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segunda-feira, 14 de maio de 2018

O GRANDE APRISIONADOR (Parte III - A Dúvida do Filósofo)

(aqui tem a Parte 1 e a Parte 2)


Alexandre Cabanel, Fallen Angel (1968)


TRAGÉDIA

O PECADO DE LÚCIFER FOI SER FIEL À PRÓPRIA NATUREZA. Que mais poderia colocar como oposição à Deus senão a própria natureza, divinamente criada? Ou seja Deus criou Lúcifer para ser rebelde. Deus criou o opositor.

E então o puniu? Teria Deus repreendido o próprio ato? Não pode ter sido punição. A história da punição me parece então uma suprema blasfêmia, cogitar que Deus pode afirmar o mal, que o mal é divino. E se é divina a própria perfeição, como poderia o mal ser perfeito? Se fosse perfeito, não seria mal, e sim parte da positividade do universo. Só vislumbro uma resposta: O Deus da narrativa moral é impossível. E o mal não existe senão relativamente, como efeito de superfície.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A Beleza Será Convulsiva, ou Não Será

Loïs Mailou Jones, design têxtil para Cretonne, 1928

No recente pânico moral que se levantou contra alguns ramos da Arte, lado à lado com a discussão sobre nudez e pedofilia, frequentemente emergiram também brados de "isso não é arte", contrastando as obras de estilística chocante (e também as artes demasiado conceituais) com as obras de artistas neo-clássicos ou até mesmo modernistas e surrealistas (!). "Você colocaria este quadro na parede de sua casa?", bradaram indignados os novos críticos.

Já argumentei aqui no blog que é um terrível empobrecimento pautar a Arte como uma sub-seção da Decoração. Realmente, nas paredes de nossas casas, a maioria de nós prefere imagens que transmitam conforto, porque a função principal de uma casa é refúgio e descanso. Não há nada de errado nisso, mas a vida não se restringe ao harmônico, a arte não apenas um refúgio mas também uma luta - e uma dose planejada de desarmonia pode ser ela mesma salutar, como reza o velho adágio sobre venenos na dose certa.

sábado, 12 de março de 2016

O GRANDE APRISIONADOR (parte I)

"Satan", por Kalmakoff
O psicanalista suíço Carl Gustav Jung, famoso por sua influência na espiritualidade do Sec. XX, afirma (em seu Tipos Psicológicos) que O Diabo a tentar os monges em suas provações ascéticas é nada mais nada menos que o próprio inconsciente dos anacoretas. E com isso ele não quer dizer que Satã é "parte" do inconsciente, e sim que o Inconsciente é ele próprio Satã.

Agora, Satã, o Diabo é uma figura complexa, da qual vale destrinchar um par de fios os quais são de uso para fazer sentido dessa afirmação. Os Cristãos fazem hoje o sincretismo da Serpente (do Jardim) com o anjo acusador do judaísmo, Satã, que por algum nó surreal veio a absorver o título antes reservado a Cristo: Estrela da Manhã. A imagem, certamente tributária de Milton, é a de uma estrela caída ao subterrâneo por sua Luz autocêntrica, e com ela seguiram também vários anjos, preferindo habitar o Caos da matéria desprovida de inteligência à viver sob a condução da Vontade celeste.

E assim o Diabo ganha associação com elemento Terra, uma vez que é o único elemento capaz de "resistir" à divina inteligência - aliás, o papel da Terra é durar! Vemos na carta O Mundo, do Tarot, que o Touro (que simboliza a Terra) é o único dos 4 Animais Viventes desprovido de auréola. Já chifres, e patas de bode O Diabo adquire apenas durante a idade média, durante a lenta e constante perseguição às outras religiões (ditas "pagãs"), no que absorve em seu campo semântico as deidades ferais masculinas, associadas aos cultos de fertilidade da terra.