quarta-feira, 2 de março de 2016

A Vida além da Vanguarda


No vídeo acima, postado no site conspiracionista gringo Infowars, um mauricinho INTJ ralha contra a "arte conceitual" e o tanto que ela é incompreensível e desconectada das pessoas e no fim só um disfarce pra artistas objetivamente ruins fingirem de bons enquanto degradam a cultura.

Esse é um sentimento muito disseminado, baseando-se num fenômeno real: o apodrecimento das instituições de nossa civilização desde que perderam suas raízes no mundo da Tradição. Porém a verdade é bem mais complexa que uma simples richa de bons artistas virtuosos x maus experimentalistas - e nesse mundo de excesso de informação, de que vale meia verdade desconectada do contexto?


Quando Duchamp "fez" o urinol, ele assassinava a própria noção de "arte como belas decorações" para os burgueses botarem na parede (e, ao mesmo tempo, do artista como um técnico primoroso). Toda a pretensão e pompa dos ricos ao redor da arte burguesa (em sua pobre imitação da aristocracia) foi gargalhada até a morte pelos Dadaístas, e desde então geral que engole essa fita deveria se sentir como idolatrando um urinol. Ponto.

Definir a arte pelo primor da técnica é reduzir-se a fazer objetos estéticos pros ricos comprarem. E isto é OK se o técnico ou designer está apenas buscando uma solução pra sobreviver num mundo cão. Mas quão medíocre isso se revela, comparado à grandiosidade e sutileza dos nobres ideais desposados pelas sociedades tradicionais!

Mera sobrevivência, é só disso que somos capazes? É este nosso mais alto ideal? (Claro, seria uma boa idéia não destruir o mundo. Sobreviver à nós mesmos. Em verdade nós modernos caímos tão fundo que estamos aquém da mera sobrevivência.)

Quando matamos o Rei, e varremos Deus pra fora do Estado, surgiu um buraco. Foi em vias de preencher este buraco que os Românticos do sec. XIX ousaram criar uma arte que recusava a mediocridade da ciência, da moral e da religião, buscando algo além, um "oriente ao oriente do oriente" (para citar Álvaro de Campos). A Arte como busca laica da transcendência.

Aos Românticos seguiram-se os Dadaístas, se bem que de uma maneira mais estritamente crítico-negativa; viriam depois os Surrealistas, a aventurar-se no "Inconsciente" (1), Terra Virgem de onde brota a criatividade, tentando aí um novo solo pra reconquista do sonho romântico.

Mas no fim e ao cabo o que sobrou destes todos foi mais um capítulo nos livros escolares de história da arte, e uns quadros pra burguês botar na parede (o próprio Breton, cabeça inconteste do Surrealismo, a lamentar: "Não existe mais escândalo"). Desde os Surrealistas o sonho romântico deu uma guinada político-revolucionária, e essa esperança de salvação política povoaria a alma das vanguardas que seguiram pelas décadas: Situacionistas, Provos, etc. Mas a esperança morreu de velha, a revolução revelou-se mais-do-mesmo, o Capital segue em frente e - da vanguarda: restou só o fedor, apodrecendo junto ao Deus que matamos (arrependidos).

Pra onde fugir? (Me arranja, tio, uma ilha perdida?) - infelizmente não há solução simples, nunca há. Mas se ainda há uma fagulha de vida e criação a vibrar nos peitos cansados nesse por do sol da civilização, as direções são estas:

1- É preciso fincar novas raízes no passado, pra mais antes dos aristocratas, encontrando a origem de seus Belos Ideais nas sociedades ditas "primitivas" (ou, como propôs Clastres, "Sociedades contra o Estado"), e então não parar e sim ir mais longe ainda, no sub-solo feminino silenciado e enterrado por dez mil anos de patriarcado, o tentacular "Cthuluceno" pra usar o termo cunhado por Donna Haraway;

2- Como aponta Hakim Bey, é imprescindível recusar a mediação da Alta Arte e os circuitos da Indústria Cultural, mas não como ele faz resignando-se em torná-la um tipo de artesenato comunitário (que, novamente, é algo perfeitamente OK por si só, mas não resolve a ânsia romântica que temos com a arte), e sim, como propôs recentemente Alan Moore, adentrando verdadeiramente no campo da Magia, a raiz primordial da Arte, Filosofia, Ciência e da Religião.



(1) O "inconsciente", como afirma Jung em seu Tipos Psicológicos, é o mesmo que dizer "Satã". Um automatismo de reações concatenadas, o mundo das infinitas repetições (que mais é um arquétipo, de acordo com o próprio Jung, que imensa repetição?). Mais sobre isso num post em breve!

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