evidenciam os pensamentos da Anima Mundi, a alma do mundo. Lua e o Sol classicamente são também planetas, pois Planeta é tudo aquilo que é brilhante e visivelmente pernambula no céu. A alma do mundo sonha as nossas vidas, e os planetas são índices desta "máquina de produzir experiências" que, através da combinação de 7 princípios básicos e de seus ângulos, geram o amor e o ódio, a guerra e a paz,  a civilização e a barbárie, o sutil e o grosseiro, o belo e o feio. Os planetas revolvem e dissolvem a matéria por suas diversas formas, como a cuia de onde o Demiurgo cozinha o mundo. (1)


O DISCO É A DÍADE

O disco é uma mistureba, mas também a possibilidade da distinção. Isso se dá pois o giro do Disco é inerentemente dual, e o 2 é a raiz de onde provêm todos os diversos números - a multiplicidade do mundo. Os platônicos dizem que a Díade representa a Opinião, pois contém em si tanto a Verdade quanto a Mentira. O disco é um só, mas ele age por duas operações opostas. O símbolo alquímico do Sal é ele mesmo um disco cortado ao meio - contrastando o grosso e o sutil. O grosso tende abaixo, o sutil tende acima, sendo preciso apenas o giro do tempo pra que ocorra a decantação. É a repetição e a experiência que permitem a separação, a diferença. E a experiência é, ela mesma, mistura, afeto, a afetação dos 10.000 seres pelos outros 10.000 seres. Por isso se diz que o disco é também o erro: pois apenas errando é possível reconhecer o acerto. Só o disco é capaz de transformar o erro em acerto.


O DISCO É A CÉLULA

E como a célula, tem um dentro e um fora; tem as membranas e tem o núcleo; um centro e uma margem. O papel da membrana é filtrar: triar os nutrientes dos venenos e invasores. Já o núcleo é a origem e fim de todas as operações; dele partem as ordens, nele está contido a chance da repetição em meio à constante mutação. É o maestro da orquestra, quem dita os ritmos, e garante a própria existência de um ritmo. Sem um centro - e uma margem que ecoe este centro! - a música se dissolve no ruído. Por isso o Disco é também duração - o Sal alquímico. A questão da duração é a dose: em excesso é rigidez (fechada em seu núcleo, a célula fracassa em absorver o que é preciso de fora); duração em falta é inconsistência e indiferenciação. Perdendo o ritmo perdemos a sincronia com a roda do mundo, e o destino pra essas células é a reciclagem. A célula é a vida imitando a própria Terra. As sociedades originais, que também imitaram a Terra, se estabeleceram em círculos fechados (e flexíveis). O mundo moderno corteja a catástrofe por se crer acima do Disco.


O DISCO É A FUNÇÃO DO ORGASMO

Foi Wilhelm Reich quem expôs para os letrados que o ato sexual não era sinal suficiente de potência orgástica. A potência pede um corpo flexível, capaz de cumprir com um ciclo ao qual ele chamou "A Função do Orgasmo": Tensão (mecânica), Carga (bioelétrica), Descarga (bioelétrica) e Relaxamento (mecânico). Qualquer impedimento que o ciclo se complete cria um gargalo que dá origem a todo tipo de desequilíbrio doentio. E um gargalo é uma estratificação - uma paralisação - muscular e libidinal no corpo. Como é o mesmo corpo que goza, vive e morre, essa rigidez não fica restrita ao orgasmo, ou: se vive e se morre exatamente como se goza. À doença "sexual" total da humanidade Reich chamou "peste emocional". A peste, que acontece em corpos vivos e por isso, pra durar, tem de imitar de algum jeito a vida - tem seu próprio mecanismo de "reprodução": o poder. O poder do estado, o poder do pai, os pequenos poderes vicários dos marginais e submetidos. Todo poder é a compensação de uma impotência, e todo poder inveja e odeia a potência, forçando outros corpos a assumir também a lógica do poder. Vida e a morte se alternam no ciclo, mas a morte em vida é inimiga do próprio Disco.


O DISCO É A MOEDA

Vamos juntando experiências como quem junta moedas. O disco é a memória, e portanto passado, permanência do passado. (O disco da Terra tem gravado em seu manto as camadas e fósseis de gerações sem fim). Experiências servem de base pra afirmação de valores - e valores abrem portas, molhando as mãos do porteiro certo. É preciso ser seletivo em quais moedas carregar conosco, pois o peso em demasia vai nos cansar na caminhada. A moeda quer circular; como na vida e na economia, segue fundamentalmente a lógica da dádiva, onde o que se dá é sempre menos do que se recebe. Quem não percebe esse truque simples confunde o metal da moeda com o valor que ela tem. E a moeda, que é verdadeiramente o corpo, suas posses e memórias, vai enfim pras mãos de um barqueiro bem famoso - enquanto o  que é sutil passa conosco para o Outro Lado.



Ás de Ouros, Tarot de Marselha
restaurado por Jodorosky-Camoin


(1) Os antigos não sabiam, mas as estrelas ditas "fixas" - as constelações - também se movem, só que muito devagarzinho. Levam mais de 25000 anos para dar uma volta no céu. Quando surgiu a astrologia, as estações do ano e as constelações foram ambos empregados pra pensar os signos. A coisa ficou confusa quando se viu que as estrelas estavam deslocando em relação às estações do ano. Os astrólogos da solução "sidereal" optaram em seguir as estrelas, os "tropicais" deixaram as estrelas girar mas mantiveram os signos colados às estações. Mas seria mesmo estranho que algum corpo físico pudesse estar parado. Até as estrelas estão no giro do mundo. Os signos, contudo - não são materiais: são imagens representativas - segundo a abordagem tropical, símbolos do ganho e perda de luz Solar ao longo do ano. Faz sentido então pensar que as constelações, como tudo mais, estão girando no zodíaco - sendo "iniciadas", signo por signo, na sabedoria do Espírito. 

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